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02 maio, 2011

Por que a estética de um texto é tão importante?

Perguntar por que a estética textual é importante em um texto é o mesmo que perguntar por que tomamos banho, lavamos ou escovamos os dentes? É uma questão de cuidado e se a pessoa não costuma fazer isso, é tida como desleixada.

Com a redação também é assim: a impressão que dá quando o corretor vê um texto contínuo, sem pontuação e sem paragrafação, é a de que o escritor não teve o mínimo cuidado ao escrever o texto e tampouco estava se importando com o leitor. É como acontece quando alguém vai receber uma visita em casa e não se importa em deixar as coisas arrumadas.

Além disso, a estética também é quesito de pontuação em qualquer processo seletivo, claro, pois ninguém gosta de ler um texto mal organizado, nem mesmo os que são pagos para isso!

Então, vejamos o que você precisa verificar quanto ao visual de sua redação:

Primeiramente, observe o título e confira se o mesmo está escrito com letra maiúscula inicial, independente do que seja (artigo, preposição). Por exemplo: A abelha Léia. Claro, nomes próprios ou de lugares e siglas são escritos obrigatoriamente em letra maiúscula. Lembre-se que título não possui pontuação final!

Em segundo lugar, veja se todos os parágrafos possuem o espaçamento devido (largura de um dedo) e se todos estão na mesma altura. A paragrafação é fundamental, pois estabelece a estrutura visual que aponta para a divisão obrigatória do texto dissertativo: introdução, desenvolvimento e conclusão. Temos que o parágrafo inicial é a introdução, o último a conclusão e os demais são as argumentações que fazem parte do desenvolvimento.

O mínimo de parágrafos proposto a uma dissertação é de três, um para cada parte do texto. Contudo, é bom seguir o mínimo de 15 linhas e máximo de 30, adotados pela maioria dos vestibulares.

Em terceiro, observe se as ideias estão divididas de acordo com a distinção entre elas, ou seja, para cada nova abordagem, um novo parágrafo. Contudo, é necessário que exista uma ligação entre os argumentos expostos, caso contrário, a coesão não existirá.

Como quarto item, não rasure! Contudo, caso aconteça, faça um risco em cima da palavra e coloque-a entre parênteses.

Por último, observe atentamente sua letra, pois ela é o cartão de visita! Verifique se há alguma letra que não está legível! Não tenha você por base, coloque-se no papel de um leitor que nunca viu um texto seu e analise os termos que realmente podem causar equívocos! Se achar melhor, escreva em letra de fôrma, pois também é aceita em concursos.

Lembre-se que a ilegibilidade pode anular sua redação!

Por Sabrina Vilarinho
Graduada em Letras
Equipe Brasil Escola

Fonte: Brasil Escola

01 maio, 2011

Livros póstumos

Sérgio Telles - O Estado de S.Paulo
 
David Foster Wallace, autor de ensaios (gênero pouco praticado entre nós), reportagens, contos e romances unanimemente elogiados pela crítica norte-americana, matou-se em sua residência em 12 de setembro de 2008, aos 46 anos. Seu prestígio literário só fez crescer desde então, sendo enfatizados sua habilidade em recriar a linguagem oral e as idiossincrasias linguísticas de diversos grupos culturais e profissionais, a acuidade com que descreve os relacionamentos humanos e seus conflitos, o estilo lúcido, desencantado e irônico. David Foster Wallace é pouco conhecido no Brasil, onde apenas um de seus livros foi traduzido - o Breves Entrevistas com Homens Hediondos, publicado pela Companhia das Letras em 2005.

Wallace deixou, impresso e em arquivos de computador, o inacabado livro no qual trabalhava havia dez anos, desde o lançamento em 1997 de Infinite Jest, o romance com o qual, na opinião de muitos, alterou o panorama literário norte-americano. Por dois anos, o extenso material de mais de mil páginas foi submetido a um cuidadoso trabalho de editoria que o reduziu pela metade e, intitulado como The Pale King, foi lançado no último dia 15 nos Estados Unidos, atraindo a atenção dos meios literários.

O interesse em torno de The Pale King nos faz pensar sobre as questões levantadas pela publicação póstuma de originais e rascunhos deixados por seus autores.

Tal publicação só ocorre, é claro, com autores de reconhecida importância e obedece a diversos interesses. Entre eles, o financeiro não é dos de menor peso - editores e herdeiros do autor não querem desperdiçar a oportunidade de ampliar suas rendas. Mas há também os interesses literários, pois os estudiosos da obra se beneficiam com o rascunho inconcluso que lhes permite observar melhor os processos criativos do autor, seguindo a maneira como o mesmo dá forma ao material, através de cortes, supressões, acréscimos, etc.

A legitimidade desses interesses beira com questões éticas. Um autor pode não ter publicado em vida seus textos por muitos motivos, como a impossibilidade de encontrar editores, o considerar que a obra realizada ficou aquém do desejado ou ainda por não ter conseguido desenvolver as ideias das quais deixou apenas meros esboços que nada significam sem o trabalho que as transformariam numa produção artística. Tirando-se o primeiro caso, deve-se, nos demais, publicar aquilo que o próprio autor deixou inédito? Sem falar que muitas vezes o material deixado pelo escritor está tão cru e incipiente que aquilo que vem a lume dificilmente pode ser-lhe atribuído, tantas foram as intervenções necessárias, realizadas pelo editor, para deixar o texto apresentável ao grande público.

Um exemplo recente dessa situação pode ser vista com o último livro de Vladimir Nabokov - The Original of Laura (O Original de Laura, Alfaguara Brasil). Neste caso havia uma complicação a mais. O autor, morto em 1977, deixara apenas uma versão inicial disposta em 138 fichas de arquivo (equivalentes a 30 páginas manuscritas) sem nenhuma ordem estabelecida - como costumava fazer com todos seus livros - e explicitara em seu testamento que o mesmo deveria ser destruído. A esposa Vera e o filho Dmitri não conseguiram cumprir suas ordens e, depois de um demorado debate entre estudiosos e editores, que se estendeu por mais de 30 anos, o livro foi publicado em novembro de 2009.

Como é sabido, Nabokov atingiu a fama mundial em 1955 com seu livro Lolita, no qual aborda a paixão de um homem de meia-idade por uma pré-adolescente. O romance gerou um filme também famoso, desencadeando uma incontrolável epidemia de Lolitas pelo mundo afora. Transcendendo esse sucesso popular, Nabokov é considerado o maior romancista de língua inglesa do século passado, apesar de ter o russo como língua materna.

O caso de Nabokov é interessante, pois se até o momento apontávamos para a suposta cupidez dos herdeiros e editores no trato com o material inédito deixado pelo autor, fica agora evidente a ambiguidade do próprio autor frente a seu texto inacabado. Afinal, se Nabokov teve tempo e forças para ordenar a destruição do livro, por que ele mesmo não o fez, poupando à mulher e ao filho tamanha responsabilidade? Sua atitude parece demonstrar uma forte ambivalência, pois enquanto, por um lado, ordenava a eliminação da obra, por outro espicaçava com isso a curiosidade dos estudiosos, assegurando assim sua sobrevivência.
Algo semelhante poderia ser dito sobre o The Pale King, de David Foster Wallace, que teria disposto os originais de forma a serem facilmente encontrados após sua morte, delegando dessa forma a outrem a responsabilidade de sua publicação. Mas em casos como o dele, a ambivalência - ou seja, a existência simultânea de sentimentos intensos e contraditórios, como amor e ódio frente a praticamente tudo a que estejam ligados - é muito mais ampla e radical, o que termina por debilitar o próprio apego à vida.

