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06 julho, 2013

Declaração - Wesley Alencar

“Quanta vontade tenho de fugir de ti! Quero muito partir agora e, sem olhar pra trás, começar tudo de novo, de preferência bem longe daqui. Bem longe de ti.

Eu poderia viajar, encontrar cidades pequenas e distantes, cheias de gente simples e simpática que fala pouco e trabalha muito, que dorme cedo e não se importa com detalhes.

Poderia acompanhar um grupo de turistas e escalar alguma serra, e em seu topo eu tentaria tocar as nuvens, ou tirar várias fotos sem graça para mostrar aos amigos, que fingiriam interesse e admiração só para me agradar. E se os lugares distantes não ajudassem, eu poderia ficar na casa de um amigo, distraindo-me com uma conversa divertida durante algum filme bobo, ou disputando alegremente um jogo de vídeo game, talvez até uma partida de xadrez pudesse deixar minha mente distante. Mas se nenhum amigo pudesse me acolher, eu buscaria refúgio em uma livraria, onde todas as histórias são diferentes da minha e talvez, só talvez, alguma delas me ajudasse a te esquecer.

Porém, se nada disso adiantasse, eu poderia me trancar em meu próprio quarto e prantear minha alma até que as lágrimas secassem e minha garganta se fechasse, para só então dormir com dores de cabeça e olhos inchados, torcendo pra não mais te encontrar sequer em meus pensamentos, ou torcendo pra nunca mais acordar. Sim, isso tudo já me passou pela cabeça, mas nada disto me é possível por apenas uma aflição que sofro.

Eu não consigo ficar longe de ti.

A tua presença me inquieta, como se ser eu mesmo jamais fosse o bastante e eu tivesse que escavar entre memórias e emoções até encontrar no mais profundo espaço dentro de mim até encontrar a melhor pessoa que eu poderia ser em toda a minha vida, porque é essa pessoa que você merece, e não apenas eu, fraco e imperfeito como sou.

Faço-me renascer um ser humano mais dedicado à vida a cada novo dia por sua causa, e sempre que vejo o teu sorriso encontro novas forças para me reerguer das quedas sofridas a cada dia desta vida, torcendo para que esse sorriso dure um pouco mais, não muito, apenas o bastante pra que seja eterno em meu coração.

Três palavras não poderiam traduzir esta dor que me mata ao deitar e me traz de volta à vida todas as manhãs, mas são as únicas que conheço que podem substituir meu sofrido silêncio, apesar de que não espero ouvir uma só palavra tua em resposta, em parte porque me julgo não merecedor de ti e do teu resplendor, e a parte restante apenas sabe que não sou o teu desejo. Meu único pedido aos céus é que um dia entendas meu afeto por ti, para que então tua resposta traga fim à minha angústia, seja pela liberdade de poder então esquecer-te ou pela divina realização de ser abençoado por te amar, e assim seguir pelo resto dos meus dias.

Te amo pra sempre”.

Ela examinou a carta por mais alguns instantes, então fitou a noite através da janela aberta, contemplando o luar. Com o olhar perdido, suspirou profundamente, para então largar a carta sobre a escrivaninha próxima à cama e deitar-se, puxando o pesado edredom sobre si e pensando que talvez logo pela manhã devesse fazer uma ligação, pedindo a visita de um jovem escritor apaixonado.

01 julho, 2013

Mãos Trêmulas - Wesley Alencar


    No pequeno escritório ouviam-se apenas duas coisas, batidas de salto alto no assoalho de madeira e suspiros nervosos. Com as dezenas de livros empilhados nas estantes como única companhia, Lua sentia-se mais solitária do que jamais havia sido em toda a vida até aquele momento e tudo que precisava, ou pensava precisar, era que sua melhor amiga estivesse ali para lhe dizer alguma coisa, qualquer coisa. Contar como conheceu na lavanderia uma senhorinha viúva que criava doze gatos, explicar o que significava a palavra esquisita que Lua encontrara em um dos manuais de medicina do irmão, prometer que vai dar tudo certo. Qualquer coisa, ou até mesmo nada, afinal apenas um abraço de quem amamos já é o bastante pra nos fazer sentir melhor e mais seguros. Mas dessa vez Lua teria que encarar tudo sozinha, bem, não exatamente “sozinha”, porque o prédio estava lotado, mas ninguém além de Júlia poderia fazê-la sentir-se melhor naquele momento tão tenso, tão... tão...

    Em um dia comum Lua estaria falando sozinha, questionando a si mesma que motivo teria para estar tão apreensiva. Diria na frente do espelho coisas como “Deixe de ser infantil garota, você é muito maior que isso!”, mas lhe faltavam palavras, sua garganta secou e o coração pulsava tão forte em seu peito que pensou por bastante tempo que poderia ter um infarto ali mesmo. Que jeitinho mais ridículo de morrer. Deus me livre, pensou.
     E continuava a caminhar.

     Ela não notou o tempo passar, e assustou-se com o movimento brusco da porta de carvalho que se abriu revelando sua prima Ana, que de todas as sete era a que mais se aproximava de ser uma amiga, acima dela estava um relógio de parede redondo de moldura dourada que marcava meio-dia, o que a deixou ainda mais assustada. Ana entrou no escritório, a examinou como se fosse um alienígena e esboçou um ar do que pareceu ser repulsa.

    – Você andou chorando?

    É claro, sua bocó, o que mais eu faria ficando aqui sozinha esse tempo todo?

    Lua manteve seus pensamentos para si, saltitou para a pequena porta que levava ao banheiro e instantes depois regressou com passos incertos e respiração ofegante. Do lado de fora do escritório ela já podia ouvir o burburinho que vinha do outro lado da grande porta dupla a qual se dirigia. Ana guiou-a a um corredor onde encontrou seu pai examinando o celular inquieto, até percebê-la, quando desligou e guardou o aparelho e olhou-a nos olhos com o ar duro que só um militar reformado tem.

    – Estava chorando, menina?

    Mas que droga, tá tão na cara assim?

    Ela apenas abriu um sorriso amarelo, o bastante para o Sr. Clóvis entender como se sentia. O sisudo senhor hesitou por um instante, então beijou-a suavemente na testa e guiou a pequena mão trêmula e gelada da filha em torno de seu braço.

    As grandes portas se abriram, revelando o grande salão com dezenas de pessoas observando-a. A música tocava muito alta, quase não havia pétalas espalhadas no caminho, um casal de conhecidos seus chegava atrasado de mansinho pelo corredor lateral, suas costas estavam doloridas de tanto caminhar sobre os saltos e suas mãos não paravam de tremer, e questionava a si mesma: “Será que o vestido tá manchado ou torto? Eu retoquei a maquiagem, mas e se tiver borrado de novo? Se eu não me controlar e parar de tremer agora vou acabar caindo. Ai que vergonha!”.

    Luanna estava completamente possuída pelo nervosismo. Até ela olhar diretamente à sua frente, onde ele a estava esperando. O homem da sua vida.

    E como num passe de mágica, tudo que estava errado passou a ser perfeito.
    E ele disse sim.

O Acidente - Wesley Alencar

Três garrafas tilintavam sem parar debaixo do banco do motorista, e depois uma quarta garrafa foi arremessada junto às outras, chegando a derramar um pouco de cerveja. Quando Beto percebeu que tinha sujado o carpete novo do carro do irmão xingou muito, e logo tateou o porta-luvas em busca de qualquer pedaço de tecido que pudesse usar pra limpar a sujeira, dividindo a atenção entre a procura e o tráfego relativamente tranquilo à sua frente. Não tranquilo o bastante para que ele desviasse da garota que atravessava a rua de cabeça baixa.
Não o bastante para evitar um desastre.

Por um instante o efeito do álcool passou completamente. Lúcido, Beto percebeu que não tinha nenhuma das mãos no volante, que o carro mudou de faixa bruscamente, que um garotinho brincava com seu cão na calçada, e que a moça de cabelos cor de ferrugem parecia muito apressada e perdida em pensamentos, e que ela não percebeu o veículo se aproximando. Foi quando ele pisou fortemente no freio, e então o mundo virou de ponta cabeça, voltou ao normal e inverteu-se novamente, para manter-se assim.

Beto não sentia nada além de dormência por todo o seu corpo. A visão meio turva ainda lhe permitiu distinguir algumas silhuetas cruzando de um lado para outro diante de si. Ele chegou a ouvir algumas vozes indistintas, porém alarmadas, que se intensificavam na medida em que as silhuetas se aglomeravam ao que ele achava serem alguns metros adiante, até que uma das vozes lhe soou distinguível.

