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16 novembro, 2010

O Draconiano – Livro 1

Começo a mostrar para vocês esta obra GRATUITA que esta na net. Do escritor Fernando “Tucano” Russell, O Draconiano é uma obra que inspirou e levou vários nerds para este incrível mundo da literatura.
Durante muito tempo, após as unificações dos reinos dos homens, todo o continente de Enthär passou por um período conturbado, com inúmeras guerras de fronteiras.

Os vários feudos do leste se uniram em estados, com o poder centralizado nas mãos de um nobre mais forte, que se tornava rei. Nessa época, anões e elfos se mantinham afastados e era raro vê-los fora de seus reinos, Driev e Kendal.

Dentre os reinos recém-formados destacou-se Dracon, que adotou uma postura austera e conquistou a amizade dos elfos. Dracon era uma grande ilha no Mar do Leste, rica em minérios e em terras férteis. Isso despertou a cobiça dos reinos vizinhos.

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Pegando esta área de resenhas e críticas, resolvi fazer uma jaba para quem merece. Vou utilizar esta área e falar de livros de pessoas que estão ai, lutando para crescerem neste mundo selvagem e conturbado, que é o mundo literário.
Muitos escritores ja me enviaram arquivos pdf com suas obras questionando se eu poderia comentar aqui no blog, não havia feito isso antes, pois colocar um livro novo aqui no blog, não teria visibilidade nenhuma. Mas com o número crescente de acessos, acredito que chegou a hora.

Passado em um mundo fantástico medieval, inspirado em aventuras de D&D e no mundo de Senhor dos Anéis, diga-se de passagem trechos da história me fez lembrar o Silmarillion. O Livro 1 tal qual uma aventura de RPG, começa com um encontro de dois personagens, velhos amigos, Ruprest e Patton. Que depois de muita cerveja e hidromel iniciam uma aventura através de terras estranhas, ruínas ditas assombradas e enfrentam inimigos onde quer que eles apareçam.

A história se desenvolve num ritmo amigável. Novos personagens aparecem enquanto o livro vai engrossando e a trama se adensa. Batalhas épicas são travadas e tudo isso em volto de paixões e passagens comicas. O bom humor do Tucano esta em todo este livro, tornando uma leitura bem agradável.

Eu não quero dar spoilers, pois quero que vocês leiam, mas quem gosta de aventuras neste estilo e quem ja jogou rpg alguma vez na vida, vai começar a ler este livro e não vai parar mais. A pena que o livro 1 acaba e você fica na expectativa da continuação… só que o Tucano esta aparentemente sem tempo para continuar. Por isso vamos incomodar ele para que volte a escrever Draconiano.

É isso. Fiquei sabendo pelo Twitter do Tucano, que o site O Draconiano vai sair do ar. La esta disponível o pdf do livro, aproveitem enquanto o site esta la e façam o download. Mas caso o site ja não esteja mais no ar, falem com o Tucano pelo seu Twitter, ou acessem seu blog Câncer de Jack e peçam o livro Draconiano. E não deixem de incomodar ele e pedir para ele continuar a escrever O Draconiano.

E se quiserem ler outras obras deste escritor nerd, fiquem ligados na área de contos do site Jovem Nerd, la esta Sitala, conto pós apocalíptico e em breve um novo conto, 1.000 olhos?!?

O Draconiano é um livro de Fernando Russell, escrito entre os anos de 1998 e 2008 e tem como único objetivo trazer um pouco de lazer para os (assim como eu) afixionados em histórias de fantasia. A arte do livro foi parcialmente produzida por Christiano Flexa e a correção ortográfica foi gentilmente feita por Lúcio Nunes.

15 novembro, 2010

1000 Olhos – Parte 9

1000 Olhos é um conto seriado de Fernando “Tucano” Russell, publicado mensalmente no Jovem Nerd. Perdeu o início? Confira aqui!

INVASOR SORRATEIRO


Depois de sete horas ininterruptas treinando as majestosas aves do rei, Draszen pode finalmente seguir para o palácio para encontrar Izbaza. Para todos os efeitos, ele e a aia da rainha tinham reatado o noivado. No entanto, o relacionamento era apenas um embuste para deixá-lo mais próximo dos colóquios palacianos.

Como de costume, Draszen apareceu na ala dos servos e beijou a testa de Izbaza. De cima da mais alta torre, a Rainha Smiliana observava o casal, satisfeita por ver sua aia predileta novamente junto ao falcoeiro.
Os dois conversaram por algum tempo sobre assuntos fúteis e ao cair da noite, passaram a arquitetar a entrada de Draszen no palácio. Inicialmente, o falcoeiro pensou em se esconder no dormitório de Izbaza, pois se fosse pego, todos pensariam que se tratava de uma invasão puramente lasciva de um noivo apaixonado e cheio de volúpia. Mas o plano foi logo abandonado, quando a jovem contou sobre a crise conjugal do casal real.

- Fazem semanas que a rainha dorme com todas as suas aias em volta da cama. O rei está dormindo em um aposento separado. Minha senhora mal fala com o esposo, desde que ele começou a extrapolar sua paixão por pássaros. 

- Mas ele sempre foi louco pelos falcões. Ele até mudou o emblema do reino - retrucou Draszen.

- Sim, mas agora ele passa os dias e as noites lendo sobre pássaros fantásticos de outros continentes. Diz também que organizará uma expedição para trazer aves de caça orientais. Há dias em que o rei se esquece até de se alimentar. E a rainha, embora estivesse preocupada no início e tentasse ajudá-lo, não suporta mais esse comportamento doentio.

- Agora que você está me contando, me recordo de ter ouvido uma ou duas histórias na taberna. Mas pensei que eram puramente escárnio dos soldados. Não tinha conhecimento desses acontecimentos – disse o falcoeiro baixando os olhos desolado.

- Fique calmo - disse a aia, retomando ao estratagema – descobri uma passagem subterrânea, que não sei para que serve, ou por quem é usada, mas é quase perfeita. Ela vai do bosque até um escritório bem próximo ao templo de Nrude.

- Fiquei observando algum tempo e não vi ninguém se aproximar. Minha única dúvida é se você consegue passar, pois o caminho é estreito e você muito largo.

Draszen deu um largo sorriso imaginando se aquilo era ou não um elogio e respondeu baixinho:
- Vamos ver essa passagem, então.

Os dois se certificaram de que a rainha não os observava mais e que nenhum soldado estivesse atento e seguiram para o bosque do palácio. Apesar da cautela, o bosque era um lugar em que um casal não levantaria suspeitas. Não era raro que soldados levassem aias palacianas para o meio das árvores para saciar seus desejos carnais.

Izbaza tomou a frente para guiar o cúmplice e em meio a arbustos e pedras, desvendou a entrada da passagem subterrânea. Draszen examinou o buraco e reconheceu que a passagem era estreita demais.

- Você já seguiu esse caminho?

- Sim, há duas noites eu me esgueirei por ele para saber exatamente onde ia dar – revelou a jovem.

- E a passagem se estreita ainda mais, ou continua nessa largura?

- Se estende por todo caminho, mas a saída é mais apertada um pouco. O que você acha?

- Talvez, se você conseguir um pouco de azeite de peixe da cozinha, eu passe mais fácil. O buraco é realmente bem estreito.