De seu excelente livro de contos Breves Entrevistas com Homens Hediondos, duas narrativas adquiriram especial interesse, pois nelas está prefigurado o desfecho que daria à sua vida. São eles A Pessoa Deprimida e Suicídio como Um Presente.

No primeiro, acompanhamos as atribulações da "pessoa deprimida", empenhada em seguir ao pé da letra as orientações da terapeuta, cujas condutas são fortemente desacreditadas e ridicularizadas pelo autor. No segundo, Wallace mostra com grande acuidade psíquica - à qual um psicanalista nada teria a acrescentar - a mortífera relação entre uma mãe e seu filho que leva a um beco sem saída.

Ambos ilustram bem o dito freudiano de que os grandes escritores têm um conhecimento intuitivo direto do inconsciente, coisa que os analistas só adquirem através de um longo treinamento. 
 
 
Fonte: Estadão

28 abril, 2011

Romero vs. Snyder. Quem fez o melhor Madrugada dos Mortos?



Foi em 1968 com o clássico Night of the Living Dead que George Romero debutou no cinema definindo regras para o universo dos zumbis que são seguidas até hoje. Os golpes que devem ser direcionados ao cérebro, a mordida contagiosa… estavam todos lá. Mas Romero foi além, e abusou do que seria a sua maior contribuição para os filmes de terror: as metáforas sociais. Dawn of the Dead (1978) é considerado uma obra prima até hoje, não apenas pelo caráter violento ou por todo o gore utilizado, o que na época ainda chocava, mas sim pela forma como satiriza o “way of life” americano rindo da sociedade de consumo e do capitalismo. Os Zumbis são lerdos, e praticamente sem reação, tornando possível correr entre eles sem problema algum. Dessa forma, com menos correria, Romero tem mais tempo para trabalhar suas críticas, enriquecendo o texto do filme. As criaturas em si não são tão perigosas quanto os efeitos que elas podem causar nas pessoas. O que acontece quando o número de emergência para de funcionar? Medo, loucura, covardia e oportunismo nesse caso são mais perigosos do que as mordidas.

 Zack Snyder, um dos diretores mais pops do cinema atual, também teve a sua primeira vez com um Zumbi (ou vários). O cineasta estreou em 2004 com a nova versão de Dawn of the Dead. Snyder literalmente botou os zumbis para correr, a exemplo de Danny Boyle com seus infectados em O Extermínio (2002). A fórmula funciona, mas deixa menos espaço para as metáforas sociais, que ainda estão lá, mas se perdem no meio da correria. O Filme é tenso do início ao fim, possui um roteiro bem estruturado e sequências de ação fantásticas, muito bem orquestradas por Snyder. O diretor também se preocupou em prestar seus respeitos ao filme original, convidando os principais atores para participarem de pontas em seu filme.


As histórias dos dois filmes são completamente diferentes, compartilhando apenas os zumbis e o local de refúgio. Na versão de 1978 dois funcionários de uma rede de TV, um deles piloto de um helicóptero que está parado no topo da emissora, se juntam a dois policias da Swat com o plano de fugir para o Canadá. No caminho eles encontram um shopping center onde decidem parar

para procurar mantimentos. Lá, tem tudo que os sobreviventes precisam, de munição a comida. A possibilidade de viver em um shopping center, usufruindo de todos os seus benefícios sem se preocupar com a conta, faz com que o grupo esqueça o Canadá, e fique por ali mesmo. Claro que as coisas se complicam mais além, mas não quero estragar o filme para quem ainda não viu.

Na versão de 2004 o grupo é maior e mais diversificado. Temos desde o vendedor de TV até o cara que costumava roubar TV´s. Eles se encontram no caminho para o shopping center. Dentro do shopping eles ainda encontram mais 3 seguranças que tentam manter o refugio só para eles, mas que com o tempo e a dose certa de força acabam cedendo espaço para os demais. Enquanto eles tentam entender o que está acontecendo com o mundo e se existe a possibilidade de resgate para os que ficaram para trás, os mortos passam a se empilhar nos arredores (estamos falando de uma multidão), guiados ao local por suas memórias e instintos mais primitivos. Sim, junto com a fome está a vontade de consumir.


Mesmo correndo o risco de cometer blasfêmia diante dos fãs fiéis de Romero eu sou obrigado a confessar que gostei mais da segunda versão do filme por muitas das razões já citadas acima. Admiro em diversas camadas as críticas disparadas por Romero e acredito que a sua visão, ou tentativa de previsão, para o futuro da sociedade caso esta tenha que enfrentar situações extremas é absurdamente inteligente e pertinente. Mesmo assim, eu admiro a refilmagem por não ter a pretensão de tentar refazer o filme de Romero, ou pelo menos não tentar se igualar em níveis intelectuais. Acredito que o objetivo de Snyder foi fazer um filme divertido, que petrificasse seu público nas cadeiras do cinema até o ultimo minuto. Snyder foi bem sucedido com isso.

Dica: vale muito a pena conferir os extras do DVD do filme de Snyder. Entre muitas coisas legais, tem dois curtas fantásticos. Um deles, uma cobertura jornalística sobre a infestação ao redor do globo. O outro, seria um diário que foi filmado por Andy, que interage com o grupo principal confinado no shopping do topo de sua lojas de armas. É muito bacana conferir a história do ponto de vista dele.

Fonte: Paprica

18 março, 2011

Bernard Cornwell, ou como se faz literatura de verdade pra macho

Por Raphael Draccon em Cavernas & Dragões

Hoje em dia existe um termo que anda bastante utilizado por aí: o chick lit.

A expressão se refere a uma literatura voltada especificamente para o público feminino (em  tradução livre seria algo como: “literatura para mulherzinha”).

É de onde surgem histórias sobre mulheres querendo perder peso para arrumar namorado; procurando formas de controlar os cartões de créditos; fazendo fofocas em escolas de ricaços ou agarrando qualquer anjo ou morto-vivo que brilhe por aí.

Que seja; se elas gostam disso, nós temos de respeitar a forma de construção de raciocínio do sexo oposto.

A grande questão, porém, que fica é: ok, e se o mercado editorial anda invadido pelas obras para a mulherada, o que sobra nas prateleiras para representar a legítima literatura de macho?

Abaixe o volume do jogo no fundo aí e abra essa cerveja no dente, meu amigo.
Vamos falar de literatura para macho de verdade…

cavernas e dragoes Bernard Cornwell, ou como se faz literatura de verdade pra macho...

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Bernard Cornwell, ou como se faz literatura pra macho…

Quando a mãe de Bernard Cornwell o pôs no mundo em uma Londres fria de 1944, ela não fazia a menor ideia do que estava fazendo ao mundo da literatura masculina. O pai talvez fizesse.

A mãe não.

O pai era um aviador canadense e a mãe auxiliar da Força Aérea Britânica. Na minha cabeça eu já imagino o genitor fazendo o parto da própria mulher no meio de uma trincheira barulhenta, dando uns tapas no traseiro do moleque e berrando com o indicador apontado: “e não chora não, garoto, que homem não chora, hein, p#$$%!”.

cavernas e dragoes Bernard Cornwell, ou como se faz literatura de verdade pra macho... 
(Bernard Cornwell aos 02 anos, em fotos raras)

Mais tarde, o jovem Bernard foi adotado por uma família que pertencia a uma seita religiosa chamada Peculiar People, seja lá o que um negócio desses significar. Na verdade, dizem que significava uma seita fervorosa que rejeitava todo tipo de friviolidade, até mesmo a medicina.

Eu acredito.

Em minha mente consigo ver perfeitamente um pequeno Cornwell com o dedo deslocado após uma queda ruim no futebol, e uma monja tatuada e musculosa gritando na cara dele: “e coloca essa p#$$% de dedo no lugar sem chorar, que já falei que homem não chora, hein, p#$$%!”.