- ...Eu perguntei se você tá bem! Não se mexe, tá? Já chamamos o socorro.

Beto não conseguia exprimir uma palavra que fosse, sequer sentia seus lábios. Foi acometido por uma leve tontura, que aos poucos se intensificou até que sua cabeça latejasse de dor. As silhuetas ainda não lhe eram completamente nítidas, mas ele pôde perceber que eram pessoas socorrendo a garota que ele vira antes do acidente. Ele notou que ela ainda estava deitada e parecia imóvel, cercada do que ele julgava serem transeuntes ocasionais que presenciaram o acontecido. Por um instante Beto viu parte do rosto da moça e notou que muito sangue lhe escorria, vindo de vários lugares.
Apesar de não sentir nada além da dor de cabeça, seu coração ficou apertado.

Quase desfaleceu algumas vezes, mas sempre que sentia a escuridão cobrir-lhe, respirava bem fundo e tentava falar alguma coisa, ou pensava em seus pais que faleceram em um acidente muito similar. Chegou a imaginar se esse não seria seu destino, morrer como seus pais morreram. Como se estivesse predestinado por uma maldição de abandonar os que dependiam dele, assim como aconteceu com seus pais. Mas não podia de maneira alguma abandonar suas meninas.

Beto tinha duas filhas gêmeas de cinco anos. A mãe era uma antiga namorada que abandonou as crianças em sua porta sem justificativa alguma, e desde então manteve-se fora de contato. Beto acreditava que ela teria se mudado para o exterior, mas era melhor assim, afinal sabia que ela seria uma péssima mãe. As crianças estava na casa da avó, onde passariam o fim de semana, para fazer companhia à senhora viúva que tinha como amigos apenas os conhecidos da igrejinha que frequentava.

Depois de algum tempo o socorro chegou. Os paramédicos agiram em conjunto com os bombeiros para retirá-lo em segurança do carro apenas com algumas escoriações e cortes superficiais causados por fragmentos soltos do para-brisa. Beto recebeu tratamento emergencial e um colar ortopédico, mas rejeitou ser carregado de maca até a ambulância. Levantou-se e caminhou apoiando-se a um dos socorristas, e no meio do caminho viu a garota que antes estava caída no chão ser levada até outra ambulância próxima, mas dessa vez pôde enxergar seu rosto perfeitamente. Era uma mulher jovem, muito bem vestida, tinha um semblante doce, porém forte, exatamente como Melissa, uma de suas filhas. Alguém que ele poderia amar pro resto da vida, se não a tivesse tentado matar.

“Ah meu Deus! E se tivesse sido Melissa, o que eu faria? Preciso reparar isso, pelas minhas pequenas... e por ela.”

Então Beto, contrariando o socorrista que o conduzia, desistiu de subir naquela ambulância e apressou o passo para alcançar a outra. Disse ao paramédico que conhecia a moça e sentou-se ao seu lado.
As sirenes cortaram a noite carregando uma dúvida de sobrevivência e uma certeza de mudança plena.

“Você vai sair dessa, nem que eu precise dar a minha vida pra isso”.

E ele deu.

A Partida - Wesley Alencar

     - Volta aqui, eu ainda não terminei!

     A voz de Julia ressoava em todos os cômodos da casa. Lucas atravessou o vão da porta, seguido pela namorada. Ele estava exausto, física e emocionalmente, porém, nada que dissesse faria diferença alguma naquele momento.

     Lucas atravessou o jardim e abriu o portão de grades de ferro recém pintadas para encontrar a rua deserta e úmida. Chovera muito naquele dia, um tempo ruim acompanha uma fase ruim, pensou.

      - Lucas! – gritou a garota – Se você sair por esse portão agora não precisa mais voltar. Eu to falando sério.

      Julia estava de pé sob o alpendre, de braços cruzados e com um olhar de desafio, aquele olhar determinado pelo qual ele se apaixonara. Ela não entende, não faz a menor ideia do que estou fazendo. Ele encarou a rua mais uma vez, achava que logo a chuva retomaria seu ritmo forte, como fora nos três últimos dias. Procurou a lua sem sucesso, pois ela estava oculta pelas espessas nuvens escuras que também lhe omitiam as estrelas. Ao voltar seus olhos novamente para Julia, viu que ela se mantinha na mesma posição, encarando-o enquanto lutava para conter as lágrimas que ambos sabiam que viriam, e os dois se olharam por um longo momento. Ela suspirou uma, duas vezes, e quando pareceu que iria dizer algo, calou-se, pois o garoto começou a refazer o caminho de volta para a casa, os ombros baixos e a respiração lenta. Cada passo parecia durar uma eternidade, e ele sabia que cada passo daqueles poderia estar lhe custando a eternidade.

      Julia empertigou-se e descruzou os braços que se enrijeceram ao lado do corpo enquanto ela cerrava as mãos, expressando sua ansiedade do modo mais previsível possível para Lucas, que precisou se esforçar para não exprimir um sorriso, apesar do sofrimento que lhe acometia. Lucas parou a um passo da garota morena de pele tão macia e pálida, pousou as mãos sobre seus ombros de forma suave, olhou bem no fundo dos seus olhos marejados e esperou o desafio no olhar se tornar incerteza, receio, e então súplica.

      - Palavras não bastam pra que eu consiga explicar a felicidade que sinto ao acordar de manhã ao teu lado. É o seu sorriso que me dá forças pra continuar todos os dias e é pensando nele que eu conquisto as minhas vitórias, porque pra mim ele é o melhor fruto de todo o bem que eu faço, mesmo quando você não está por perto. – Lucas curvou-se um pouco para poder continuar a olhá-la nos olhos, pois Julia estava ruborizada com suas palavras – Eu já disse isso algumas vezes, mas acho que você não entendeu ou não acreditou, então vou dizer mais uma vez. – suspirou profundamente erguendo os ombros fitando-a com serenidade no olhar, em seguida, proferiu as palavras lenta e carinhosamente – Eu te amo desde o primeiro dia em que te conheci, e tudo que tenho feito desde então foi pra fazer você feliz, porque é a sua felicidade que me motiva. Eu te amo com tudo o que tenho e com tudo o que sou. Preciso partir, mas vou voltar, eu prometo. Eu sou seu, pra sempre.

25 fevereiro, 2011

Roleta Russa

Escritor: Chico Anes


Vivemos como formigas. Movemo-nos freneticamente dentro do formigueiro, sem saber que lá fora um pé tapa o sol e desce sobre nossas cabeças operárias, acabando com todo o ir e vir aqui embaixo. Eu sou esse pé.
Minha vida esgotou-se quando eles chegaram. Até então eu vivia como qualquer homem, odiando meus semelhantes, tentado a arrancar as tripas do vizinho todas as vezes que era obrigado a dividir o elevador com ele pela manhã e sentir o cheiro de perfume barato. Vivia sonhando com um gás venoso que extinguisse a todos. Quem de nós não desejou um dia, mesmo que de maneira breve, ter o poder de acabar com toda a humanidade? Eu desejei por várias, várias vezes, mas sem conseguir os meios de realizar essas vontades. Sempre a mesma coisa: acordava calmo, e, pelos mais diferentes e legítimos motivos, num crescente ao longo do dia, assaltavam-me a irritação, a raiva, o ódio, os planos alucinóticos de julgar, condenar e executar a pena de morte global; depois, à noite, vinha o sono e seus vapores frustrantes, e de novo a calma.

Isso até eles chegarem.
Aconteceu logo após o anúncio da bomba de matéria escura. O homem finalmente criara a arma definitiva! Nada de fogo e trovões. O apocalipse carecia nova edição. O fim da vida na Terra chegaria com um abismo de negritude infinita.  O Armagedom viria com a matéria escura a engolir partículas, ondas, leis; o rigoroso apagar das luzes de nosso teatro de espectros. A bomba traria a Nova Ordem mundial, pregava a ONU, a Paz Negra entre os homens e boa e má vontade!

Como todo discurso oracular, também esse continha meia verdade: sobreveio realmente a tal Nova Ordem, a Paz Negra, mas não foi instaurada pelo temor ao dispositivo assassino. Foram eles que a impuseram.
Aportaram na Terra sem aviso ou preparativos, a imensa embarcação estelar flutuando sobre nossas cabeças, fantasmagórica, a versão alienígena da barca de Caronte adornada para transportar a todos nós, recém-mortos, ao inferno prometido. A nave chegou ocultando o sol em zênite, antecipando a permanente escuridão que se mesclaria à alma humana.