A jovem fez que sim com a cabeça e correu em direção ao palácio, para buscar o óleo. Draszen se refugiou próximo a um grande salgueiro e esperou o retorno da jovem.

Alguns minutos depois, o guerreiro estava sem camisa com o corpo besuntado com o azeite de peixe. O odor era forte e a sensação estranha, mas o sacrifício, necessário. Com o tórax brilhando à parca luz das estrelas, o falcoeiro se arrastou pela passagem.


Como Izbaza havia detalhado, o pequeno túnel se mantinha com as mesmas dimensões durante todo seu percurso. Como um verme, Draszen se moveu durante muito tempo até chegar a um ponto onde uma portinhola de madeira impedia a passagem.

Por alguns instantes ele se apavorou e duvidou de sua cúmplice. Seria uma armadilha de Izbaza? – pensou. Por que outro motivo ela não diria nada sobre aquele obstáculo? Como poderia voltar daquele ponto?

Um surto claustrofóbico fez seu coração acelerar e sua respiração ficou difícil. Mas, colocando os pensamentos em ordem, Draszen se acalmou e tentou ouvir os possíveis sons por de traz da porta. Nada. O falcoeiro não ouviu nenhuma voz ou ruído e resolveu forçar a passagem.

Mesmo sendo um homem forte, Draszen não teve sucesso empurrando a portinhola e mais uma vez o desespero se aproximou. Com o movimento dos braços limitados pelas paredes da passagem, o guerreiro não podia fazer muita coisa. Decidiu então tatear a portinhola e descobriu uma tranca.

O alívio chegou quando ele puxou a tranca para o lado e a porta se abriu suavemente. Apesar disso, Draszen não conseguiu ver o que estava a sua frente, pois nenhuma vela ou lamparina estava acesa. Menos mal, pois isso também indicava que não havia ninguém por ali.

Com um esforço violento, Draszen conseguiu passar pela passagem que ficava no alto de uma parede. Pensou como fora providencial o azeite de peixe no corpo e de como seria triste seu fim, caso não estivesse tão escorregadio. O falcoeiro agradeceu a Nrude e passou a tatear as paredes para descobrir um caminho para fora do cômodo.

Tropeçou em um baú e derrubou algo que nem imaginava o que fosse. Temeu ser descoberto por causa do barulho que estava fazendo, mas não tinha escolha. Amaldiçoou a situação. Encostou-se em uma parede, recuperando a calma e arrastou as costas até encontrar uma porta. Esperou alguns minutos com o ouvido encostado nela, para saber se tinha alguém do outro lado.

O silêncio era total, mas ainda assim, poderia haver um sentinela no corredor, que nesse caso, não faria barulho.

Mesmo sem ter toda certeza, abriu sorrateiramente a porta.
O guerreiro levou a mão à cintura, procurando encontrar o pomo de sua espada, mas lembrou que não a levara. Olhou pela fresta da porta e viu o corredor iluminado por tochas, mas nenhum guarda ou servo.

Passou tacitamente pela porta e seguiu pelo corredor. A tapeçaria pendurada nas paredes o fez lembrar do lugar. Certamente estivera ali algumas vezes, quando acompanhara a realeza ao templo de Nrude. Resgatou da memória o caminho e com mais alguns passos estava de frente para a porta dupla do templo.

Era uma porta soberana, talhada em carvalho polido e com adornos prateados. Era uma entrada majestosa para o salão de mármore branco onde os nobres devotavam sua fé ao deus Nrude.


Mais uma vez, o guerreiro esperou para ouvir os sons que poderiam vir por de traz da porta. No entanto, aquela era uma porta mais espessa, feita com madeira maciça, o que dificultava sua investigação.

Sem outra alternativa, resolveu abrir a porta com cuidado. Com uma pequena fresta aberta, observou todo o campo de visão que lhe era permitido. Viu as colunas brancas que sustentavam o teto decorado e enxergou os acentos do lado esquerdo junto às estátuas de gesso… Mas ainda não era o bastante.

Abriu mais um pouco a fresta e imediatamente entrou em pânico. Vira Goran próximo ao altar, com sua espada na mão. O mais ligeiro possível, fechou a porta e deu meia volta. Era muito azar, pensou pessimista.
- Onde estou com a cabeça? Questionou em um murmúrio lamentoso.

Correu de volta para o aposento, corroído pela incerteza de ter sido visto pelo chefe da guarda. Os pensamentos estavam embaralhados, mas decidira acreditar que o rival não poderia tê-lo percebido.

- Ele estava de costa, eu acho – disse baixinho. Eu fui bem rápido, ele não me viu – repetiu algumas vezes, tentando se convencer.

Engoliu em seco e em só movimento arrancou uma tocha do corredor, voltando ao recinto de onde havia saído há pouco. Vislumbrou pela primeira vez ao escritório que Izbaza descrevera, horas antes. Empurrou o baú para perto da portinhola de madeira de onde saíra para facilitar sua saída e resolveu voltar ao bosque.

Draszen chegou a subir no baú, mas quando se preparava para se esgueirar pelo buraco, lhe ocorreu que aquele aposento deveria ser importante, ou a passagem não terminaria ali. Decidiu então explorar o recinto.

Usando a tocha, acendeu um castiçal que estava em cima de uma escrivaninha e passou a procurar por alguma pista. Viu inúmeros livros, mas não pôde saber do que tratavam, pois não sabia ler. Encontrou alguns pergaminhos com gravuras que pareciam importantes e imaginou que aquele seria um escritório de um erudito.

Notou gavetas em uma cômoda e achou mais papeis antigos e um deles lhe chamou a atenção. Era uma gravura colorida de um pássaro exuberante que trazia em cada pena de sua calda e asas um olho vermelho.


Dobrou esse pergaminho e guardou-o dentro das calças. Afobado, o falcoeiro continuou vasculhando as gavetas da cômoda e achou uma chave de ferro. Instintivamente, sentiu que a fechadura daquela chave estava ali e começou a revirar o cômodo de cima a baixo.

Quis abandonar a busca ao ouvir passos do lado de fora, mas o silêncio retornou e ele continuou sua busca até encontrar uma nova portinhola escondida atrás da cômoda.

Olhou a sua volta e viu o estrago que havia perpetrado. Tudo estava fora do lugar e não sabia quanto tempo havia ficado dentro do palácio. Repentinamente, aproximou-se resoluto da portinhola. A chave, recém encontrada, foi colocada na fechadura e girando-a duas vezes, destrancou a pequena passagem.
Draszen entrou pelo acesso e teve a certeza de que aquela era a maior loucura de sua vida.

História: Fernando Russell @cancerjack
Ilustrações: Victor Negreiro @estivador
Revisão: Lucio Nunes @Lucio_N

Fonte: JovemNerd

27 outubro, 2010

SITALA – Parte 8 – FINAL

Sitala é um conto seriado apocalíptico de Fernando “Tucano” Russell, com ilustrações de Brunner Franklin.
Perdeu o início? Confira aqui!


Eu estava exausto. Mais do que o cansaço físico, o estresse daquela situação me deixou a ponto de cair de joelhos e pedir para Deus me levar – mais uma vez. Minhas têmporas estavam latejando e eu quase não conseguia raciocinar.