Com o passar do tempo, antes que criassem a Cientologia e o obrigassem a contar a sua quantidade de thetan, ele fugiu para a Universidade de Londres, trabalhou na BBC por 10 anos e depois tentou se casar com a americana Judy, mas os americanos o consideraram inglês demais para lhe dar um green card.

cavernas e dragoes Bernard Cornwell, ou como se faz literatura de verdade pra macho... 
(você falaria mal de um livro desse cara na cara dele?)

Sem tal permissão, Cornwell resolveu viver como escritor, já que para esse trabalho não é preciso permissão do governo dos EUA, pois os americanos só reconhecem um escritor como um trabalhador de verdade quando ele ganha dinheiro com isso.

Ah, sim, hoje eles sabem muito bem que é Bernard Cornwell.

“Tough Lit”

Em inglês existe uma expressão para o cara machão, aquele de estilo valentão, herói brigão dos anos 80: ele é o chamado tough guy.

Partindo desse princípio, e na falta de uma expressão que represente todo o oposto da chick lit, eu passei a utilizar a expressão: tough lit para essa literatura anabolizada, que pode entediar a princípio o público feminino, mas levar o masculino ao êxtase primitivo de uma arquibancada de MMA.

cavernas e dragoes Bernard Cornwell, ou como se faz literatura de verdade pra macho... 
(O tough guy não precisa brilhar no sol pra chamar a atenção…)

E quais as características de uma literatura desse tipo?

Vamos lá: o herói desse tipo de literatura não tem essa de modéstia ou conflitos psicológicos intensos. A coisa pra ele é bem mais simples: ele simplesmente sabe que ele é o Cara.

Veja bem, ele não acha que o cara; ele simplesmente sabe que é.

cavernas e dragoes Bernard Cornwell, ou como se faz literatura de verdade pra macho... 
(Isso é “tough lit“)

Ele olha aqueles baderneiros fazendo arruaça na taberna e fica pensativo se vai fingir que está vendo ou não porque sabe que, se resolver se levantar, ele não vai simplesmente lhes dar uma lição de moral.

Ele vai destruir a taberna inteira nessa lição!

Outra coisa: o herói de tough lit gosta de mulher. Ainda que do jeito tosco e bronco dele, ele gosta muito. Então nem adianta aparecer com aquele papo de ãh, o que?, não, não pode, só depois do casamento, ou se você me ama de verdade vamos pensar se devemos de fato ficar juntos, meu amor.

O tough guy se preciso pega a mulherada pelos cabelos e faz coisas com ela mais intensas do que vídeos caseiros da Paris Hilton.

Conan é togh lit. James Bond também. Jason Bourne nem se fala.

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(esse não é um leitor de “tough lit”…)

Para identificar um protagonista de tough lit é fácil: basta usar a teoria citada por Azaghâl (NerdCast) no comentário sobre a definição de um típico herói anos 80: é simples, o cara tem de resolver o problema sozinho!

Veja bem: ele pode ir lá na frente e liderar um exército contra uma parede de escudos, na falta de alguém competente para fazer isso. Mas ele sabe que, se ele quisesse, ele ia lá e quebrava todo mundo sozinho (o que em algum momento ele vai acabar fazendo mesmo)!

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(já esse é um leitor sendo formado desde cedo pelo pai…)

E bem, não é algo assim tão simples quanto parece a princípio, mas felizmente existem por aí alguns escritores que conseguem traduzir esse estilo testosterona de escrever de maneira primorosa.

Cornwell é um dos melhores deles.

Estilo

Bernard Cornwell escreve romances baseados em fatos históricos, buscando nos fatos retratados uma autenticidade realista para a própria narrativa. Sua retratação histórica costuma ser tão bem feita, que mesmo que as coisas tenham sido diferentes do que ele conta, você irá preferir acreditar na versão dele mesmo assim.

Cornwell tem um estilo direto e intenso, com as descrições cruas e frias da época. Sua lista de personagens costuma ser tão imensa, e os nomes tão complicados, que não estranhe se você se perder e precisar apelar constantemente para os breves resumos sobre quem é quem no início.

E não comece a reclamar, por favor; a primeira lição de uma tough lit de verdade é que leitor de autores como Cornwell não chora!

O que impressiona no estilo do inglês é como ele é detalhista, mas não é prolixo. Suas descrições de batalhas e paredes de escudos são extremamente ricas e ao mesmo tempo dinâmicas. Você consegue escutar as flechas zunindo de um ponto a  outro. O som do metal se chocando. Os gritos das pessoas morrendo. Os cascos dos cavalos estremecendo a terra.

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(um cenário depois dos personagens de Cornwell passarem por ele…)

Além disso, a realidade medieval é retratada como era de fato, sem romanciação. Ela é feia, grotesca, por muitas vezes bizarra. Os soldados não entram no campo de batalha com armaduras limpas; eles entram suados, bêbados, fedendo; e quando o inimigo começa a se aproximar, muitos deles começam a urinar e defecar nas próprias calças, buscando força na loucura ou na embriaguez para reagir.

Os personagens gostam de sangue e de ver a cor do sangue do inimigo. E de arrancar coisas dos corpos dos mortos para usar de troféu. E de tomar suas mulheres como escravas ou amantes forçadas. E de outras coisas que você vai gostar de ler, mas nem sempre de imaginar…

Existe uma certa diplomacia e intriga política no universo de Cornwell, mas no fim das contas, tudo se decide mesmo é na porrada.

É por isso que Cornwell pode ser chamado de uma “literatura pra macho”. No fim, ler suas batalhas é meio como assistir a um “Os Mercenários” medieval; traz à tona aqueles instintos primitivos que o sexo masculino, independente da época, resgata quando cospe no chão, se estoura todo erguendo um supino ou abraça um amigo estalando tapas nas costas.

Há tanta testosterona desfilando por aquelas páginas, que se você bater algumas delas no liquidificador pode sair dali direto para uma orgia.

cavernas e dragoes Bernard Cornwell, ou como se faz literatura de verdade pra macho... 
(1ª sugestão de um capista para a capa de O Rei do Inverno)

Entretanto, nem todos as suas séries possuem o mesmo nível. É bom ter isso em mente para não começar pelas leituras menos ideais.

Logo, siga o mesmo raciocínio de caso você quisesse apresentar Sylvester Stallone para um adolescente da geração de hoje: você não iria mandá-lo assistir ao “O Especialista”, “Daylight”; nem mesmo “Rambo”, não é? (De novo: não é?)

Você iria mandá-lo começar por “Rocky Balboa”!

O raciocínio aqui é o mesmo. É o seguinte: quer ler Cornwell? Comece por As Crônicas de Artur. Ponto.
Não comece pelo O Arqueiro nem Azincourt, e muito menos Stonehenge.

Comece de uma vez pela obra-prima.

Se não vier a ler mais nada do inglês depois, sem problemas. Você já terá lido um dos melhores exemplares de tough lit que temos por aqui.

Boas vindas ao Rei que não Queria Ser Rei, mas era assim mesmo

Quando me perguntaram em uma entrevista qual era meu personagem preferido na literatura, a resposta foi imediata: Derfel Cadarn.

É este o personagem narrador de As Crônicas de Artur e também o maior acerto de Cornwell nessa obra. Narrar a aventura de um ponto de vista de um personagem inicialmente menor aos acontecimentos faz com que de fato tenhamos uma identificação imediata com o personagem, como se fosse ele um ancestral de família.

cavernas e dragoes Bernard Cornwell, ou como se faz literatura de verdade pra macho... 
(salve o Rei…)

É fácil amar Derfel. Nós acompanhamos seu treinamento, seu primeiro inimigo morto, seu primeiro encontro com o mito Artur, seu primeiro amor, seu segundo amor, sua humildade perante um Merlin mal-humorado, ranzina e extremamente debochado.