E naquele dia acreditávamos mesmo que o fim do mundo havia chegado com os ET´s: o choro e o riso eram uma coisa só. A fé e a razão, depois de secular duelo, largaram as armas e reconciliaram-se como crianças. Covardes e fortes abraçaram-se num único lamento. Quem eram aqueles seres? O que queriam de nós? O que fariam de nós? Com que direito plainavam em nossos céus, extinguindo nossa mitologia, desmentindo nossas crenças? O medo da escravidão inoculou-se imediatamente em todos os corações. A longa experiência humana em um passado de invasões e escravidão não deixava dúvidas sobre o destino dos povos mais fracos. E olhando para a nave imponente, não tínhamos dúvidas de quem eram os conquistadores, e quem era a caça.

A notícia viajou pelo planeta. Os jornais informavam que cada grande cidade do mundo tinha, suspensa sobre as cabeças aterrorizadas de seus habitantes, sua própria guilhotina espacial.
Milhares de armas foram apontadas para o céu, enquanto políticos e médiuns eram trazidos para negociar pela humanidade. Se eles falhassem, se as armas falhassem, ainda tínhamos a terrível bomba de matéria escura.
Percebi que não mais receava a invasão; o medo inicial que sentira havia desaparecido. Nunca gostei da idéia de morrer sozinho, mas se no meu último dia de vida pudesse levar comigo toda a Terra, iria sem receio. A morte coletiva não me assustava.

Lembro-me que foi ao entardecer quando a espaçonave falou. Recordo-me com precisão do horário, pois desde que o homem aprendeu a articular palavras, jamais o planeta conheceu silêncio tão profundo. Todas as bocas humanas se calaram, em todas as partes do mundo. Junto com a voz alienígena, um holograma revelou-se no céu. Deus enfim mostrava sua face! Confesso que o achei incomodamente parecido com nossa própria raça. Em quase tudo éramos parecidos, mas principalmente os olhos: pequenos, próximos um do outro, bem no centro do crânio, só viam o que estava diretamente à frente. Impedidos de captar o supérfluo, e com a mente alimentada apenas pelo essencial, possivelmente aqueles olhos eram diretos nas observações, avessos à filosofia. Exatamente como nós…
E assim eles se mostraram em seu primeiro e único discurso, ouvido por cada nação da Terra em seu próprio idioma.

Estavam aqui por causa da bomba de matéria escura. Acompanhavam o desenvolvimento do homem desde sua transmutação símia. Conheciam nossa infantil vocação à temeridade, anotaram nossa displicência com a vida e a estranha e exclusiva capacidade ao suicídio.  Registraram nossa descoberta de como produzir fogo da madeira, e depois do átomo. Riram de nossa prepotência ao pregarmos o mimetismo divino. Disseram ainda que continuariam apenas como observadores, divertindo-se com nosso engatinhar evolutivo, se não fosse a nova arma. A explosão de matéria escura afetaria o equilíbrio da Via Láctea, com conseqüências imprevisíveis às vidas extraterrestres que ignorávamos. Por isso estavam aqui. Vieram manter nossa inconseqüência presa a este planeta.
A mensagem foi clara, e de tanto ser repetida pelos meios de comunicação, tornou-se mais conhecida que qualquer ladainha antiga, mais sussurrada que as ininterruptas orações de desespero. Era horrivelmente direta e dizia:
“A bomba de matéria escura será desativada e destruída.
Qualquer povo que tentar construir uma nova arma será exterminado.

Para evitar que as fronteiras terrenas ou a hierarquia entre sub-raças humanas instiguem tentativas de novos artefatos bélicos, será instalada em cada cidade do planeta, da maior delas ao minúsculo vilarejo, um pedestal com cerca de um metro de altura, lapidado em metal desconhecido; no topo do pedestal haverá uma redoma transparente protegendo o botão do Julgamento: o acionador do Armagedom.
Qualquer ser humano terá o direito de caminhar até o pedestal, abrir a cúpula e apertar o botão. Imediatamente uma descarga elétrica matará quem o houver acionado. Mas haverá um – apenas um pedestal –, desconhecido por todos deste planeta, que terá a capacidade de fulminar não apenas quem se dispuser a acionar a tecla mortífera: esse único dispositivo terá o poder de exterminar toda a raça humana!
Qualquer tentativa de impedir quem quiser tentar a sorte com o botão será punida com a morte. Depois de acionado qualquer um dos dispositivos, um algoritmo de função aleatória mudará a ordem dos pedestais, e novamente ignorar-se-á qual deles poderá destruir apenas o homem que o ativou ou todo o planeta.”
Para garantir a ordem, os alienígenas estariam vigilantes!

Após o breve pronunciamento, as naves se foram, flutuando como catedrais profanas, levando embora os novos deuses, mas deixando aqui na Terra o terror materializado em milhares e milhares de pedestais, lápides metálicas com o epitáfio a toda raça humana.
Desnecessário descrever a confusão que se seguiu àqueles dias. Os militares enviaram tropas para cercarem os cilindros, mas todas foram dizimadas. Os governos construíram enormes muros ao redor dos pedestais, apenas para verem as pedras compactas virarem poeira e os construtores desaparecerem. Nada adiantava. Não havia meios de isolar aquelas armas de tambores carregados: milhares de balas apontadas para a cabeça de um só temerário por vez, apenas uma destinada ao coração de toda a humanidade.
O homem deveria aprender a viver com aquele absurdo.
O primeiro a tentar extinguir nossa espécie foi um jovem. Havia brigado com a namorada. Acreditava que todos deveriam pagar, não se sabe bem o quê, já que a carta que deixou não foi muito bem escrita. Talvez ele acreditasse que todos morreriam com ele e não sobraria ninguém para a leitura. Achou que teria a sorte de apertar o botão fatal, levando à morte todos os homens, não somente a ele próprio. Estava errado.
O segundo foi um doente terminal.
O terceiro um louco.

Nos primeiros anos o sono fugiu das noites. Ninguém mais conseguia dormir sem acordar na madrugada, suando, afobado, gritando aos algozes oníricos que não apertassem o maldito botão. As ruas eram povoadas por zumbis, que evitavam trocas de olhares, temendo ver no vizinho seu futuro assassino, aquele que encontraria o pedestal certo.
Mas o homem é espécie vencedora pela sua capacidade de adaptação, e enquanto templos novos eram construídos para novos deuses, leis impunham futuros comportamentos. Bebida alcoólica, drogas, televisões, ou qualquer droga que alterasse o estado normal de consciência foram proibidas; a punição para a transgressão: a morte! A loucura foi declarada doença-crime: a morte era a pena! Roubo, discriminação, assassinato, adultério, ou qualquer ato que provocasse desespero ou intenção de vingança era castigado com a morte, sumariamente. Acabou-se a pobreza, assim como a riqueza. Aos poucos os bens foram redistribuídos, e a cada dia tornamo-nos mais e mais iguais, em tratamento, em oportunidades, em sonhos. Não poderia haver motivos para alguém desejar apertar um dos abomináveis botões.
E realmente as tentativas foram diminuindo, escasseando, até pararem de vez.
O homem passou a viver comodamente, maquinalmente, desempenhando suas funções e sendo recompensado com igualdade absoluta; tal como formigas…
E neste nosso grande formigueiro, sem mais a possibilidade de acumular ouro ou poder, até as fronteiras foram apagadas.

Apenas eu continuei com meu desprezo por todos os homens, com minha vontade secreta de arrancar as tripas do vizinho, mas agora tendo a disposição o tal gás venoso que extinguisse a vida. Ah! Cada célula de meu corpo, educada pela amargura, consumia-se, e eu definhava dia a dia. Por quê? Há motivo para um sentimento tão primitivo quanto o ódio? Ou há muitos? Talvez por eu haver sido clonado? O desgastado motivo edipiano? Sim, fui gerado de um pedaço de pele. Em minha concepção não existiu o pulsar contínuo, significado da vida. Não existiram as contrações mútuas de meu pai e minha mãe, dele para deixá-la, dela para sugá-lo; nós três vibrando em unicidade. Fora do meu corpo só o vidro inerte, sem calor nem cumplicidade. Eu fui gerado sem esforço, sem apoteoses. Somente continuei uma tragédia; a tragédia de meu pai com seu falo egocêntrico. Talvez seja isso. Talvez. Ou quem sabe seja apenas ruindade; nata, irremediavelmente humana, mesmo que clonada.