Já era tarde da noite e o espanhol não chegava. Ruslana estava próxima à janela, vigiando a rua. Eu, do outro lado da torre, brigava com meus olhos para que não se fechassem. Pálpebras pesadas. Maldita areia do João Pestana.

- Americano! Tem um carro se aproximando com os faróis apagados. Deve ser Javier – disse Ruslana, de súbito. 

- Mais fácil que sejam os orientais – retruquei, me aproximando da janela. Saia daí antes que te vejam. 

Cheguei bem perto de Ruslana e vi o movimento na rua. Não era um dos carros dos Dragões, com certeza. Mas poderia ser qualquer um, então, puxei a russa pelo braço e descemos as escadas.

Quando chegamos à nave principal da igreja, fui até o altar e me entrincheirei atrás dele. Estava tudo escuro e a única iluminação era a luz das estrelas atravessando os vitrais coloridos, que retratavam o calvário de Cristo.

A porta da Igreja se abriu lentamente e vi três vultos entrando. Não pude identificá-los, mas percebi que dois estavam mancando.

Quase disparei, porque meu dedo tremia ao encostar no gatilho da Kalashnikov.

- Javier! – disse Ruslana, em novo rompante.

Segurei forte o fuzil e mais uma vez, por pouco meu dedo não puxou o gatilho. Como aquela maluca podia saber que era Javier? E se fossem Dragões, ou Hooligans enlouquecidos?

- Ruslana! – respondeu o espanhol.

Merda. Para variar, ela estava certa. E eu? Droga, eu parecia uma criança ingênua. Todos sabiam mais do que eu, eram mais perspicazes e determinados do que eu. Eu era um coadjuvante quase sem importância.
Aquilo me deprimiu.

Javier e dois Hooligans se aproximaram. Um deles era Will, que me olhou e deu um largo sorriso, levantando uma metralhadora enorme com o braço direito. O outro eu não conhecia, mas tinha uma ferida horrível numa das pernas e o corpo repleto de sangue. Não consegui tirar o olho daquele ferimento e só voltei a mim com a voz do espanhol:

- Isso é o que acontece quando se toma um tiro com balas explosivas, garoto. 

Olhei para Javier e me lembrei de tudo que tinha ouvido da boca de Ruslana.

- Espere Javier – ordenei – Não se aproxime. Você tem muito o que me explicar.

Javier ignorou minhas ordens e continuou vindo em direção do altar.

- Agora não, americano. Os orientais vão chegar aqui em alguns minutos. Me ajude com isso – disse ele, empurrando o altar.

Automaticamente larguei minha arma e o auxiliei. Percebi que sua perna também estava machucada. Não como a do irlandês, mas igualmente coberta de sangue.

Com a ajuda de Ruslana e Will, tombamos o altar que escondia um alçapão de madeira. Na hora, lembro-me de que achei que fosse um depósito, mas não. Aquele alçapão era entrada para uma rede de túneis que atravessava toda Cork.

- Saída para Londres, hermanos – disse o espanhol.

Ruslana deu um sorriso, mas não teve tempo de expressar sua alegria com palavras.

Um tiro no escuro atravessou seu peito, espalhando seu sangue no meu rosto.


- Puta madre!!!! – gritou Javier,abrindo fogo contra o vitral da igreja.

Eu e Will ficamos novamente atrás do altar, mas o hooligan que tinha a perna ferida não teve a agilidade para se juntar a nós. Teve a cabeça arrancada por um tiro certeiro.

Javier saltou para dentro do alçapão e puxou o corpo de Ruslana. Will me mandou entrar no buraco também, mas ao invés de me seguir, fechou o alçapão.

Foi a última vez que o vi.

O que ele fez em seguida, eu apenas imagino. Afinal, ouvi barulho de tiros durante mais de um minuto, tempo suficiente para que conseguíssemos nos afastar.

O espanhol arrastou o cadáver da russa por mais alguns metros e depois parou para se despedir dela. Eu estava assustado, mas tive a decência de me virar de costas para deixá-lo à vontade. Segundos depois, senti a mão do espanhol no meu ombro.

- Vamos embora – disse ele. – A morte de Ruslana não foi em vão, Ezekiel.

Corremos o mais rápido que o túnel – e a perna de Javier – permitiam. Era uma construção rudimentar, como uma mina de carvão iluminada por parcas lâmpadas incandescentes. Claro, eu nunca tinha entrado em uma mina de carvão, mas assisti a alguns filmes em que eles sempre andavam com um canário na gaiola. Senti falta de um canário!

Depois de correr por pelo menos uns trezentos metros, Javier parou,virou-se e abaixou um interruptor. Antes que eu perguntasse o que era aquilo, ele me puxou pelo braço e me disse para correr mais rápido ainda.

A explosão foi brutal. Senti pedras me atingindo nas costas, nas pernas e na cabeça, mas não parei de correr e nem olhei para trás, até ouvir novo comando de Javier.

- Isso vai nos dar tempo, hermano.

Caminhamos por horas em túneis que cada vez ficavam mais estreitos. A luz era escassa, mas o espanhol sabia onde ia. Eu o segui com uma mão em seu ombro e a outra segurando o fuzil.

Apesar do péssimo momento, ele ainda teve ânimo para uma piada, que demorei a entender. Mas, depois, lembrou-me dos filmes antigos que vimos juntos em sua casa, em Youghal:

- Cuidado, daqui a pouco chegaremos ao covil de David Lopan

Paramos para descansar duas vezes antes de chegarmos ao final do túnel. Na parte final do caminho, minha cabeça já raspava no teto e tínhamos que andar encurvados. Javier começou a imitar o Quasimodo.

Bem, talvez você que está lendo esse meu diário não tenha tido o prazer de ler Victor Hugo, mas o desgraçado conseguiu me fazer esquecer a tensão por alguns segundos interpretando o corcunda.

Naquele momento eu tive certeza de que Ruslana estava equivocada. Aquele cara não podia estar tramando o fim do mundo. Não só pela sua personalidade, mas pelas ações e pela sua conduta de vida, que eu admirava todos os dias.

- Espera um poco, um poquito mas, para elevar te mi felicidad - cantarolou ele ao se deparar com o final do túnel. Estávamos diante de uma escada de ferro cravada na parede, que levava à superfície.

Ri da música que ele cantou, mas ele me olhou sério e continuou:

- Espera un poco, un poquito más. Me moriría si te vas – cantou ele com uma lágrima escorrendo em um dos olhos.

Entendi que aquele lamurio piegas o fazia lembrar de Ruslana, não sei bem porque, então me calei e o segui escada acima.

A escada levava a um galpão quase vazio. Quase, porque era enorme e a única coisa que estava guardada naquele lugar era um humvee preto equipado com uma metralhadoras .50 no teto.

- Nossa passagem para Londres – disse o espanhol.

Javier foi até a entrada do galpão e abriu uma fresta de um portão de correr. Botou a cabeça para fora e depois abriu o portão completamente.

Era dia e, graças a Deus, não havia nem sinal dos orientais por ali. O plano de fuga parecia perfeito. E pela primeira vez desde a confusão no estádio, eu tive certeza que conseguiríamos escapar.

- Para o carro. Você é o artilheiro, eu o piloto.