Ao longo dos três livros, nós acompanhamos o inicialmente tímido adolescente se tornar o futuro lorde guerreiro experiente.

O cenário ao redor de Derfel é traiçoeiro, violento  depressivo, entretanto ele se mostra uma pessoa com noções de honra, caráter e fidelidade aos ideais e às pessoas a quem jura sua lealdade. Ele é o total oposto de Uhtred, o personagem das Crônicas Saxônicas, que é outro tipo de tough guy, mais no estilo Conan de ser, e tão fascinante quanto.

Outra curiosidade da série é a forma como o autor trata a magia.

Aqui a magia nunca é magia “de fato”. Os feiticeiros fazem paredes com crânios na frente de exércitos e dançam e amaldiçoam o inimigo. Ainda assim, a magia de fato é ativada exclusivamente pela superstição popular. E isso é muito interessante porque levanta a dúvida: mas se a “magia” funcionou, independente do artifício, ela é superstição ou de fato é a própria definição de magia?

Exibições de poder pirotécnicos se mostram engenhosas formas de ludibriação em cima desse misticismo e tudo é construído de uma forma tão bem-feita, que taxar tal existência da magia na série como um fato ou um truque também depende da superstição pessoal de cada leitor.

A forma como Cornwell também nos reapresenta os personagens de Camelot é fabulosa e surpreendente.

A maioria de nós sempre admirou Lancelot e tratou Artur como um Rei a ser respeitado, embora distante e de quem se sente uma certa pena ao se tornar provavelmente o corno mais famoso da literatura mundial.

Depois de As Crônicas de Artur não.

Depois dessa saga, todos, mas literalmente todos os personagens de Camelot são visto sob uma nova ótica; uma ótica masculina barra pesada, e sem brumas.

Arrumando Problemas

Você quer procurar um ou outro problema nos livros de Cornwell?

Ok, as explicações históricas às vezes podem lhe cansar.

O excesso de personagens vai confundir.

Alguns personagens, como o Arqueiro, são overpowers e costumam não apenas ser muito superiores às pessoas comuns, como estar no lugar certo na hora certa, ou errada, mas que para a trama não deixa de ser a certa.

E talvez por isso, por saberem o quanto são melhores do que os outros, alguns deles são o que na gíria se chamaria de escrotos. Mas o termo aqui não seria no sentido de serem personagens ruins, mas simplesmente de serem arrogantes e antipáticos na relação com os outros personagens, correndo o risco de gerar uma falta de apego frente a um determinado leitor.

E se você teve algum desses problemas com a obra, tem o direito como leitor.

Mas se você é um tough guy, guarde essas coisas para você, suporte a dor e não reclame. Nunca reclame.
Leitor de Cornwell não chora.

cavernas e dragoes Bernard Cornwell, ou como se faz literatura de verdade pra macho... 
(imagem de um adepto da filosofia emo lendo sobre Cornwell)

E Além?

E para fechar, a pergunta: e além de Cornwell, que outros grandes representantes da legítima tough lit teríamos por aí?

Em minha mente alguns nomes estrangeiros surgem imediatamente: Robert Howard, Conn Iggulden, George R.R. Martin e Tom Clancy.

No Brasil, Leonel Caldela com seus romances de batalhas sujas e personagens pouco confiáveis supre bem essa função, tanto que eu e Eduardo Spohr gostamos de nos referir a ele como “o Cornwell brasileiro”.

E por voltar a falar no inglês, não poderia finalizar sem lembrar que Corwell é tão tough guy, que em junho de 2006 recebeu o título de Oficial na Ordem do Império Britânico, nos 80 anos da rainha. A conclusão que podemos chegar a tudo isso é que o universo realmente prepara um homem para sua missão no mundo.

Não foi à toa que aquele futuro escritor nasceu filho de militares, na fria e depressiva Londres de 1944.
É claro; isso tinha de fazer sentido.

Até para nascer; Cornwell tinha de nascer na guerra.

17 março, 2011

Como fazer uma resenha

Como um gênero textual, uma resenha nada mais é do que um texto em forma de síntese que expressa a opinião do autor sobre um determinado fato cultural, que pode ser um livro, um filme, peças teatrais, exposições, shows etc.

O objetivo da resenha é guiar o leitor pelo emaranhado da produção cultural que cresce a cada dia e que tende a confundir até os mais familiarizados com todo esse conteúdo.

Como uma síntese, a resenha deve ir direto ao ponto, mesclando momentos de pura descrição com momentos de crítica direta. O resenhista que conseguir equilibrar perfeitamente esses dois pontos terá escrito a resenha ideal.

No entanto, sendo um gênero necessariamente breve, é perigoso recorrermos ao erro de sermos superficiais demais. Nosso texto precisa mostrar ao leitor as principais características do fato cultural, sejam elas boas ou ruins, mas sem esquecer de argumentar em determinados pontos e nunca usar expressões como “Eu gostei” ou “Eu não gostei”.

Tipos de Resenha

Até agora eu falei sobre as resenhas de uma forma geral e livre e esses dados são suficientes para você já esboçar alguns parágrafos.

Contudo, as resenhas apresentam algumas divisões que vale destacar. A mais conhecida delas é a resenha acadêmica, que apresenta moldes bastante rígidos, responsáveis pela padronização dos textos científicos. Ela, por sua vez, também se subdivide em resenha crítica, resenha descritiva e resenha temática.

Na resenha acadêmica crítica, os oito passos a seguir formam um guia ideal para uma produção completa:
  1. Identifique a obra: coloque os dados bibliográficos essenciais do livro ou artigo que você vai resenhar;
  2. Apresente a obra: situe o leitor descrevendo em poucas linhas todo o conteúdo do texto a ser resenhado;
  3. Descreva a estrutura: fale sobre a divisão em capítulos, em seções, sobre o foco narrativo ou até, de forma sutil, o número de páginas do texto completo;
  4. Descreva o conteúdo: Aqui sim, utilize de 3 a 5 parágrafos para resumir claramente o texto resenhado;
  5. Analise de forma crítica: Nessa parte, e apenas nessa parte, você vai dar sua opinião. Argumente baseando-se em teorias de outros autores, fazendo comparações ou até mesmo utilizando-se de explicações que foram dadas em aula. É difícil encontrarmos resenhas que utilizam mais de 3 parágrafos para isso, porém não há um limite estabelecido. Dê asas ao seu senso crítico.
  6. Recomende a obra: Você já leu, já resumiu e já deu sua opinião, agora é hora de analisar para quem o texto realmente é útil (se for útil para alguém). Utilize elementos sociais ou pedagógicos, baseie-se na idade, na escolaridade, na renda etc.
  7. Identifique o autor: Cuidado! Aqui você fala quem é o autor da obra que foi resenhada e não do autor da resenha (no caso, você). Fale brevemente da vida e de algumas outras obras do escritor ou pesquisador.
  8. Assine e identifique-se: Agora sim. No último parágrafo você escreve seu nome e fala algo como “Acadêmico do Curso de Letras da Universidade de Caxias do Sul (UCS)”

Na resenha acadêmica descritiva, os passos são exatamente os mesmos, excluindo-se o passo de número 5. Como o próprio nome já diz, a resenha descritiva apenas descreve, não expõe a opinião o resenhista.
Finalmente, na resenha temática, você fala de vários textos que tenham um assunto (tema) em comum. Os passos são um pouco mais simples:
  1. Apresente o tema: Diga ao leitor qual é o assunto principal dos textos que serão tratados e o motivo por você ter escolhido esse assunto;
  2. Resuma os textos: Utilize um parágrafo para cada texto, diga logo no início quem é o autor e explique o que ele diz sobre aquele assunto;
  3. Conclua: Você acabou de explicar cada um dos textos, agora é sua vez de opinar e tentar chegar a uma conclusão sobre o tema tratado;
  4. Mostre as fontes: Coloque as referências Bibliográficas de cada um dos textos que você usou;
  5. Assine e identifique-se: Coloque seu nome e uma breve descrição do tipo “Acadêmico do Curso de Letras da Universidade de Caxias do Sul (UCS)”.