Preciso apertar aquele botão. Sei que é ele o botão especial. Venho-o observando há tempos. Desde a última roleta aleatória percebi nele uma sutil diferença: ele tenta se disfarçar. Não, não estou louco. Por vezes passei ao lado do pedestal sem notá-lo, assustando-me por quase haver me esbarrado nele e não o ter percebido. É como se ele vestisse das cores evanescentes da ilusão, confundindo-se com o ambiente, ondeando quando tentamos fixá-lo com os olhos. É ele. Sei que é. Ou por que ele tentaria se esconder?
Caminho até o pedestal e abro a redoma.
Ninguém me impede.

Como as formigas, meus semelhantes vêem apenas a fila. Como as formigas, em seu incessante ir e vir, esquecem-se da sombra assassina tampando o sol, descendo sobre o formigueiro. Assim, onipotente como o Deus antigo, preparo o pé, e o deixo cair sobre a cabeça de todos.

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Retirado de O Nerd Escritor

17 fevereiro, 2011

A Fenda

Escrito  por  K z a r 
     A cabeça de Rujanm parecia girar enquanto tentava se levantar. Retirou o elmo, amassado profundamente onde fora atingido por um golpe de bastão. Um simples bastão. Jogou a inútil peça da armadura no chão de pedras.

      Havia se preparado praticamente a vida toda para aquela busca. Desde que ouvira falar da Lenda da Armadura Negra, cada um de seus dias na Ordem Templária de Samiel tinha um único objetivo: vestir a indestrutível indumentária do Cavaleiro D’Ardon.

      A lenda era muito clara. Contava de um Cavaleiro Templário que, lutando e vencendo o dragão negro Tabuloon, conquistou o direito de vestir uma armadura forjada pelo Ferreiro Nai No Kami, o grande Mestre da Forja. Além disso, o Cavaleiro passou a ter o domínio sobre o dragão vencido.

      Grandes foram os feitos de D’Ardon sob o uso da Armadura Negra e, antes de sua morte, a escondeu na floresta ao sopé do Templo do Sol. Segundo a lenda, Tabuloon passou a ser o guardião da armadura. Aquele que o derrotasse em batalha, conquistaria o direito de vestir a indumentária.

      Mas algo estava errado nesta lenda. Em todos os pergaminhos que estudou sobre seu objeto de desejo, não havia qualquer menção à estranha figura à sua frente. Um velho homem de branco impedia a passagem em uma fenda rochosa, onde Rujanm tinha plena certeza de que estava escondida a Armadura Negra.

      Bastava atravessar a Fenda, lutar e vencer Tabuloon. Feito isto, o conjunto de guerra do Cavaleiro D’Ardon seria seu.

      Ofegante, Rujanm levantou os olhos e observou o homem de branco. Uma aura sobrenatural parecia circundá-lo por inteiro, como se tivesse uma estrela d’alva escondida por baixo das longas barbas claras. O cabelo, igualmente longo, caia em uma trança única nas costas do guardião da Fenda.

      Enquanto Rujanm trajava uma armadura Templária completa, incluindo a capa branca com a cruz vermelha de quatro pontas iguais, o velho vestia unicamente uma alva túnica.

      — Vá embora – disse o homem de branco. – Não há nada para você além da Fenda.

      — Não vim de tão longe para voltar sem luta – respondeu o Templário.

      — Se você não percebeu, nós já lutamos – sorriu com sarcasmo. – E você perdeu.

      Era difícil reconhecer a derrota, mas o fato é que, a princípio, Rujanm tentou argumentar com o velho que lhe impedia a passagem. Porém, depois de alguns insultos da insignificante criatura de branco, decidiu dar-lhe o merecido corretivo. Não utilizou arma, pois acreditou que daria cabo do inconveniente com as mãos limpas. Enganou-se. Foi recepcionado por saraivadas de golpes com o bastão que sustentava o velho. Numa agilidade incompatível com sua idade, o homem de branco surrou o Cavaleiro que tentava forçar a passagem.

      O último golpe atingiu a cabeça de Rujanm, jogando-o para fora da estreita Fenda.

      — Fui complacente com você, velho – disse puxando a espada. – Não tenho tempo para brincadeiras. Saia do meu caminho ou vou trespassá-lo agora.

      — Tenho certeza de que sua língua é mais hábil que sua esgrima – sorriu o velho. – Se você preferir, lutarei sem o bastão e poderei dar umas palmadas nesse seu traseiro de criança insolente.

      O insulto impulsionou Rujanm para dentro da Fenda. Antes que ele desferisse o golpe frontal, recebeu a ponta do bastão no queixo. Sua cabeça inclinou-se para trás e foi golpeada mais duas vezes.

      O Templário tentou contra-atacar, mas a estreita parede rochosa não permitia o giro completo da espada. A lâmina faiscava nas pedras enquanto o guardião da Fenda surrava-lhe novamente.

      Fixando o bastão nas paredes, o homem de branco apoiou-se nele e encheu o peito de Rujanm com um chute que o expulsou novamente da passagem.

      Enquanto ofegava, o Templário tentou retomar  a postura. Cambaleou, mas permaneceu em pé, contemplando o sorridente homem que não havia cedido um único centímetro para dentro do caminho.

      O orgulho do Templário estava mais ferido que sua carne, latejante em dor em várias partes do corpo.

      — Eu não quero te machucar de verdade – disse Rujanm. Sua condição não dava qualquer credibilidade às palavras.

      — A questão é: você consegue me machucar?

      Um Templário treinado nas Artes de Samiel poderia machucar qualquer criatura viva. Vários ritos de defesa e ataque eram ensinados e Rujanm era um mestre na Arte do Fogo.

      — Sim, eu consigo – disse o Cavaleiro enquanto chamas subiam pelo fio de sua espada. – Deixe-me passar, agora – o fogo inflamou até punho e tomou conta do braço que segurava  o ferrão metálico.

      — Prepare-se para ser machucado, Cavaleiro Templário. – desafiou o guardião.

      Rujanm cruzou a espada por três vezes no ar e projéteis na forma de lâminas incandescentes foram lançadas contra o oponente.

      O trio de lâminas de fogo explodiu na palma da mão direita do homem de branco. O Cavaleiro Templário o fitou enquanto as alvas madeixas acentavam após o impacto dos projéteis.

      Como que impulsionado por uma forte rajada de vento, o Guardião voou na direção de Rujanm. Raios crepitavam ao redor de seu corpo e faiscavam em toda a extensão do bastão que empunhava fortemente, dando-lhe a aparência de um deus do trovão.

      Em campo aberto, Rujanm conjurou uma barreira vermelha, mas ela foi quebrada com o primeiro golpe do velho. A cada golpe que o atingia, seu corpo sofria espasmos de violenta dor, como se uma onda de choque intenso contraísse seus músculos.

      Finalmente, o Templário se viu deitado com o bastão apoiado no queixo. O homem de branco lhe pisava na altura do peito.

      — Vá embora e diga que não encontrou o que procurava. Ou diga que um velho o derrotou. Não conte qualquer detalhe da batalha.

      Rujanm não disse palavra e sentiu o bastão ser enfiado mais forte na garganta. A voz do homem tornou-se ameaçadora:

      — Faça um juramento Templário, ou morra agora.

      — Com meu sangue – raspou a mão esquerda na lâmina da espada que estava deitada ao seu lado – e pelo sangue de Samiel, eu juro. Farei o que você ordena.

      Selado o juramento pelo rito, Rujanm levantou com dificuldade.

      — Quem é você? – perguntou.

      — Sou o homem que te venceu em batalha. – Sorriu-lhe o velho.

      Sabendo que não teria melhor resposta que aquela, o Cavaleiro Templário desceu pela floresta e voltou para seu Templo, na distante cidade de Nova Tahyma.

      Depois de contemplar a partida do guerreiro, o homem de branco atravessou a fenda. Uma baforada quente soprou-lhe os cabelos e ele acariciou o focinho de um grande dragão negro.

      — Não será hoje, meu amigo Tabuloon, que você encontrará seu novo Mestre. Apenas aquele que derrotar o único que te venceu em batalha conseguirá suportar o que virá depois da Fenda.