Partimos pela pista de pouso de um pequeno aeroporto. As aeronaves pareciam novas e estavam intocadas, como se alguém cuidasse delas como peças de arte. Eu observava a tudo com a cabeça para fora, pelo teto solar.

- Uma pena que não tenhamos combustível para essas máquinas. A viagem seria muito mais rápida - gritou ele para que eu ouvisse.

- Você sabe pilotar aviões, Javier?

- Ora, e quem não sabe?

Seguimos uma estrada para o norte. Era uma estrada alternativa que nos levaria a Wexford. Dizia Javier que lá encontraríamos uma balsa para atravessar para Gales sem chamar atenção.

- Não se preocupe, hermano. Vamos completar nossa missão – disse ele no banco da frente, exibindo o frasco que Ruslana carregava consigo.

- Javier, precisamos conversar sobre essa missão. Do que se trata? – insisti, me acomodando no banco do carona.

- Vamos livrar o mundo, Ezekiel. Livrá-lo do que há de mais tóxico e letal: o ser humano. O planeta não merece tudo o que fazemos. E se isso não for feito agora, não teremos outra chance. Se falharmos, o planeta vai se tornar o inferno.

- Ruslana já me falou isso, mas eu duvidei que você fosse a favor. Imaginei que você estaria ajudando sem saber o que ela tinha em mente.

- A idéia é minha, Ezekiel. Eu a convenci.

- Mas, e aquela história de morar no campo e ter uma família? Você me disse que se arrumasse uma mulher sem pústulas viveria num lugar afastado. Você poderia ir com Ruslana para uma casa no campo.

- Daí viriam os Dragões e destruiriam minha casa, matariam Ruslana e nossos  filhos e acabariam com a minha vida. E se não fossem os Dragões, seria a torcida adversária, ou um vizinho filho da puta. 

- Eu não acredito! Você teve nas mãos a mulher mais linda que eu já vi na vida e uma chance de recomeçar a vida e não quis nem tentar?

– Garoto, Ruslana está enterrada em escombros debaixo de uma igreja em Cork. Você acha que se não tivéssemos nosso plano, alguma coisa seria diferente? 

Minha voz quase nem saiu, mas eu ainda retruquei:

- Mas, você nem tentou…

Javier estava com a cara fechada. Dava para ver que aquele assunto tinha se esgotado para ele. Mas eu não podia deixar aquele plano insano ser levado à diante. Comecei a me desesperar. Pensei em me jogar do carro em movimento, mas aquilo não ia adiantar nada. Javier estava obstinado a cumprir sua missão.

- Eu não devia ter saído da América - murmurei, baixando a cabeça por entre os joelhos.

- Por que? Acaso achas que na América as coisas são melhores? Você estudou história quando era criança, Ezekiel? Ou só lhe ensinaram religião?

Tentei responder, mas o espanhol estava cada vez mais enfurecido e não parava de falar:

- Os yankes são os Dragões do passado. O que eles fizeram antes da pandemia nem se compara aos grandes destruidores. Bilhões de litros de agentes poluentes jogados na atmosfera por chaminés de industrias que fabricavam armas. Armas com munições revestidas com urânio que fizeram os índices de câncer em crianças aumentar em 400%. Embargos econômicos que fizeram nações perecerem de fome. Intervenções em culturas dos quatro cantos do mundo. Se meu plano existe, é porque eu vi o que seus pais e avós fizeram ao mundo. 

Ele falou durante muito tempo, mas eu já nem ouvia mais. Fui para o banco de trás do veículo. Aquilo tudo era muita coisa para eu digerir. Eu estava zonzo e perturbado com aquela situação, mas ainda pude ver que uma pistola repousava presa ao assoalho do humvee.

Javier continuou a gritar, misturando castelhano com inglês e sabe-se lá qual língua mais. Para mim era tudo um zunido infernal.

Desprendi a pistola e a segurei com minha mão trêmula.

Como tudo na minha vida, até aquele momento, eu só fui perceber o que estava fazendo muito tempo depois.
Posso dizer que puxei o gatilho pensando em fazer aquela loucura parar. Na hora, não passou pela minha cabeça que eu estava selando o destino da humanidade.


Bola de neve.

Os miolos de Javier se espatifaram contra o parabrisas do carro e eu vomitei mais de uma vez. Soltei a pistola e chorei como criança. Eu admirava aquele cara e quase entendia o que ele pretendia, mas meu coração me mandou fazer o que achava certo naquele momento.

O carro saiu da estrada e foi parando aos poucos. Desci do carro, respirei fundo, vomitei de novo e caí de joelhos.

Apesar de tudo, achei que Javier merecia um funeral, então rapidamente comecei a cavar uma cova. Pensei em fazer uma cruz, mas achei que um ateu não ia querer nenhum símbolo religioso em seu túmulo. Então improvisei com a camisa dos Celtics.


Enterrei com ele o frasco de Ruslana. Todo o mal que aquilo causaria, deveria ficar ali, enterrado com seu mentor.  O mundo nunca conheceria o fim da humanidade. Pelo menos, não por causa daquele frasco.
Limpei o vidro do humvee e guiei até Wexford. Lá, encotrei a balsa que me levou ao país de Gales. O condutor da balsa me desejou sorte na minha missão. Ele nem imaginava o que eu havia feito.

Segui até Londres, mas não fiquei por lá. Fui até o continente, conheci a Cidade Luz, troquei de carro umas três ou quatro vezes. Matei várias pessoas que tentaram me roubar ou me matar. Desci para a Itália e passei dois meses em Roma, até decidir que iria para Israel.

Hoje é meu último dia em Jerusalém. Minhas tropas partem nessa madrugada e eu vou tentar desfazer um erro que cometi há quase trinta anos.

Para quem acessar esse diário, que fique claro que meu desejo nunca foi o mal, mas eu não entendi as palavras de Javier. Azrael disse um dia: Prefiro a destruição total e a inexistência do que voltar para o inferno.
E foi justamente no que se transformou o mundo: um inferno. Os Dragões invadiram toda a Europa, parte da América e tornaram a existência uma tortura insuportável para todos sob seu domínio.

Mas nós vamos lutar e, embora meus soldados não saibam das minhas reais intenções, nós vamos livrar o mundo de nossa existência.



FIM


Texto: Fernando “Tucano” Russell
Ilustrações: Brunner Franklin
Revisão: Lucio Nunes
Cores: Rodrigo Valente

Fonte: Jovem Nerd

25 outubro, 2010

1000 Olhos – Parte 8

1000 Olhos é um conto seriado de Fernando “Tucano” Russell, publicado mensalmente no Jovem Nerd. Perdeu o início? Confira aqui!

DE VOLTA À LABUTA


Sentado em uma banqueta de madeira, forrada com couro de boi, Draszen refletia em sua casa. Tinha uma nova missão e, para cumpri-la, era preciso arquitetar um plano meticuloso, que não colocasse tudo a perder.
A contragosto, porém, sua concentração foi subitamente interrompida. O barulho, ainda ao longe, era familiar para seus ouvidos acurados. Cavalos se aproximavam. O falcoeiro, então, inclinou as costas para trás e aproximou-se da janela, com uma das mãos apoiada na parede. Por uma fresta desvendada na cortina, passou a acompanhar o movimento do lado de fora.