Conclusão

Fazer uma resenha parece muito fácil à primeira vista, mas devemos tomar muito cuidado, pois dependendo do lugar, resenhistas podem fazer um livro mofar nas prateleiras ou transformar um filme em um verdadeiro fracasso.

As resenhas são ainda, além de um ótimo guia para os apreciadores da arte em geral, uma ferramenta essencial para acadêmicos que precisam selecionar quantidades enormes de conteúdo em um tempo relativamente pequeno.

Agora é questão de colocar a mão na massa e começar a produzir suas próprias resenhas!


Fonte:  Lendo.org

16 março, 2011

Você faz anotações nas margens dos livros?

Se faz, saiba que a marginália (do latim medieval marginalia, pl. de marginalis), ou o “Conjunto de anotações feitas nas margens de um manuscrito, caderno, ou mancha de uma página impressa (jornal, livro etc.)”[1],  pode acabar e as anotações desaparecerem para sempre por causa dos leitores de livros eletrônicos.

Anotações nas margens dos livros
Detalhe da Bíblia que pertenceu a Martin Lutero contendo suas anotações.
Imagem @ James L. Amos/CORBIS

Esta é uma das práticas mais interessantes e prazerosas para quem gosta de ler e simultaneamente deixar registrado o que pensa a respeito dessa ou aquela passagem do livro. Infelizmente pode acabar devido ao surgimento do livro eletrônico. Isso é apontado na matéria “Book Lover Fear Dim Future for Notes in the Margins” (algo como Os amantes de livros temem pelo fim das notas nas margens dos livros), que saiu na seção de livros do New York Times.

Mark Twain e Nelson Mandela

O temor se dá pelo fato de essa atividade ser quase uma “arqueologia” literária e citam exemplos como o de Mark Twain, que fez anotações nas margens das páginas de um livro chamado The Pen and the Book (A caneta e o livro) que, na verdade, é um guia sobre marketing para escritores e editores. Uma das notas diz o seguinte:
Nada pode ser mais estúpido do que usar publicidade para vender livros como se fossem “bens essenciais”, como o sal ou o tabaco”.

Ele também da uma espetadela ao ler que será paga uma quantia significativa para uma escritora fundadora da Ciência Cristã. E vejam que interessante sobre Nelson Mandela, quando esteve preso, em 1977:
(…) uma cópia das obras de Shakespeare foi distribuída entre os detentos. Mandela escreveu seu nome junto à passagem de “Júlio César”, que diz: “Os covardes morrem muitas vezes antes de suas mortes.”

Anotações e fichamentos

Em termos acadêmicos seria “fichar” um livro. Quer dizer, anotar aquilo que se entende ou não, para, posteriormente, relembrar os pontos principais e compreender o que se leu. Dou um exemplo concreto da importância dessa prática. Eu sempre tive vários livros, não apenas os de formação acadêmica, como de literatura em geral. Ler sempre foi uma das coisas que mais gosto de fazer. Portanto, meu filho que estuda Filosofia na UFRJ regularmente faz uso dessa minha biblioteca. A minha graduação é em História. Várias e várias vezes ele veio me falar que sempre lê as minhas anotações feitas à margem das páginas dos livros. Motivo de orgulho para um pai coruja, não?

E se der pau?

Pois bem. Voltando ao artigo, a questão é: como serão preservadas essas anotações nos leitores de livros digitais. Certamente que, segundo o texto, há e haverá maneiras e maneiras de registrar. O problema está no fato d,e se isso será ou não preservado. Digamos que, em perfeito informatês, a geringonça dê pau? Como nem todos (99% dos usuários de qualquer treco informático) fazem cópias de segurança, corre-se o risco de que esses registros, digamos inúteis para a maioria, mas que guardam um pedaço do pensamento de quem leu determinado livro, desapareçam para sempre. A situação parece tão séria que até acontecerá um simpósio a respeito, organizado pelo Caxton Club, um clube literário fundado em 1895. Serão apresentados temas ligando autores e leitores como Abraham Lincoln, Alexander Pope, Jane Austen, Walt Whitman e Henry David Toureau, notórios praticantes das anotações nas margens dos livros. Outros praticantes foram William Blake e Charles Darwin.

Ler é conversar com o livro

Eu sempre disse aos meus alunos que um livro não é apenas para ler. É para conversar com ele. Eu só não sabia que essa mesma ideia não era original deste que vos escreve. Fiquei sabendo ao ler o artigo do NYT que um grande estudioso da história oral, Studs Terkel, dizia o seguinte: a leitura de um livro não deve ser um exercício passivo, mas sim uma conversa com voz rouca.

Então, ao conversar com um livro, quer dizer, fazer anotações nas margens de suas páginas, não temos noção do valor que esse livro pode alcançar no mercado de livros usados e raros – é um mercado incessante e fortíssimo –, pois é um elo de ligação com os leitores e grupos da sociedade que leram o livro. Imagine, então, quanto vale um livro com anotações feitas por alguma celebridade?

A relevância do que está escrito nas margens é subjetiva. Experimente, por exemplo, ir a um sebo e escolher um livro já lido por alguém e que têm anotações. Você vai entrar na mente daquela pessoa e tentar desvendar os mistérios que a levaram a escrever coisas como descobriu Billy Collins, um poeta norte-americano, ao se deparar com uma edição usada de “O apanhador no campo de centeio”, de J.D. Salinger,  em que a antiga leitora deixou a seguinte anotação: Perdoe pelas manchas de salada de ovos, mas eu estou apaixonada”.



Este foi escrito a partir da tradução e adaptação feitas por Jorge Alberto, da matéria Book Lover Fear Dim Future for Notes in the Margins
, de Dirk Johnson, para o The New York Times de 21/02/2011.
[1] Aulete Dicionário Digital

19 janeiro, 2011

RPG, ou os bastidores da maior escola de contadores de histórias já criada…

RPG.


Talvez você conheça essa sigla porque ande gastando centenas de suas horas com a Square Enix. Talvez porque seja um saudosista de livros em primeira pessoa, cheios de finais e opções diferentes de trajetória para o protagonista. Talvez porque tenha lido matérias policiais mal direcionadas.

Talvez porque tenha dor nas costas.

Não importa.

O caso é que hoje nós vamos falar sobre o que você deveria pensar de verdade  ao escutar essa sigla. Sobre a trajetória e peculiaridades do maior jogo de imaginação já criado pela humanidade.
Do verdadeiro papel da maior escola de contadores de histórias já criada.

 


História de Criação

É meio lendário o que se conhece sobre a motivação da criação desse jogo, mas vamos lá. Reza a lenda que Gary Gygax e Dave Ameson jogavam um jogo de tabuleiros chamado “Chainmail” (e se você é RPGista de mesa ou de games, provavelmente deve saber que isso significa: “cota de malha”), quando após uma grande batalha sobraram apenas três guerreiros do exército original. Como a ideia inicial seria tomar uma masmorra, um deles teria comentado que aqueles guerreiros poderiam promover uma invasão subterrânea na masmorra, ou qualquer coisa do tipo.