      Esta era a estranha maneira de D’Ardon, o Lendário Templário, proteger a vida dos incautos Cavaleiros da Ordem de Samiel que desejavam sua Armadura Negra, a qual jazia mais adiante, descansada num altar de pedra, fitando inconsciente com sua carranca de dragão a alva luz que provinha daquele homem de branco.

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Retidado de Contos Fantásticos

12 fevereiro, 2011

12ª Concurso Nacional de Contos Josué Guimarães

Instalado em 1988, o Concurso Nacional de Contos Josué Guimarães homenageia o jornalista e escritor sul-rio-grandense que apoiou a criação e expansão das Jornadas Literárias de Passo Fundo, que se realizam a cada dois anos desde 1981.

O concurso destina-se a contistas, com obras publicadas ou não, que apresentem textos inéditos. Cada participante deverá apresentar três contos. As inscrições serão realizadas do dia 31 de janeiro de 2011 a 01 de junho de 2011.

As inscrições podem ser feitas através da entrega de originais no local de inscrição ou por correio. Não serão aceitas inscrições por e-mail.
 
As cópias dos três contos devem ser remetidas ao endereço:
Universidade de Passo Fundo
14ª Jornada Nacional de Literatura
Centro Administrativo, Campus I – BR 285 KM 171
Bairro São José – CEP 99001 – 970 – Passo Fundo/RS
Fone/Fax (54) 3316.8368
Informações sobre o concurso podem ser obtidas pelo site e-mail jornada@upf.br 

Apresentação dos Trabalhos
Os originais deverão ser apresentados em 04(quatro) vias, em formato A4, digitados numa só face, em espaço 2, fonte Times Roman, tamanho 12 e identificados apenas com o pseudônimo do autor. As 04 vias deverão ser reunidas em único envelope, no qual deverão constar o título do concurso e pseudônimo do autor. Nesse mesmo envelope, deverá ser colocado um outro envelope, contendo a identificação do autor, seu endereço completo, um breve currículo e a indicação dos títulos dos contos.

Julgamento
Os trabalhos serão julgados por uma comissão indicada pelas instituições promotoras, e o nome dos vencedores será divulgado na abertura da 14ª Jornada Nacional de Literatura, em 22 de agosto de 2011, no Circo da Cultura de Passo Fundo. Não caberá recurso às decisões da Comissão Julgadora. PREMIAÇÃO Os dois melhores contistas receberão prêmios no valor de:
 
•1º lugar: R$ 5.000,00 (cinco mil reais); Troféu Vasco Prado
•2º lugar: R$ 3.000,00 (três mil reais); Troféu Vasco Prado

Alguns trabalhos poderão ser destacados com menção honrosa, a critério da Comissão Julgadora. Os contos premiados poderão ser editados em antologia organizada pelo Instituto Estadual do Livro, a ser publicada em coedição com a Fundação Universidade de Passo Fundo e Prefeitura Municipal de Passo Fundo.

Outras Disposições
Os casos não previstos por este regulamento serão resolvidos pela Comissão Julgadora. A inscrição implicará, por parte do concorrente, a aceitação dos termos do presente regulamento, bem como a cessão, sem ônus, dos direitos autorais dos trabalhos inscritos, para eventual publicação, até 05(cinco) anos após o encerramento do concurso.  
 
 

10 fevereiro, 2011

"Algozes" - Leandro Reis

 
      
      Quando subo esta colina, onde descansa o túmulo que deveria ser meu, sempre tenho a mente invadida pelas lembranças do passado. 
       Uma época onde Crown orgulhava-se das riquezas e poder que ostentava. Atributos estes, conquistados com muito sacrifício pela minha linhagem. Sempre que visito este jazigo, meus pensamentos agitam-se e não consigo deixar de pensar em como aquele dia sangrento mudou minha vida.
       A manhã de outono em que conheci meu algoz ficaria selada também como o dia em que descobri do que era capaz.
       O vento podava as árvores naquele início de outono, estendendo um belo tapete de folhas marrons sobre a praça central. O olhar das crianças transmitia alegria enquanto corriam em volta do monumento em memória ao fundador destas terras. Nossas belas mulheres ainda sorriam e o povo se animava em vista do crescente comércio com as terras de Oberil.
       Lembro-me de estar apanhando ameixas para as crianças quando a primeira bola de fogo cruzou os céus. Vários olhares pasmos acompanharam aquele sinal de morte, que voou por nossas cabeças até chocar-se contra uma casa, explodindo em chamas para consumir tudo em sua volta.
       Mas foi ao procurar sua origem que meus joelhos tremeram. Ao fitar o céu azul e ver, com olhos de um guerreiro que desconhecia a guerra, mais uma dezena daquelas esferas flamejantes, arautas da destruição.
       Segurei as crianças e as arrastei para casa, deixando-as com seus pais. Desembainhei minha espada por reflexo, deixando-a preparada para o desconhecido. Saí pelas ruas, observando o caos. Os soldados ordenavam que eu procurasse abrigo e eu os ignorava, procurando por um inimigo ou por uma chance de ajudar na defesa da cidade. Eu andava em círculos, assim como nossas defesas, que não entendiam o que acontecia. 
       — Rodall! – veio a voz conhecida ao mesmo tempo em que a mão forte tocou meu ombro. – Me siga.
       Não ousei desobedecer. Jamais o fizera. Não com o Lorde de Guerra Callian, conselheiro de meu pai e meu tutor desde a infância. Seguimos pelas ruas da cidade em chamas, rumo ao castelo. Aquela chuva de fogo espalhara caos e morte, liberando o medo de cada súdito de Crown.
       Então portais abriram-se, círculos vermelhos emitindo luz em direção aos céus. E vieram os inimigos. Alguns de nossos soldados mais ousados atravessavam o círculo, sumindo na luz, para lutar no campo inimigo. Enquanto outros cercavam as passagens mágicas, para confrontar a horda que saía do desconhecido.
       Continuamos nossa corrida até chegar às muralhas do castelo. Os portões de madeira e aço mantinham-se firmes, mesmo sendo forçados por um aríete inimigo. Uma criança chorava ao longe e uma mulher chamava por seu marido. Gritos de desespero fundidos ao som do aço e fogo podiam ser ouvidos. Por todos os lados encontrava-se apenas o caos.
       — Galio! – chamou meu tutor, logo que nos aproximamos da torre leste de vigia.