Seus olhos azuis se arregalaram quando notou a presença do rei Andras em meio a uma grande comitiva de cavaleiros. Apesar de toda amizade cultivada durante anos, o monarca nunca havia lhe visitado. O que testemunhava era algo, até então, inconcebível.

Levantou-se apressadamente. Puxou a blusa de lã grosseira, tentando ajeitá-la ao corpo. Deixou a espada embainhada em cima da mesa, mas cobriu-a com o manto vermelho dado por Izbaza, antes de sua partida.
Tão logo a trombeta tocou anunciando a presença do soberano, a porta da casa foi aberta por Draszen. O rei estava montado em um corcel branco. Seu semblante era austero. Seus olhos estavam semi cerrados, com o olhar frio como o inverno.

- Draszen, meu bom amigo. Me permita adentrar em seu lar para lhe fazer um pedido desesperado – disse o rei, finalmente demonstrando alguma emoção.

Refeito do susto de ver o monarca, o falcoeiro analisou o cenário e notou a presença de Goran e de mais quinze soldados acompanhando o nobre. Sentiu vontade de se lançar num ataque contra o traidor, mas preferiu a cautela. Já havia se convencido, após muito relutar, que a punição ao chefe da guarda aconteceria no tempo certo.

Goran tinha um sorriso cínico. Não escondia a satisfação em ver o rival em estado lastimável. Fitou o falcoeiro dos pés à cabeça, seus trajes e sua aparência miserável. Virou-se para seus companheiros e num sinal de reprovação, soprou pelas narinas.


- Por favor, meu senhor. Minha casa é apenas uma extensão de seus domínios – respondeu Draszen, com um largo sorriso, mas que não refletia seus sentimentos.

Andras apeou de sua montaria e caminhou na direção de seu antigo falcoeiro. Draszen esperou por segundos, mas depois se aproximou, curvando-se em respeito à autoridade do nobre.

- Meu senhor – disse ele em voz baixa.

O rei desdenhou daquela reverência formal. Fez Draszen levantar e deu-lhe um abraço, deixando o com a face corada. Apesar de toda sua história no palácio, o falcoeiro não esperava uma demonstração de carinho como aquela.

- Entre por favor, senhor – repetiu Draszen, ainda com a cabeça baixa.

Os dois entraram na casa de madeira e o anfitrião se apressou em servir uma caneca de vinho ao soberano. Ainda que sem muito jeito, Andras se sentou na banqueta de couro de boi.

- Desculpe-me se não tenho um vinho melhor, meu senhor. Este foi uma cortesia de Nastia – justificou-se.

- Não se incomode, meu amigo. Já degustei vinhos que nem mesmo Nastia aceitaria em sua taberna – retrucou o nobre, prontamente.

Draszen sorriu sem jeito e sentou-se em outra banqueta, deixando o jarro de vinho em cima da mesa, junto ao manto vermelho.

Finalmente, o rei seria mais claro sobre suas intenções.

- Meu caro, Draszen. Serei breve e direto em minhas palavras, pois preciso de uma resposta ainda mais imediata. Entendo sua angústia e compartilho a dor por tudo que estás passando. Tanto que aceitei de bom grado suas atitudes intempestivas: o rompimento com a aia da rainha, sua baixa do exército e essa sua repugnante opção por andar por aí como se fosse um mendigo…

Cada palavra proferida pelo rei passou a encher seu coração de ódio. Como poderia aquele homem compreender a perda de um filho? O que ele sabia sobre a dor e a impotência diante daquelas circunstâncias?

Mas Andras continuou.

- Acredite que não viria aqui se não estivesse desesperado, meu amigo. Meus pássaros são como filhos para mim. Você sabe muito bem que, depois de minha amada rainha, eles são as coisas que mais tenho afeto.

Draszen precisou se controlar para não mandar o monarca às favas. Enojado, sua vontade era expulsar o monarca dali. Comparar pássaros a entes queridos? Um absurdo.

- Eles estão morrendo, Draszen. Meus queridos pássaros estão doentes. Ninguém cuida deles como você. Além disso, algum maldito da raça da escuridão roubou meu açor de olhos escarlates. Vim aqui para lhe propor uma oferta: dobro seu soldo e dou-lhe dois dias de folga a cada semana.

O silêncio tomou conta da sala por instantes.

E eis que Draszen, mesmo ainda sem conseguir dar um norte definitivo aos seus pensamentos, vislumbrou ali uma oportunidade para levar a frente seu plano. Pois dentro do castelo novamente e com a ajuda de Izbaza, sua demanda poderia ser completada.

Assim, quando o rei já ameaçava dar sinais de impaciência, o falcoeiro resolveu arriscar:

- Meu senhor, não precisa mais argumentar. Aceito sua oferta com o coração aliviado. Estava cansado de não fazer nada e com saudades dos pássaros. Talvez o trabalho me faça bem. A labuta pode me fazer esquecer o sofrimento. Ou ao menos amenizá-lo.

- Alviceras, meu caro amigo! Mal posso esperar para contar a Smiliana sobre sua decisão. Você não pode imaginar o quanto fez seu rei feliz. E digo mais, meu bom homem: em breve irei lhe revelar um segredo que o deixará esfuziante.

Sorriso desajeitado no rosto, Draszen abaixou a cabeça para o rei, que o abraçou novamente, como um pai que faz as pazes com o filho depois de um longo inverno de intempéries.

- Ah, sim. Só mais uma coisa. Já ia me esquecendo, aliás. A rainha me pediu para convencê-lo também a dar uma nova chance à Izbaza. 

Draszen franziu o cenho, deu um sorriso acanhado, mas respondeu amigavelmente:

- Precisamos de tempo para pensar, mas é uma situação que pode ser revista, meu Rei – disse Draszen, querendo protelar aquele tema.

O rei saiu da casa acompanhado do falcoeiro e, satisfeito, subiu em seu cavalo branco. Agradeceu mais uma vez e ordenou que todos partissem.

Goran, percebendo a mudança de humor de seu senhor, adivinhou o desenrolar daquele colóquio. Já não carregava mais em sua face aquele sorriso desafiador, mas voltou a fitar o falcoeiro de maneira fulminante. E quando os dois olhares se cruzaram novamente, açoitou seu cavalo com raiva.

Pôs-se a cavalgar com seus companheiros, então.

História: Fernando Russell @cancerjack
Ilustrações: Victor Negreiro @estivador
Revisão: Lucio Nunes @Lucio_N

18 outubro, 2010

SITALA – Parte 7

Sitala é um conto seriado apocalíptico de Fernando “Tucano” Russell, com ilustrações de Brunner Franklin.
Perdeu o início? Confira aqui!

O estádio estava lotado! Parecia o Superbowl: era grandioso, emocionante e me fazia lembrar da minha infância. Tive várias memórias dos momentos felizes que passei com meu pai na América.

As duas torcidas não entravam em confronto antes do jogo terminar. Era tudo muito organizado e as brigas tinham hora e local marcados. Um caos ordenado, eu diria. De um lado uma multidão vestida de verde, gritando o nome de seus heróis e do outro seus oponentes em roupas escarlates, irados e com testosterona jorrando pelos poros.