Logo, em vez de continuar aquela aventura de combate em massa, eles tiveram a grande sacada de narrar a aventura subterrânea daqueles três personagens, iniciando o que viria a se tornar em 1974 o RPG mais famoso do mundo: o Dungeon & Dragons.

Depois que a coisa toda começou, alguns híbridos começaram a surgir no mercado, mas ainda sem tanta repercussão.

Curiosamente, em 1980, o ainda jovem e iniciante Tom Hanks fez parte de uma pérola chamada “Mazes and Monster”, que mostrava a história de um jogo de RPG.

 
(Tom Hanks ainda em nível de fama 1…)

No Brasil, apenas saber do que se tratava RPG nessa época já o tornava um cult dentre o meio nerd; conseguir umas xerox de um material pirata (sempre em inglês) então o tornava um God of War!

Eu me lembro da primeira vez em que ouvi falar dele. Um amigo meu nerd chamado… bem… Luke, virou e explicou: “é um jogo difícil de explicar! Você pode fazer de tudo! Se você quiser, sei lá, mandar seu personagem cuspir no chão, você pode!”.

E eu sem entender como aquilo seria possível, imaginei naquela década de 80 o que seria hoje a série GTA.
Mas então veio 1983.

Essa data não deve ser esquecida.

Jamais.

Porque foi essa data que trouxe ao Brasil o maior presente que o Dungeon & Dragons poderia dar à cultura pop brasileira. Porque foi nessa data que surgiu Dungeons & Dragons Cartoon. Mas se esse nome não lhe disser nada, provavelmente seja porque você deve conhecê-lo pelo outro.
O “Caverna do Dragão”.

 
(Cavernas… e… Dragões…)

Não vou me estender nos comentários dessa animação porque teremos ainda um post por aqui só para ela. O que basta dizer é que o sucesso do fenômeno no país foi tamanho que se tornou provavelmente a animação mais amada de toda uma geração.

E ajudou a popularizar o RPG de uma maneira grandiosa.

O fato é que “Dungeons & Dragons” não foi apenas o primeiro RPG do mundo, ele também estabeleceu todos os conceitos que chegaram a se tornar clichês associados a eles, do qual falaremos mais abaixo.

No Brasil, contudo, apesar de “Caverna do Dragão” aguçar a curiosidade, nem todos sabiam que se baseava em um RPG. Aliás, pouca gente mesmo ainda sabia o que era isso!

E foi então que elas foram apresentadas a algo muito curioso, que mais uma vez virou o jogo.
Chegavam por aqui as Aventuras Fantásticas.

Livros-Jogos

Chamados por aqui de “livro-jogo” ou “aventura solo”, a série Aventuras Fantásticas apresentou o conceito do RPG de fato para milhares de brasileiros. Através daqueles livros de múltiplas opções, o leitor compreendia quais os princípios daquele jogo de imaginação.

A situação era assim: os livros apresentavam um cenário que podia variar desde uma cidadela de ladrões (os títulos eram um melhor do que o outro) até uma metrópole futurista. Apresentava-se o protagonista, e o que seria o grande objetivo que ele perseguiria em sua jornada.

Então nós assumíamos o papel desse protagonista (os livros eram sempre em 1ª pessoa) e decidíamos de acordo com duas, três ou quatro opções, por onde ele deveria seguir, dentre centenas de mini-parágrafos numerados no livro. Por exemplo:

Você entra na cidade e percebe ir embora os últimos raios de sol.
* Se você quiser ir para a Taberna do Pé Cansado, vá para o trecho 35
* Se preferir seguir viagem assim mesmo, vá para a 245

Era interessante porque para alcançar esse grande objetivo, você ajudava o protagonista a se decidir por diversas sidequests; missões paralelas com o intuito de seu personagem ganhar mais conhecimento ou itens para ajudá-lo na batalha final.

Claro que tinha muito roubalheira. Era comum o marmanjão ler o livro cheio de dedos enfiados pelas páginas, parecendo o polvo Paul, conferindo quais as melhores opções, caso se arrependesse da 1ª opção escolhida. Sem contar que quase ninguém rolava dadinhos de verdade cada vez que aparecia um inimigo a ser enfrentado. Simplesmente pulava direto para o mini-parágrafo de vitória.

 
(admita, você já roubou muito nesses livros…)

Hoje em dia a editora Jambô relançou essas coleções, com novas capas, mas o mesmo espírito, chamando-os de Fighting Fantasy (se quiser ver como ficou essa nova coleção, só clicar aqui).

Alguns anos depois, esse mesmo conceito quando colocado em video interativo gerou o que viria ser chamado RPGs eletrônicos (e posteriormente os MMORPGs) para diferencia-los do RPG de mesa.

Aprendendo a ideia da coisa, os nerds resolveram sair das aventuras solos e arriscar suas próprias criações com grupos de amigos igualmente nerds. Não adiantava, como citado, no início o RPG era algo bem restrito a esse gueto.

Mas quando os nerds começaram a mestrar suas próprias aventuras, eles mostraram seu grande poder.
E então o RPG foi começando a se tornar popular.
Anos mais tarde, ele se tornaria pop.
 
(A fantasia nunca termina…)

A Mecânica

Ok, mas como funciona esse negócio?

RPG é uma sigla para Role Playing Game, que significaria “jogo de interpretação de papéis”.

Explicação rápida: primeiro é preciso um grupo de jogadores que pode variar de 3 a 6. Não existe um limite, mas quanto mais gente, menos controle se tem.

Um desse jogadores será o mestre. Se RPG fosse um videogame, o mestre seria o console propriamente dito. Seria quem define o cenário, as regras desse cenário, os grandes vilões e trama da história a ser narrada (percebe-se desde já a semelhança com qualquer estrutura narrativa?).

 
(Quem é o mestre?)

Os outros serão os jogadores que irão criar seus personagens, de acordo com o sistema de regras em questão. Se é um cenário inspirado medieval, você pode gerar desde um Bárbaro crescido nas montanhas geladas até uma ladra caolha, com voz grossa (lembrei dos Changeman de repente…), por exemplo.

Se for um cenário super-heróico, você pode criar um personagem que solte fogo pela boca, que tenha sido atingido por meteoros e passa a soltar raios de plasma; qualquer coisa que o mestre do jogo permitir.

Criado isso, e definido os atributos desse personagem, você irá para a parte mais divertida: o background.
Aqui é onde o escritor dentro de você aflora!

Você começa a pensar sobre a origem daquele personagem, seus aliados, seus inimigos, seu grande amor, treinamento, objetivo de vida.

Tudo o que um escritor faz ao longo da vida centenas de vezes com seus personagens.

Com os personagens prontos, o Mestre do jogo cria um motivo para que eles se juntem em uma missão. Esse é um dos conceitos criados por Dungeon & Dragons que se tornaram clichês. Naquele jogo, especificamente, tal encontro se dava sempre em uma taberna, sendo os aventureiros um grupo de mercenários, caçadores de recompensas.

Então um velho bizarro na taberna começava a falar sobre uma lenda, que continha um grande tesouro para quem fosse lá conferir a coisa. Ou então que o rei tal havia colocado uma recompensa por uma tarefa X.
E os aventureiros iam lá tentar ser felizes.

 
(típico grupo de aventureiros, pensando em como realizar a próxima missão impossível)

Quando aparecem inimigos nessas aventuras, o mestre solicita que os jogadores “testem sua sorte”. Isso significa rolar dados multifacelados e compará-los com os atributos pré-estabelecidos de seus personagens. Na maioria das regras para a sua ação ter sucesso é preciso conseguir um número menor do que o número do atributo em questão.