       O grito chamou a atenção de alguns invasores. Minha espada mantinha-se firme, ainda virgem de qualquer sangue inimigo, mas treinada por anos de dedicação e vontade de proteger meu povo. Mais invasores vieram, alertados pelos primeiros.
       Teriam chego a nós e o combate aconteceria, mas uma voz conhecida entoou palavras antigas, preenchendo o ar com seu poder. O chão então tremeu e as rochas ganharam vida, empilhando e juntando-se até erguer do solo uma forma humanóide de pedra e terra. Gigantesco, o guardião elemental rugiu e socou o chão de modo intimidador, desafiando o inimigo a avançar. E eles aceitaram o desafio, somente para serem esmagados pelos poderosos punhos e pés do guardião.
       Só então Gálio, o mago de guerra, surgiu dos céus, montado em seu corcel das nuvens, um animal encantado capaz de cavalgar os ventos. Em sua mão direita, o cajado de Mali, herança dos arcanos que ocuparam sua posição nas eras passadas.
       — Meu pai, como está? – perguntei, sem pensar em ocultar o medo e a vontade de estar em segurança.
       — O rei está a salvo. – respondeu o arcano. – Eu o transportarei até ele.- Os soldados já estão reagindo, mande-me também, pois iremos juntar o conselho e preparar nossa retaliação. – bravejou o Lorde de Guerra.
       — Não comece o conselho sem mim, eu quero participar. – afirmou o mago, erguendo o cajado, fazendo-o brilhar como o sol.
       Meu corpo tornou-se leve, a visão escureceu e me senti em queda, mas meus pés tocaram o solo novamente, formigando levemente, e minha visão voltou.
       Meu pai abraçou-me antes que pudesse dizer qualquer coisa. Um abraço forte e rápido. Minha mãe veio em seguida, aos prantos, revirando minhas roupas e apalpando minha pele à procura de ferimentos, como se eu ainda fosse uma criança. Meu pai então urrou de dor, repentino e inesperado. Gritos e o som do aço sendo desembainhado invadiram o local sem aviso, desrespeitando as tapeçarias com imagens sagradas da deusa da Justiça, Rauny. Minha mãe soltou-me e, levando as mãos à boca, ajoelhou-se descrente, paralisada em meio ao desespero. Só então vi o que acontecia. O momento derradeiro, cujos detalhes em sons, cores e cheiros, não me abandonam jamais.
       Meu pai, estendido no chão, erguia a mão em sinal de misericórdia. A garganta vertia sangue, enquanto a espada de Callian, meu tutor, desferia mais um golpe sobre o corpo já condenado. Da dezena de soldados que nos protegiam, somente cinco atacaram seu líder, ainda assim, hesitantes. E cada um encontrou sua morte, rápida, em golpes certeiros ou lenta, em membros decepados. O Lorde de Guerra era o ícone para nossos guerreiros e sua traição era a ruína de nosso mundo.
       Lembro-me dos olhos castanhos de meu pai, abertos em expressão inconformada. De sua boca rasgada, que deixara de mover-se tentando nos dizer algo. E lembro-me de minha mãe, tão indefesa quanto um bebê, segurando sua mão contra o peito, na esperança de que o marido amado voltasse à vida. Lá fora, o povo chorava e clamava por misericórdia. Por isso, eu ataquei.
       Minha espada avançou antes de meu pensamento, colidindo-se contra a lâmina de meu tutor. E o aço inimigo reagiu, vindo contra meu peito. Movimentos conhecidos. Defesas esperadas. Éramos irmãos. Mas ele sempre seria melhor. Callian girou a espada tirando minha defesa e atacou visando meu pescoço. Joguei o corpo para trás, mas não o suficiente. O aço acertou próximo à minha orelha, rasgando minha bochecha e arrancando alguns dentes.
       E quando resisti à dor, deixando de chorar, sem importar-me com mais nada, eu soube quem eu era. E revidei, sem opção alguma, eu lutei como nunca.  Sentindo o aço vibrar a cada golpe rechaçado. Engolindo meu próprio sangue, sem tempo para respirar, eu desferi tantos golpes quantos pude. E ele recuou.
       Um passo. Dois. E no terceiro, desequilibrou-se, tropeçando em meu pai e tombando. E eu pulei sobre ele, um animal encurralado e furioso. Não me lembro da sensação de ter atravessado a espada em seu coração. Ou mesmo de ter percebido quando o combate no restante da cidade cessou. Sequer do toque de minha mãe, que disse ter tentado me tirar de cima do traidor. 
       Mas eu ainda vejo seus olhos abertos. Eu ainda sinto seu cheiro e lembro da espada vibrando com sua última batida de coração. Não há como esquecer daquele dia, quando a vítima tornou-se algoz. E o algoz, mesmo vítima, matou o filho inexperiente do rei que residia dentro de mim.
       Nós o enterramos como herói. E seu feito foi condenado ao esquecimento, pois nenhuma invasão nos arruinaria mais que esta amarga verdade. Eu jamais soube porque fomos traídos. Prefiro acreditar na mentira que contamos. Uma história na qual lutamos lado a lado, onde nosso Lorde de Guerra sacrificou-se para proteger a família real. Uma bela história contada pelos bardos, que inspira o povo e me anima a continuar.
       A cada aniversário eu rezo à Rauny pela sua alma. E agradeço, pois ele matou minha inocência e meu medo, criando o rei e herói que o reino precisava para enfrentar a difícil guerra que viria. Meu povo resistiu àquele ataque e aos muitos outros que viriam.
       Hoje, subo aqui pela última vez, meu amigo. Irei guiar nossa gente para as terras de Oberil, fugindo do exército de Rashidi. Não me orgulho disto, mas eles tornaram-se tão numerosos que não podem mais usar portais e agora marcham para terminar o que começaram vinte anos atrás. Eu sou o último dos Naskell e minha linhagem precisa continuar.
       Espero um dia poder vingá-lo, meu tutor, meu irmão, meu algoz.
Leandro Reis, também conhecido como Radrak, possui 29 anos, mora em São José dos Campos, São Paulo. É casado e se diz “nerd de carteirinha”. Fã de RPG, animes, quadrinhos, cinema, Final Fantasy, Dungeons & Dragons e Video-game. O surpreendente é que o gosto pela escrita surgiu em sua vida desprentensiosamente como um "hooby" e, segundo ele, confidenciado em off, só começou a "ler de verdade" aos 23 anos! Leandro é mentor intelectual do mundo fantástico de Grinmelken, universo desenvolvido por ele, com a ajuda de amigos, que foi amadurecendo ao longo de 11 anos e culminou com o lançamento de seu livro "Os filhos de galagah".
Crônicas de Grinmelken   -  www.grinmelken.com.br
Leandro  Reis