Ruslana estava ao meu lado e parecia íntima de estádios de futebol. Bebia cerveja, gritava e cuspia como uma verdadeira hooligan. Mesmo vociferando palavrões, ela continuava linda. A arquibancada lotada me fez ficar bem perto dela. Eu pude sentir aquele cheiro maravilhoso que seu corpo exalava, além de encostar-me àquela pele macia e sedosa que deixava qualquer um louco.

- Hoje serão duas vitórias! Vamos atropelá-los no campo e no asfalto – gritou um velho barbudo ao meu lado, fazendo-me voltar ao mundo real.

Eu fiz que sim com a cabeça, mas estava receoso. Eu achava uma idiotice brigar por causa de um jogo de futebol, mas eu estava com eles e iria até o final.

Os dois times entraram em campo debaixo de aplausos, gritos e vaias. Javier foi o mais ovacionado do lado dos Celtics. Também foi o mais xingado do outro lado do estádio. Não era para menos, o espanhol gostava de provocar a torcida dos Catholics antes, durante e depois das partidas.

O jogo começou mal para o nosso time. Os vermelhos marcaram primeiro e eu fui entendendo o porquê de tanta paixão e violência. Eu tinha entrado naquele mundo a pouquíssimo tempo e já estava começando a me contaminar com a doença dos hooligans. Ouvir a torcida adversária gritar gol já foi difícil, mas ouvir os insultos me deixou enfurecido a tal ponto que comecei a ansiar pelo confronto.

– Malditos – pensei alto. Vão ter o que merecem quando o jogo acabar. Ruslana achou graça na minha reação.

A raiva só passou um pouco depois, quando Javier começou a marcar gols. Foram três no primeiro tempo. Cada um deles foi seguido por uma explosão de alegria na torcida e os deboches que faziam despertar a cólera nos Catholics.

O segundo tempo foi difícil. O Cork City entrou achando que o jogo estava liquidado e se descuidou, deixando o adversário empatar. Eles chamavam de salto alto!

O jogo era muito dinâmico e meu coração disparava a cada lance de perigo. Javier estava impaciente com os erros dos companheiros e praguejava a todo momento.

Já estávamos nos preparando para o pior no jogo, mas o que aconteceu ultrapassava toda e qualquer previsão pessimista. Perto do final do jogo, um portão de ferro que dava acesso à rua tombou com um estrondo e um jipe amarelo invadiu o campo, deixando todo estádio atônito.



- Que merda está acontecendo? – Gritou Ruslana.

Eu olhei para o jipe e percebi que era Sean quem o dirigia.

- Cacete! Tem alguma coisa errada!

- Lógico que tem. Tem uma porra de um jipe amarelo em campo – retrucou o velho barbudo.

O jipe parou e alguns jogadores dos dois times partiram para cima do motorista. Javier percebeu que Sean estava transtornado e partiu para defender o amigo.

Ficamos todos olhando aquela cena sem entender nada do que estava acontecendo. Sean saiu do veículo e puxou uma lona que cobria a parte de trás. Eram armas.

A princípio pensei que teríamos uma guerra de torcidas, mas quando vi que tanto os Catholics, quanto os Celtics começaram a pegar as armas juntos, aquilo era ainda mais sério.

- Os Dragões – gritou Ruslana, fazendo com que um tumulto tomasse conta da arquibancada.

Ela estava certa e, em cinco minutos, o estádio foi invadido por caminhões negros e carros blindados. Javier e outros jogadores abriram fogo contra os orientais, mas o poder de fogo era pequeno para rechaçar aquele ataque.

Os irlandeses estavam em número muito maior, mas devido às restrições do uso de armas no estádio, aquilo se tornou um massacre. Foi como caçar ovelhas presas em um cercado. Os Dragões abriram fogo contra a arquibancada, acertando milhares de torcedores impotentes frente ao ataque.

Ruslana me puxou pelo braço e conseguimos sair do estádio. Fomos até o lugar onde ela tinha deixado a moto. Lá ela pegou sua AK-47 e disse para eu atirar em quem estivesse na frente. Não era muito, mas era melhor do que uma funda feita com camiseta.

- Temos que achar Javier. Eles estão atrás dele – ela disse ofegante.

- Como assim?

- Ele não te explicou nada?

- Explicou o que, Ruslana?

- Não dá para contar a história agora. Vamos tentar resgatá-lo.

Subimos na moto e demos a volta no estádio. Encontramos alguns Dragões com suas Akira Bikes guardando a passagem para o estádio. Não adiantaria enfrentá-los, então voltamos para o centro da cidade para tentar nos organizar.



A situação era tensa, mas eu tive dificuldades de me concentrar sentado na garupa de Ruslana. Fiquei olhando para aquele pescoço, onde nasciam uns poucos fios de cabelo loiros e tive vontade de mordê-la com toda a minha força. Ela teve que berrar para eu voltar à realidade e acertar um oriental que estava apontando um rifle para nós.

O sol já estava baixando quando chegamos ao Rio Lee. A cidade estava ainda mais vazia que o de costume e quando atravessamos a ponte próxima à Casa de Ópera de Cork, Ruslana parou a moto, olhou à nossa volta e disse:

- Ezekiel, eu combinei com o espanhol que se não nos encontrássemos depois do jogo, o ponto de referência seria a Igreja Shandon. Se Javier conseguir sair vivo do estádio, e eu acho que ele consegue, vai nos encontrar. Se ele não conseguir, você me ajuda a chegar a Londres.

- Tudo bem, mas eu preciso saber o que está acontecendo.

Seguimos para o ponto de encontro e escondemos a moto dentro da igreja. Subimos a torre dos sinos, onde ela, ofegante, começou a me contar sua história:

- Eu tenho um frasco com um componente muito importante que precisa ser entregue para um grupo de cientistas em Londres o mais rápido possível. A viagem para Londres é muito perigosa e Javier vai me escoltar. Isso se ele sobreviver ao ataque. Esses coreanos que vocês chamam de Dragões estão atrás desse frasco para destruí-lo.

- E essa substância? É alguma vacina? Você disse para Javier que tinha a cura. Eu ouvi você falando isso quando chegou.

- Não Ezekiel, não é uma vacina. É uma bactéria altamente letal.

- Ahhh, e os cientistas precisam dela para desenvolverem uma vacina, certo? Só não entendo porque esses orientais querem impedir.

- Garoto, presta atenção. Nós vamos livrar o mundo do ser humano de uma vez por todas. A bactéria vai ser modificada para sobreviver na água. Nós vamos salvar o mundo. Nós vamos fazer o que a varíola não fez.

Minha cabeça explodiu. Eu ouvia as palavras, mas não queria acreditar que Javier e Ruslana eram os vilões daquela história.

- Espera. Acho que você está nervosa com a situação e pulou alguma parte, Ruslana.

- Droga, Ezekiel, pára e pensa. Você acha que está certo isso? O mundo estava um caos e daí um vírus acaba com noventa por cento da população mundial. Ainda assim a guerra não acabou, a violência continua a mesma, toda a podridão de antes permanece. Nós temos que acabar com isso de uma vez por todas.

- Eu olhei para os olhos de Ruslana e vi que ela estava falando sério. Apontei a AK-47 para ela e mandei ela parar.

- Você é louca? Olha o que você está falando!

Ruslana ficou paralisada. Para ela, tudo aquilo fazia muito sentido. Era evidente que a russa não tinha noção de quão insano era aquele plano.