Por exemplo, digamos que você esteja jogando o sistema 3D&T e tenha Força 2. Então resolve que quer arrombar uma porta trancada. Você rola o dado e se tirar 1 ou 2, você consegue. Se tirar, 4,5 ou 6, você bate na porta e volta feito uma bola de pinball.

O bacana do RPG, contudo, é a evolução pela qual seu personagem passa.

A cada missão completada você ganha pontos de experiência, que tornam seu personagem mais forte e famoso dentro do cenário proposto. Com várias aventuras, que ganham o termo de campanha, você acompanha seu personagem que no início era um fazendeiro metido a macho se tornar um lorde de guerra! A sensação disso é indescritível.

É como realmente você acompanhar um épico, mas se sentindo dentro desse épico.

Outro grande aspecto da coisa toda é a interpretação.

Sem essa compreensão por parte do jogador, um personagem de RPG é só uma planilha esquisita de números. Ele é uma folha e nada mais. Seria como você resumir você mesmo ao que diz o seu cadastro no Orkut. Ok, ele pode dizer algo de você. Mas ao mesmo tempo, você provavelmente é muito mais do que aquilo (mesmo que nem sempre para melhor…).

A graça de se criar um personagem completamente diferente de você é entrar na mente dele e pensar como ele pensaria. Se o mestre lhe diz:

Você entra no salão e então enfim encontra o filho do assassino da sua mulher, a quem você jurou vingança. Curiosamente, é apenas uma criança. Ela está aterrorizada. O que você faz?

Se você for um padre jesuíta, você pode escolher perdoá-la. E perceber que o caminho da vingança não é o que lhe dará paz.

Se você for um bandeirante escravocrata, você pode escolher fazer vingança ainda assim.

Não importa se você concorda com aquelas atitudes. A ideia é tentar entrar na mente daquele personagem. E isso também gera uma sensação muito intensa após uma aventura.

No fim das contas, se colocar no lugar do outro ainda é a melhor maneira de repensarmos nossos próprios atos.

 
(a ideia é essa…)

RPG & Literatura

Como dito, o RPG em si tem muitos conceitos em comum com uma estrutura narrativa.

- O mestre precisa organizar diversas personagens de personalidades diferentes, dentro de uma mesma estrutura de ação.

- Ele precisa definir toda uma ambientação e regras daquele cenário proposto.

- Ele precisa pensar em Pontos de Virada na trama, em vilões, recompensas, artimanhas, armadilhas, emboscadas, personagens secundários.

- Os personagens evoluem; eles precisam de um arco dramático que os faça evoluir tanto de forma física quanto mental.

- É preciso aprender a pensar como um personagem, independente das suas opiniões e filosofias pessoais.

- É preciso ter ritmo para não cansar. Se o ritmo cai e os jogadores começam a se entediar com as aventuras do mestre, ele grita logo um: “ATAQUE SURPRESA DE GOBLINS!” que acorda rapidinho os sonolentos.
E com isso tudo apresentado, vem a questão: mas RPG afinal é literatura?

Resposta: não, mas é possível se fazer literatura oriunda do RPG.

Nos EUA são bem comuns sagas literárias inspiradas em cenários como Dragonlance, Forgotten Realms, Vampire e Shadowrun, por exemplo. Algumas delas se tornam best seller do New York Times e se tornam até clássicas dentre o público alvo.

Muitos autores de literatura fantástica de hoje tiveram seus primeiros contatos com o gênero exatamente com o jogo, antes de começarem a ler sobre o assunto. O escritor Leandro Reis, por exemplo, da série “Legado Goldshine” é um fã assumido e que não nega suas influências. Eu e Eduardo Spohr testamos alguns dos personagens que viriam a estrelar “Dragões de Éter” e “A Batalha do Apocalipse” em aventuras de RPG de mesa.

E quantos não começam a escrever inspirados em Tolkien, cujo cenário foi a grande inspiração para o próprio RPG em si?

Aqui no Brasil, o caso mais famoso, contudo, é o de Leonel Caldela, que deu vida aos romances inspirados no cenário de RPG Tormenta.

RPG & o Demônio

É triste ter de usar espaço aqui para comentar uma coisa idiota e nonsense dessas, mas fazer o quê?

A questão é assim: junte os elementos “cidade pequena + crime brutal + delegado sem saber o que fazer + ignorância + imprensa estilo Superpop”.

O resultado é o de sempre: informação sensacionalista e irresponsável.

Eu poderia explicar os casos que levaram à essas bizarrices, mas Marcelo Del Debbio já o fez de maneira muito competente no website da Daemon, no link que você pode acessar aqui.

Depois de ler o que está lá, você pode sentir vergonha alheia por alguns setores de imprensa.

 
(Culpar o RPG pela atitude de algum doente, é como culpar o futebol por coisas assim…)

RPG no Brasil

Por aqui, o grande desbravador foi o chamado Tagmar, que surgiu em 1991. Em época de material traduzido escasso, ele fez bastante sucesso e era comum em points nerds, como gibiterias, se encontrar mesas com dados coloridos e fichas do cenário espalhadas.

O Desafio dos Bandeirantes surgiu no ano seguinte e enfrentou barreiras de preconceitos intensas (assistam a uma palestra dos autores), o que já era de se esperar já que foi o primeiro a se utilizar do folclore brasileiro em sua ambientação.

Com o tempo, surgiram alguns que nasceram e morreram e outros que sobreviveram ao tempo.

Alguns que vêm à mente: Millenia, Trevas, Defensores de Tóquio, Monsters, Era do Caos, Invasão. Sem contar os sistemas que poderia ser adaptados a qualquer cenário, como: Opera RPG, Nexus e 3D&T (o mais famoso deles, que por ter sido vendido em bancas de jornal chegou a locais que não possuiam livrarias especializadas).

A revista Dragão Brasil também prestou um grande serviço ao tema, sendo por muito tempo a única sobre o assunto no país. Curiosamente, as primeiras edições se chamavam “Dragon Magazine”, eram imensas e em preto e branco.

Os responsáveis pelo conteúdo, o chamado Trio Tormenta, formado por Marcelo Cassaro, J.M. Trevisan e Rogério Saladino, juntaram o material ao longo de anos, dando origem ao já citado cenário de RPG “Tormenta”, e abriram espaço também para a divulgação do trabalho do companheiro de Sedentario Marcelo del Debbio, que antes de desvendar teorias de conspiração escrevia RPGs inspirados em temas sobrenaturais.

[atualizado: alguns leitores nos comentários já lembraram do sistema genérico GURPS. Ainda que com um tanto complexo esquema de regras, de fato ele ajudou a popularizar o RPG por aqui com seus diversos suplementos como GURPS Supers, GURPS Fantasy, GURPS  Horror, GURPS Conan, etc. Como estava citando os nacionais, não o havia comentado, assim como o sistema Storyteller, que também foi um marco e gerou os live actions também citados, que eram uma espécie de teatro improvisado, com os jogadores literalmente interpretando seus personagens].

De qualquer maneira, o RPG ainda será para sempre a maior escola de contadores de história já criada e irá influenciar milhares de pessoas a se interessar por fantasia e tudo que rodeia a imaginação.
No fundo é mesma essa a grande magia.

O poder de se jogar dados com o universo.


ps: e quem quiser, aproveite os comments de hoje e nos conte algo que adoramos saber: afinal, algum RPG de mesa ou eletrônico marcou a sua história ou gerou uma lembrança interessante ou engraçada, digna de nota?

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12 dezembro, 2010

Dossiê Excalibur – Conheça as várias versões da lenda do Rei Arthur


Quem nunca ouviu falar da lenda do Rei Arthur e de sua espada mágica? Qual garoto nunca sonhou em ser um cavaleiro da Távola Redonda, lutar contra dragões e salvar belas donzelas indefesas?