02 fevereiro, 2011

Dom

Autor: Tânia Souza   
      Uma densa neblina cobria o vilarejo naquela madrugada fria. A garoa fina aprofundava a sensação de desamparo na moça que apressadamente cruzava a pequena vila. As batidas na porta foram suaves, mesmo acordado, padre Bernardo assustou-se e não demorou a abrir.  A jovem, conhecida por muitos como a Última, estava encolhida dentro do poncho de lã, tremendo de frio, e ergueu os olhos assustados:
      — Eu vi, padre Bernardo! Eu vi a desgraça na vila, eu vi a morte...– Os lábios tremiam, apesar do capuz cobrindo os cabelos. 
      — Calma minha filha. Entre! Você vai congelar ai fora. O que aconteceu?
      — Os olhos são azuis, os olhos da morte...   O senhor também deve partir padre, não pode ficar, eu...– A moça não se movia, até que o velho homem abraçou os ombros frágeis e a levou para a pequena sala.
      — Esse é o meu lar Madeleine, não verei outros caminhos enquanto respirar. E aqui também é o seu lar, onde estão os restos de sua mãe, de sua avó. O povo sempre dependeu do Dom. – Enquanto falava, padre Bernardo a conduziu para um cadeira ao lado do velho fogão a lenha, onde uma caneca de louça, encheu-se de chá aquecendo as mãos da moça, que lentamente sorveu a bebida.
      Ela balançou a cabeça, repetindo as palavras que a assombravam, os olhos perdidos nas chamas:
      — Eu vi o mal, ele tem olhos azuis... – A respiração estava mais calma, e a moça tirou o capuz de lã, ainda trêmula, sentou-se perto do fogão que aquecia o ambiente, fitando as brasas, mas de repente, assustou-se, e desviou os olhos. Os cabelos avermelhados refletiam a luz, caindo em cascatas pelas costas.        
      Padre Bernardo observava a jovem, pensativo, murmurando consigo que aquilo não estava certo. 
      — Você não deveria andar sozinha, minha filha, já faz um ano que sua avó se foi, mas temo por sua segurança naquele lugar abandonado. Poderia pensar em um casamento, o jovem...        
      — Não padre, sabe que não posso, o Dom é ao mesmo tempo benção e maldição que carrego. O destino dele não cruzará com o meu, ele merece uma boa mulher, filhos, eu não os terei jamais...        
      — Não queira ser dona do destino filha, o seu dom...        
      — Meu dom é uma maldição! – A moça voltou a afirmar, mas interrompeu-se quando o padre sentou-se ao seu lado com um pequeno gemido.          
      — O que foi? As suas dores padre, eu posso ajudar. – Tocou suavemente a testa do velho padre, que suspirou aliviado, mas desviou-se das mãos delicadas.        
      — Não Madeleine, as dores agora são mais constantes, elas me acordaram hoje, e há muitas noites não durmo, mas são parte do meu destino, devo apenas aceitar. – Era o que o semblante sereno revelava, aceitação e sofrimento.        
      — Eu conheço algumas ervas padre, deixe-me cuidar de você, é a única família que tenho...           
      —Não! – A voz era suave, mas firme. – Não devo combater minha sina, só lamento não mais ter forças para conduzir meu rebanho, que anda por ai, pelas madrugadas. – Um sorriso suavizou a leve ironia. – Agora que esta mais calma, diga minha filha, que maléfico pesadelo te fez cruzar a vila nessa neblina, a esse horário? Sabe que é arriscado...        
      Madeleine quase sorriu, desde os onze anos acostumara-se a andar pela cidade, ou em busca de ervas, ou levando conforto, e não raras vezes, a cura ao povoado. Aprendera com a avó o segredo das plantas e das visões, um dom que nem sempre entendia, mas que jamais negava sua força. O silêncio aquecia a pequena cozinha e aos restos de lenhas crepitavam no fogão, quando a jovem suspirou.        
      — Não foi um sonho. Tive uma visão, e apesar das névoas, foi o mal que ela trouxe que me fez correr ate aqui, padre. Eu vi a maldade, e vi o povoado ardendo em ódio, a desgraça espalhando-se pela vila,  e.. e, de algum modo, serei a culpada, por isso tenho que ir embora, deveria deixar a vila ainda hoje, mas... agora sei que já não vou...         
      Depois de dizer essas palavras, num repente a moça levantou-se, caminhando em direção a porta, abrindo-a antes que o som das batidas ecoasse.  Parado na soleira da porta, um menino pedia a ajuda do padre, a mãe estava sentindo dores fortes, mas ao ver Madeleine, ele sorriu, puxando-a pelas mãos. Antes de sair, ela ainda olhou para trás, um olhar triste, e disse, em uma mescla de aceitação e desamparo:      
      — Agora sei que já não vou... – E seguiu com o menino. Nuvens escuras permitiram que o sol nascesse tímido naquela manhã.        
      Quase dois anos eram passados, quando uma nova manhã, desta vez ensolarada e radiante, dava a vila uma imagem de insana beleza, quando a dor e a angústia eram a única realidade do povo que ali vivia. Aos poucos, a rua despertava, mas o silêncio assombrava aos poucos que varriam os cantos e preparavam-se para mais um dia de trabalho. Quando de longe ouviram-se gritos, a densidade da quietude enfim se quebrou. Uma cantinela cruel e perigosa ecoava, cada vez mais perto:        
      —Bruxa! Bruxa!        
      A pequena multidão carregava a garota pelas ruas, e quando ela caía, não esperavam que se levantasse. A cada rosto conhecido, ela implorava por ajuda, mas os olhos se desviavam, alguns em sussurros, afirmavam suspeitas antigas, outros benziam-se e juravam tê-la visto dançando nua no riacho, carregando animais estranhos pela noite... e enquanto os gritos ecoavam pela vila, por mais que Madeleine se debatesse, os braços que a agarravam eram muitos, ninguém a ajudava.          
      — Meretriz, morra! Queime-a!         
      — Queima! Queima! – Era o que se ouvia da turba enraivecida.         
      E quando finalmente caiu sem forças, o corpo frágil foi agarrado, e Madeleine arrastada pelo vilarejo, seus pés ardiam arranhando-se pelo chão, os pedregulhos ferindo a pele. Ao chegaram ao centro da vila, em frente à loja do ferreiro, a pequena e raivosa multidão parou e a moça foi jogada ao chão frio. Enquanto um círculo fechava–se ao seu redor, ela repetia:
      — Eu não tenho culpa, não é minha culpa... – O rosto outrora tão bonito estava sujo e arranhando, o barro cobria quase toda a pele clara, e o vestido rasgado deixava entrever o corpo que a jovem encolhida tentava cobrir da melhor forma possível.        
      A sua frente, viu o rosto duro de Samantha, e implorou piedade, mas a inveja de tantos anos endureceu a face da moça que outrora fora sua amiga, e agora voltava às costas a Madeleine e trocava olhares com o homem loiro que guiava a sinistra procissão.        
      — É dela a culpa de nossa desgraça, a noiva do demônio está mentindo... – Era a voz retumbante do clérigo que irradiava-se. Os cabelos loiros grudados na testa, o suor escorrendo, os olhos furiosos faziam com que as pessoas abrissem passagem para aquela figura impressionante.         
      — A seca não está nos castigando? A chuva não vem, a água do poço não está envenenada?          
      — Sim! Gritava a multidão, – Vamos morrer de sede!          
      — O gado não morre de fome no pasto?          
      —Sim! – E a cada pergunta, o fanatismo crescia, instigado pelas palavras veementes do louro Raul.        
      Madeleine tremia, os cabelos avermelhados sujos de barro, as pessoas gritando a sua volta. 
      — Meu gado morreu, e não temos mais leite, meu Jhon morreu de fraqueza – Murmurou uma senhora, cabelos cobertos por um lenço escuro, sinal de luto, – Se ela é a culpada, devemos fazê-la parar. Antes que leve meu neto, ela deve parar agora! –Gritou a mulher.
      Madeleine arrastou-se em direção a velha senhora, para quem muitas vezes servira chá nas tardes e cuidara dos reumatismos.
      — Não Maria, você é boa, lembre-se, minha avó era sua amiga, sempre cuidou de seus filhos –.  Mas a mulher abaixou os olhos
      — Eu... o pequeno precisa de leite Madeleine, não sei mais o que fazer...         
      — Parem! – Gritou Raul, vendo algumas pessoas sensibilizando-se diante das palavras da moça. – Não escutem a voz doce do demônio, ela quer enfeitiçar-nos, é de uma família de bruxas, a velha já está com os demônios, agora é sua vez, amante do diabo, não vai nos destruir, Deus nos iluminou.  Então não vêem irmãos, que a vila afunda em doença e pobreza?        
      —Simmmm! – Uivou a pequena multidão.        
      — Deus me enviou para limpar o mal, para recomeçarmos sem bruxarias, sem feiticeiras. Eu tenho a cura meus irmãos, aceitem e o mal irá embora.        
      Todo sofrimento daqueles dias de seca e privações crescia na mente do povo ouvindo a voz do pregador. Fora um ano difícil, de muita provação, um estranho mal assolava a vila, alem da fome, a morte e a doença estavam espreitando pelas ruas, pela casas.  Três crianças haviam morrido, um menino ainda no ventre da mãe e outro que nascera deformado e morrera em seguida. No entanto, foi a água envenenada do poço, causando muitos males a quem a consumia que levara o povo ao clamor, incitado pelo novo clérigo. Aos gritos, seguiram até a casa da moça. Madeleine separava ervas medicinais quando foi brutalmente agarrada pelos cabelos pelo homem que se dizia emissário de Deus. “Pequena meretriz” ele murmurara, “Bruxa!”, foi o seu grito para o povo.        
      Para Madeleine, aquele povo era também sua família, desde que a avó se fora, continuava com o seu dom, mesmo sabendo que um dia este lhe causaria dor. Estava em suas mãos o dom da cura, mas as visões que a atormentavam desde menina estavam caladas por uma estranha opacidade nos últimos anos. Lembrava-se agora dos olhos azuis que uma madrugada fria lhe revelara, reconhecendo-o no ódio presente nos olhos do novo clérigo, que desde que chegara à vila estivera perseguindo-a. Ao ver que não conseguiria o que desejava, e que a moral da moça era irredutível, o homem começou uma guerra calada, plantando a semente da discórdia e da inveja, sempre atormentando-a com desejos que Madeleine repudiava. Assim, a moça resolveu mais uma vez clamar por justiça, apesar dos joelhos feridos, levantou-se e falou ao povo a sua volta:        