- Não se mexe, porque eu vou atirar se você tentar alguma coisa. Eu vou esperar Javier e vamos desfazer esse mal entendido. Ele também não deve saber direito o que você pretende.

Ruslana levantou as mãos e pediu calma. Disse que não reagiria e que era uma boa idéia esperarmos pelo espanhol. Fiquei olhando para aquela mulher. Era a coisa mais linda que eu já havia visto e por isso mesmo era tão difícil acreditar na loucura que ela acabara de me contar.

- Americano, posso te perguntar uma coisa?

Eu fiz que sim com a cabeça, mas não soltei a arma ou deixei de apontá-la para ela.

- Você me acha bonita?

- É claro. Você é muito bonita. E igualmente louca. O barbeiro estava certo.

- Tudo bem, eu vi como você me olhava no estádio, como ficava próximo, esbarrando “sem querer” e senti sua respiração próxima à minha nuca, na motocicleta.

Droga! Bochechas rubras de vergonha! Eu fiquei extremamente constrangido com aquelas palavras. Eu me senti um animal sem controle. Um imoral. E o pior de tudo, ela sabia disso.

- Você conseguiu se controlar, mas em seus desejos mais íntimos, você queria rasgar minha roupa e me atacar. Não é isso?

- Não é bem assim…

- É assim, sim. Seja sincero, você me imaginou nua, Ezekiel?

Eu não disse uma palavra, mas meus olhos fugiram dos dela e ela teve a resposta imediatamente.

- Era assim que você me imaginava?

Eu levantei os olhos e vi que ela levantara a blusa do Cork City Football. Fechei os olhos imediatamente, tentei me concentrar, mas não consegui. Reabri os olhos e a admirei.

- Responda-me: era assim, Ezekiel?

Uma gota de suor escorreu em minha têmpora, mas graças a Deus, ela baixou a blusa e eu pude me restabelecer.

- Vê, Ezekiel? Foi difícil, mas você não me atacou. Você está com um rifle na mão e mesmo assim se controlou. Podia ter me agarrado à força, mas não o fez.

- O que você quer de mim?

- Quero que pense em todas as pessoas que você já conheceu. Tente contar quantas pessoas teriam conseguido se controlar. Qual dos seus amigos irlandeses não teria tentado me agarrar na garupa da moto? Quantos tomariam a decisão certa?

Pensei em algumas centenas de pessoas. Lembrei de meu pai, do vizinho que invadiu a minha casa, dos cowboys no navio, dos irlandeses de Youghal, os hooligans do Cork City e até em Javier. Ninguém!

- O mundo está perdido. A varíola varreu quase todos, mas os que sobraram não aproveitaram a chance. Podiam recomeçar de uma maneira diferente, mas preferiram continuar com a podridão.

- E a solução é matar a todos? Por que não deixar nas mão de Deus? Por que não tentar mudar o mundo? Isso é assassinato. Você está propondo um holocausto! Existem mais pessoas como eu. Pessoas que se controlam e respeitam os outros.

- Ezekiel, vamos esperar por Javier. Eu prometo que não vou mais te perturbar e nem tentarei te desarmar. Vamos apenas esperar, o espanhol.


Texto: Fernando “Tucano” Russell
Ilustrações: Brunner Franklin
Revisão: Lucio Nunes 
Fonte: Jovem Nerd

13 outubro, 2010

1000 Olhos – Parte 7

1000 Olhos é um conto seriado de Fernando “Tucano” Russell, publicado mensalmente no Jovem Nerd. Perdeu o início? Confira aqui!

À ESPREITA EM UMA NOITE FRIA


Como de costume, a taberna de Nastia estava cheia de homens procurando diversão. E de mulheres tão lascivas que pareciam demônios, hábeis em usar todo tipo de sortilégio para arrancar até a última moeda do soldo daqueles guerreiros.

Em duas das sete mesas de pinho, soldados e suas companhias fumavam narguiles vindos de algum califado ao sul. Um olor inebriante pairava no salão.

Além deles, alguns comerciantes também participavam daquele festejo mundano. Pagavam litros de vinho, despejados nas mesas com a intenção de ganhar a confiança e o apoio dos militares em questões pessoais.


Debruçado num balcão de carvalho, Draszen parecia não se importar com a algazarra. Mente imersa em litros de cerveja, o falcoeiro não se aborrecia com nada ao redor.

Era assim que suas noites terminavam desde que voltou do mal sucedido resgate de Deyan. Deixou o exército, mesmo sob protestos do rei, e também rompeu o noivado com Izbaza. Nastia sentia uma ponta de felicidade com esta situação, mas ver seu amado corroído pela amargura também deixava seu coração partido.

No dia em que retornou, o falcoeiro foi atração na cidade. Era o único sobrevivente da tropa de soldados que partira meses atrás. Todos queriam saber o que se passara na viagem e como havia escapado do ataque dos cavaleiros da escuridão.

Draszen pouco contou para os curiosos, alimentando assim muitas versões, que se espalharam pelo reino. Uns diziam que ele fugira como uma criança amedrontada, deixando para trás aqueles que o auxiliavam na busca pelo filho. Outros iam mais além e diziam que Draszen se fingira de morto e assim, teria sobrevivido.

Contudo, nada daquilo importava para aquele pobre homem. Sua barba e cabelo estavam crescidos. O uniforme da guarda real, nunca mais usou. Mas sim roupas feitas de um tecido churdo, que o faziam parecer um mendigo.

A fatídica noite não era de lua, mas há tempos os assassinatos não eram frequentes. Talvez os cavaleiros estivessem ocupados com outro malefício qualquer. No entanto, a versão mais aceita pelo povo é a de que Draszen tinha feito um pacto com eles para que não mais atacassem.

Nastia viu a caneca do guerreiro se esvaziar e, antes que ele pedisse, pegou um jarro de barro cheio de cerveja para servi-lo. Antes que ela conseguisse despejar a bebida, porém, foi interrompida pela mão forte e truculenta do falcoeiro.

- Esta noite não, Nastia, disse em voz baixa. É noite de lua nova.

- Você vai insistir nessa ronda, Draszen? – lamentou a ruiva. Eles não vão voltar. Há tempos não atacam.

O falcoeiro calou-se e continuou no balcão por mais algum tempo. Sua aparência continuava horrível e seus olhos vitrificados não demonstravam qualquer emoção, até que uma nova horda de soldados adentrasse ao salão da taverna.

Eram doze homens que tinham acabado de serem rendidos por um novo turno e chegavam ávidos por prazeres carnais. Drazen sabia que aquela era a hora de agir. Levantou-se, deu um beijo em Nastia e caminhou de cabeça baixa até a porta de saída, tentando não chamar atenção.

As ruas estavam desertas. A luz de tochas iluminava parcamente o caminho. Draszen vestiu um capuz como o de um monge e se enveredou por um caminho sinuoso, que o levaria a uma parte ainda mais sorrateira da cidade.

O frio era grande, mas já não havia neve. A fumaça saia de sua boca numa respiração ofegante. Presa a um cinto de corda improvisado, uma pequena adaga curva era segurada pelo pomo.

O falcoeiro seguiu sem olhar para trás. Não havia mais em sua mente tempo para devaneios ou culpa. Só um pensamento restava: a missão a ser cumprida.