Ao longo dos séculos, as célebres aventuras arturianas emocionaram e inspiraram milhões de pessoas ao redor do mundo. Mas, como um mito inicialmente britânico foi capaz de tocar tanta gente, e por tanto tempo?

As lendas de Excalibur e do Cálice Sagrado não são apenas britânicas, são universais. Elas influenciaram imensamente toda a literatura ocidental e teceram as bases para a formação do caráter do herói como nós o conhecemos hoje.

JORNADA PAGÃ, HERÓI CRISTÃO

Em muitos aspectos, os trovadores medievais resgataram o estilo grego de contar histórias. Reaprenderam a clássica jornada do herói e voltaram a trabalhar com arquétipos – o guerreiro, a donzela, o mago, o pirata... esses modelos são tão antigos quanto Édipo e a Esfinge.

Mas o mundo medieval não abrigava mais uma sociedade pagã. Desta forma, o protagonista precisou ser reinventado. O herói deixou de ser o semideus helênico, inconseqüente e arrogante, para se tornar o guerreiro cristão, honrado e humilde.

Arthur acabou se tornando um desses novos heróis, um homem que, como muitos bretões, teve antepassados pagãos, mas deixou de venerá-los para aceitar os valores da Igreja.

O ARTHUR HISTÓRICO

Hoje, com as recentes descobertas arqueológicas, a idéia de um "Arthur histórico" vem ganhando força. A verdade, porém, é que sabemos quase nada sobre a face "real" do suposto monarca.

O principal fator que dificulta as pesquisas é a época em que Arthur teria vivido. Por volta do ano 500 d.C., a Bretanha e a maior parte da Europa Ocidental estavam mergulhadas no caos. A unidade do Império Romano havia entrado em colapso, e a Igreja ainda não era suficientemente forte para manter uma autoridade total. A maioria das cidades foi abandonada, as pessoas se mudaram para o campo e a muitas evidências e relatos foram perdidos.

Os historiadores acreditam que houve na Bretanha um homem importante chamado Arthur – provavelmente um general ou um rei – pelo simples fato de que, naquela época, muitas crianças foram batizadas com este nome. Vale lembrar que, até hoje, as pessoas têm o costume de dar aos seus filhos nomes de pessoas famosas.

Uma hipótese razoável sobre o Arthur histórico sustenta que ele foi um chefe militar chamado Artorius Riothamus, conhecido também como “O Último Romano”, uma figura que teria conseguido expulsar os invasores saxões (por algum tempo) e unificar os domínios da região.

ARTHUR DOS MITOS

Parece um consenso que quase ninguém (nem mesmo os britânicos) está preocupado se Arthur realmente existiu. O filme "Excalibur", de John Boorman, expressa esse sentimento de forma magnífica ao defender que o Rei e a terra “são um só”. Arthur, sua espada mágica, os cavaleiros, a távola e o Santo Graal existem como ícones imaginários, modelos, e não devem ser entendidos como elementos do mundo real.

Uma prova muito clara disso é que as lendas arturianas se passam em um cenário muito diferente àquele do ano 500. O palco dessas aventuras parece estar mais de acordo com um período posterior – a Baixa Idade Média (algo entre os séculos XI e XIV), época em que a própria lenda começou a ganhar força e popularidade.

O Arthur mítico se encaixa muito melhor em uma Europa fantástica, que só existe mesmo na imaginação das pessoas.

SÓ PARA RELEMBRAR

De acordo com a lenda, Arthur foi uma criança de sangue nobre que não tinha a menor idéia de sua verdadeira identidade. Certa vez, Uther Pendragon, obcecado por possuir a dama Igraine, esposa do Duque Gorlois da Cornualha, pediu ao mago Merlim que fizesse um encantamento que o tornasse igual ao duque.

Desta forma, Uther conseguiu ter sua noite com a moça, mas o feiticeiro exigiu um preço: o fruto de sua luxúria. Quando Arthur nasceu, então, Merlim veio buscá-lo, e o entregou ao cavaleiro Sir Ector para que fosse criado como filho adotivo.

Arthur cresceu como escudeiro de Ector. Aos 15 anos, enfim, ele encontrou a espada Excalibur e conseguiu removê-la da pedra, tornando-se assim rei legítimo.

Mais tarde, o monarca se casaria com Guinevere, seu único e verdadeiro amor, a mulher que iria trai-lo com o seu melhor amigo – Sir Lancelot.

Arthur sofreu, e com isso toda a terra adoeceu junto com ele. Iniciou-se assim a busca pelo Santo Graal, o Cálice Sagrado que traria a vida de volta ao rei e ao seu povo.

METÁFORAS E ALEGORIAS

Perceba que, como todo mito, as lendas arturianas são carregadas de alegorias.

A subtração do bebê Arthur por Merlim é uma metáfora que nos ensina que para tudo há um preço, especialmente quando estamos dispostos a ignorar a todos para alcançar nossos objetivos.

O Arthur escudeiro pensa ser um simples plebeu, mas na verdade possui aquele “algo especial”, que no caso é o sangue real. Como ele, nós somos pessoas comuns, somos seres humanos normais que vivemos constantemente tentando ser especiais. Em nossas histórias, somos sempre os heróis.

Quando sofremos uma grave ferida emocional, parece que não só nós, mas o mundo inteiro desaba, tal qual o reino de Arthur, assolado pela tristeza depois da traição de Guinevere.

Mas a busca ao cálice pelos cavaleiros da Távola Redonda nos mostra que podemos sempre encontrar amigos que nos ajudarão a trilhar a árdua jornada rumo ao Graal, o elixir que nos trará de volta à vida e restabelecerá nossas forças.

ARTHUR NA LITERATURA

Os mitos arturianos começaram a se popularizar já no século XII, mas a referência literária mais antiga e provavelmente a mais segura sobre o tema é o livro "Le Morte d'Arthur", de Sir Thomas Malory, publicado em 1485.

Visto aos olhos de hoje, Le Morte d'Arthur não é uma leitura aprazível. É um livro confuso e antiquado, mas é também um material precioso para estudiosos e curiosos.

Romances continuaram a ser lançados ao longo dos anos, em muitos idiomas diferentes, mas foi no século XX que coisa tomou proporções magnânimas.

Uma das séries mais célebres do nosso tempo é "As Brumas de Avalon", de Marion Zimmer Bradley, que explorou o ponto de vista feminino da saga.

Outra autora, Mary Stewart, contribuiu com uma trilogia dedicada a Merlim (A Caverna de Cristal, As Colinas Ocas, O Último Encantamento).

Mais recentemente, o escritor britânico Bernard Cornwell ficou famoso por recontar a lenda utilizando o prisma histórico e colocando o Rei Arthur no cenário “real” do século V.

ARTHUR NO CINEMA

O cinema também soube explorar a popularidade do tema. O melhor filme já feito sobre o Rei Arthur é sem dúvida "Excalibur" (1981), de John Boorman, uma bela homenagem ao mito.

Uma visão totalmente adversa pode ser conferida no razoável "Rei Arthur" (2004), o longa com Clive Owen e Keira Knightley que retrata Arthur como o guerreiro romano que ele realmente pode ter sido.
 

Outro filme mais voltado para o mito, porém menos fantástico, é "O Primeiro Cavaleiro" (1995), com Sean Connery e Richard Gere, livremente inspirado na obra do poeta francês Chrétien de Troyes (século XII).

Outras produções mais antigas também são digas de nota.

"Knights of the Round Table" (1953), com Robert Taylor e Ava Gardner, é outra visão baseada no livro de Malory.

A 20th Century Fox também lançou uma versão cinematográfica da história em quadrinhos do "Príncipe Valente" em 1954, uma película dirigida por Henry Hathaway.