      — Vocês me conhecem desde criança, eu cresci aqui, mestre Ramão, com suas filhas, por favor... – Mas o homem fechou os olhos e começou a rezar.   Uma outra jovem mulher, gorducha e baixinha, tinha os olhos baixos, ao lado do marido de cara feroz, mas ergueu os olhos quando o ensandecido Raul pegou-a pelo braço: 
      — Diga quem foi, diga Dona Joaquina, quem lhe deu o chá que roubou a vida do seu bebe ainda no ventre, diz... – As lagrimas caiam sem parar pela rosto de Madeleine quando via as pessoas acusando-a. Amigos, pessoas a quem ela, a mãe e a avó sempre cuidaram. 
      — Não! Não foi assim, ele já estava mal, eu só quis ajudar, a senhora sabia... Um soluço a interrompeu.         
      — Mentira, você matou o meu filho!  – Gritou o homem ao lado da mulher... – Bruxa... matou para devorar a sua carne ainda no túmulo, matou, matou meu único filho... – Abaixando-se, juntou nas mãos um grande quantidade de barro e grama. Em desespero, a moça implorou ainda:  
      — Do-dona Joaquina, não, por Deus me ajude, sabe que não é verdade, a senhora sabia... – A voz foi interrompida pelo monte de barro que sujou ainda mais o vestido e os cabelos de Madeleine. A risada mórbida de Raul completava o quadro de crueldade e dor.        
      — Você enfeitiçou a todos, mas Deus é bom, e descobrimos sua maldição. –  Os olhos azuis brilhavam de ódio e maldade, enquanto ele gritava com a multidão ensandecida: –Morte a bruxa! Morte a bruxa!        
      Quase todos os moradores da pequena vila estavam ali, com exceção de algumas crianças, que pareciam ser as mais atacadas pela peste. O grupo de roupas escuras e ódio no olhar viam na jovem caída a chance de mudar a existência de sofrimento.        
      — O sangue inocente não deve ser derramado! – Um grito interrompeu temporariamente a acusação. E de repente, a multidão começou a afastar-se, dando passagem a um bramido desesperado, era a voz do velho pároco – Madeleine é uma criatura de Deus – O padre trêmulo e doente olhava acusadoramente a multidão, e vociferava, com uma voz estranhamente forte, olhando nos olhos daqueles a quem conhecia a cada pecado, a cada fraqueza cometida –Voltem para suas casas, deixem-na! Suas crianças esperam, vamos, estão tomados pelo ódio. Deixem-na! – Dizendo essas palavras, padre Bernardo aproximou-se de Madeleine, que apavorada com as visões que tivera no passado, pedia que ele fosse embora.         
      O povo calado, esperava, olhando ansiosos para o novo clérigo, o jovem de faces angelicais que pregava a paixão e a contrição total. Diante da voz do ancião, afastado dos serviços da igreja pela saúde frágil, o corpo tomado pelo câncer, mas cuja autoridade era inquestionável no povoado, aguardavam. Olhando aquele que se intitulava emissário divino, o velho pároco afirmou:
      — Você está endemoniado irmão Raul, cobiça a jovem, mas ela não cedeu aos seus caprichos, deixe-a, não aumente ainda mais os seus pecados, ainda podemos arrumar essa confusão...        
      A face de Raul contorceu-se enquanto gritava:         
      — Blasfêmia! Não ouçam, ela o enfeitiçou também, eu a vi meus irmãos, ela dança nua na igreja e debocha da cruz! E ele gosta, está enfeitiçado e agora vem defendê-la, vamos, segurem-no. Deus me enviou para salvá-los, não duvidem, vamos irmãos. Ou querem que a morte os espere em casa? Querem que ela entregue as suas crianças ao demônio?         Diante dessa última sentença, alguns homens tentaram imobilizar o velho padre, arrastando-o para dentro da loja do ferreiro, no calor da luta, o velho padre caiu pelo solo, e uma mancha rubra foi tragada pela terra seca. Um fio de sangue escorreu pelos lábios murchos.         
      — Nãoo! — O grito de agonia de Madeleine percorreu o povoado, enquanto tentava correr para aquele a quem considerava um pai. Mas os braços de Raul a seguraram.        
      — Mais um inocente morreu por causa da bruxa, mas agora ele esta livre dos malefícios da sedução irmãos, a doença foi um aviso que padre Bernardo ignorou, não vamos deixar que outro aviso seja ignorado. A bruxa deve ser marcada, tragam o ferro abençoado!         
      Raul afastou os cabelos grudados na testa, com um sorriso satisfeito quando mestre Ramão aproximou-se como o ferro em brasa em forma de cruz, rezando fervorosamente com os lábios semicerrados, e muitos braços agarraram Madeleine, segurando seus cabelos vermelhos. Quando o ferro tocou a pele suave, todos esperavam pelo seu grito de dor, mas o que ouviram foi um estranho rumor que percorria a terra seca, e raios começaram a cair por todo lado, um lastro de fogo invadiu as plantações de milho ressecadas. Alguns correram em direção à plantação, enquanto o medo invadia os olhares dos que ficavam. A pele de Madeleine continuava intacta, apesar do pavor nos olhos castanhos.         
      Os olhos de Raul escureceram-se, mas ainda assim, ele tornou a aproximar o ferro da testa pálida, e mais uma vez, a pele não queimou. Duvidando do que via, quis tocar a cruz em brasa, mas a sua pele chiou, num queimado forte. A dor da queimadura o fez jogar a cruz para longe. O povo começou a murmurar, temeroso da ira divina.   Mas Raul, enlouquecido, apanhou a pequena faca que carregava, e olhando para as pessoas ali reunidas, reafirmou:        
      — É o demônio, não é Deus, não temam seus simplórios! – E avançou em direção a moça, mas antes que chegasse perto, o céu se abriu com um estrondo, e quando Raul virou-se em direção aos céus, seus olhos refletiram um raio certeiro vindo em sua direção, que atravessou-lhe o corpo, queimando–o. Assustadas, as pessoas começaram a correr, enquanto o fogo alastrava-se pela vila, queimando as casas uma a uma. Crianças tentavam correr para longe do fogo, mas logo tudo desmoronou com a força das chamas.         
      Quanto a Madeleine, permanecia encolhida, os olhos arregalados pelo medo, indiferente ao tempo, até que os últimos raios caíram. A moça por fim levantou-se e caminhou em direção ao velho padre, largado no chão esfumaçado, um sopro de vida ainda restava, e os poucos que ainda estavam por ali aproximaram-se, mantendo uma distância segura. A jovem levantou a cabeça branca, apoiando-a nas pernas dobradas, e a voz de padre Bernardo se fez ouvir, entrecortada pela dor.         
      — Minha filha, Deus esteve contigo hoje, pois Ele não pune aos inocentes, a prova do fogo revelou que a maldade está no coração dessa gente Madeleine, e por isso sua vida foi poupada. Seu coração é puro, assim como os seus atos... – O padre estremeceu no esforço de falar, mas Madeleine tocou-lhe os lábios.        
      — Eu não entendo, há muita dor padre, todos sofrem, eu posso sentir, as crianças padre, eu... não,  não fale mais padre, poupe seus esforços...         
      — Minha hora chegou minha filha, mas o seu caminho apenas começa, Deus jamais te deixará, pois seu Dom é a maior prova da misericórdia divina. Você sabe o que fazer, minha filha, você...        
      Madeleine assentiu... contendo as lagrimas...        
      — Nunca mais estaremos juntos para ver o sol cobrir as amoreiras. – Com essas palavras murmuradas, aquele homem que viera de tão longe encontrou por fim seu destino. E a jovem ajoelhada cerrou os olhos tranqüilos do ancião. Levantou-se, e ao seu redor encontrou a visão de dois anos antes, o fogo consumindo o que restava da plantação, as casas desmoronando, muitos feridos pelo chão. E as pessoas apavoradas, fitando-a com misto de medo e vergonha. Sem coragem para se aproximar. Sim, Madeleine sabia o que deveria fazer.        
      Naquela manhã, a vila acordara com os gritos de Madeleine, mas agora que a dor consumia as mães e os pais, os clamores eram baixos. A Última, como às vezes chamavam Madeleine, de maneira silenciosa e triste, tratou dos doentes, ajudou a enterrar os mortos, cuidou os feridos, mesmo dos que lhe atiraram pedras e lama, e na velha igreja, improvisou uma pequena enfermaria. A noite toda velou pelos moribundos, preparou ungüentos e poções. No dia seguinte, a despeito dos pedidos de perdão, seguiu pela estrada que nunca conhecera, saía enfim da vila para onde viera ainda menina, acompanhada pela mãe, a procura da avó que ali nascera. O Dom seguiria com ela, para o destino que lhe estivesse reservado.         
      Do outro lado da vila, um vulto afastava-se lentamente em direção a floresta, os olhos azuis envoltos em sombras, os lábios cerrados, nas costas das mãos, a marca de uma queimadura formava o desenho de uma cruz. Voltou-se ainda uma vez em direção a vila. O povoado jazia abandonado, punidos pela ira divina, punidos pela fraqueza, punidos pela maldade e pela vingança dos corações endurecidos pela tentação, convencidos por suas palavras. Sim, tivera êxito, mas seu êxito fora menor, quase deixara que a paixão o envolvesse, e mais uma vez, o Dom permaneceria, a vila renasceria apesar do sofrimento, e para as poucas crianças que restavam, a Última seria sempre lembrada como um anjo salvador.  Com um movimento, já dentro da floresta antiga, livrou-se das roupas queimadas e da aparência que usara, mas percebeu, com um gesto de raiva, que a marca na mão permanecia, assim como os olhos azuis. As árvores estremeceram quando ele gritou, até o silêncio pesar nas folhas, na densidade do nada. Seguindo o caminho oposto, Raul sabia que o destino de Madeleine ainda cruzar-se-ia com o dele, e desta vez, não poderia falhar.



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