Passou então pelas casas de pedra com teto de sapê, comuns no centro da cidade. Aos poucos, porém, notou a arquitetura se transformando. Nessa área, as casas eram de madeira, construídas à moda antiga, com toras unidas lado a lado, em sentido vertical.

As ruas eram mais estreitas e as poucas chamas de tochas tremeluziam ao sabor do vento noturno. Draszen encontrou um bom esconderijo num beco sem iluminação. Ali, como já fizera duas vezes antes desde que voltara, ficou esperando. Era sua vigília de lua nova.

A frustração das outras tentativas não era motivo para ansiedade. Draszen havia mudado, parecia outra pessoa. Ironicamente e contrariando sua personalidade instintiva, aprendera a cultivar a paciência como aliada. Talvez porque ela fosse sua única aliada em meio a tantas adversidades.

Foi então que, com um sorriso soturno, o falcoeiro percebeu os gritos vindos de algum lugar próximo. Esgueirou-se pelas sombras e arriscou colocar a cabeça para fora do esconderijo para uma olhadela. Viu o que bastava.

Pessoas nas ruas, com armas em punho, tentavam saber o que estava acontecendo. Cascos dos cavalos da guarda faziam barulho. Logo ele imaginou o incompetente Goran chegando mais uma vez atrasado ao local do crime.

Com a respiração já presa, Draszen pode ouvir passos leves de alguém se aproximando. A presa estava a caminho da armadilha. Era preciso ser rápido e silencioso, para não atrair curiosos e, muito menos, Goran. A última coisa que precisava naquele momento era resolver sua rusga com o chefe da guarda.

Quando os passos se tornaram mais rápidos, o falcoeiro sacou sua lâmina e preparou o bote. O coração num batimento frenético, a adrenalina numa dose lancinante. Do jeito que ele gostava. Prendeu novamente a adaga no cinto de corda e se preparou.


Ao reconhecer um vulto furtivo e franzino num manto púrpura, Draszen lançou-se numa explosão muscular calculada e certeira. Seus braços fortes seguraram o pescoço daquele homem de barba escura, que logo se entregou ao desespero. O sacerdote arregalou os olhos ao sentir o enforcamento.

A voz tentava sair, mas a esganadura era potente e pouco a pouco, o homem foi perdendo as forças e a vontade de viver, até cair inconsciente aos pés do agressor.

Em um só movimento, Draszen o colocou no ombro e começou a caminhar em direção às portas da cidade. O fardo era pequeno, já que o sacerdote era magro e de estatura bem dimnuta. Mesmo assim, Draszen não correu. Fez tudo como planejado, evitando as partes mais iluminadas da cidade e escolhendo sempre as vias mais estreitas.

Depois de algumas voltas, o guerreiro desviou sua rota e caminhou algum tempo em direção ao muro lateral do palácio. Não chegou a se aproximar, com medo de ser percebido por algum sentinela. E assim, a uma distância razoável, atirou sua vítima ao chão, tal qual um saco de cereais.

O homem estava imóvel e sua pele branca parecia feita de mármore como os salões do templo de Nrude. O falcoeiro passou a lâmina lenta e calmamente pela face do sacerdote até chegar aos olhos fechados. Levantou o punho da arma, de modo que a ponta ficasse encostada na pálpebra do sujeito desacordado. Mas, de súbito, guardou novamente a adaga e se levantou.

Com os dois dedos mínimos na boca, o falcoeiro soltou um assobio curto e alto, como se avisasse alguém de sua presença. Olhou novamente para sua vítima e sorriu maliciosamente.

Aguardou alguns minutos, que pareceram horas. Finalmente, viu Izbaza chegando. Aquela que havia sido sua noiva se aproximava, puxando dois corcéis pelas rédeas, o mais silenciosamente possível.

- Você trouxe o açor?

A menina fez que sim com a cabeça e entregou a ave, que vestia um caparão de couro na cabeça. O falcoeiro a colocou em pé, na sela de seu cavalo.

Izbaza também trazia uma saco de tecido rústico, bem grande e grosseiro, onde foi colocado o sacerdote, ainda inconsciente. Draszen se certificou de que ele ainda seguia inconsciente e o atirou sobre o lombo de um dos cavalos. E assim, os dois partiram galopando por uma pequena estrada deserta, que provavelmente estava desguarnecida com a confusão na cidade.

- É por aqui que eles entram e saem da cidade?

- Sim - respondeu Izbaza, sem olhar para o falcoeiro.

- Ora, vejam só. Impressionante nunca ninguém ter notado este acesso.  E como sempre está desguarnecido.

- Eu ajudava – respondeu a jovem, já se sentindo desconfortável.

- Não precisa se envergonhar, Izabaza – desculpou-se Draszen, percebendo sua própria inquisição.

Uma hora de galope depois, os dois chegaram a uma pequena propriedade. Uma fazenda distante da cidade, cuja sede era feita de troncos de madeira.

Ao se aproximarem da casa, um homem veio ao encontro dos viajantes. Era velho e não tinha um olho. Draszen o examinou de cima a baixo. Não era a primeira vez que o encontrara, mas o jeito do ancião ainda o intrigava.

- Ele está aqui, velho? – perguntou o falcoeiro, sem esboçar um cumprimento sequer.

- Ali no celeiro, à sua espera, como combinado, respondeu o anfitrião.

Izbaza apeou de sua montaria e deu um abraço forte no velho, que retribuiu o carinho. Então, os dois se voltaram para Draszen e, puxando o corcel pela rédea, seguiram para o celeiro.

Draszen não desmontou de seu cavalo. Queria parecer altivo e poderoso e o corcel lhe dava esta pecha. Izbaza ajudou o ancião a abrir as portas do celeiro, iluminado por algumas tochas.

Os olhos de Draszen miraram os do homem que os esperava. Era o cavaleiro da escuridão que o visitara no passado, em sua casa. Estava de pé, apoiado em uma espada grande e pesada, fincada no solo. Dessa vez não usava o elmo e suas feições estavam à mostra. Um homem alto, loiro com uma barba enorme e embaraçada. Uma figura tenebrosa, mas que não causava temor algum a Draszen.


- Tome o que pediu – bradou o falcoeiro, sem delongas, deixando o corpo do sacerdote estatelar-se no chão do celeiro.

O truculento cavaleiro nada disse, mas sorriu com sarcasmo. Então, Izbaza se aproximou dele. E beijou seus lábios. Em retribuição, um afago na cabeça e um abraço apertado.
Draszen deu meia volta com o corcel e partiu de volta para a cidade.

História: Fernando Russell @cancerjack
Ilustrações: Victor Negreiro @estivador
Revisão: Lucio Nunes @Lucio_N

11 outubro, 2010

SITALA – Parte 6

Sitala é um conto seriado apocalíptico de Fernando “Tucano” Russell, com ilustrações de Brunner Franklin.
Perdeu o início? Confira aqui!

Javier era um cinéfilo. Tinha centenas de filmes em casa. Alguns ele revia várias e várias vezes. A energia elétrica de sua casa era basicamente para a TV e para o aparelho de card disk.

Nós fomos atrás da garota russa e, como um bom amante do cinema, ele provavelmente já sabia que toda vez que uma mulher linda entra na história, é porque alguma merda vai acontecer. Dessa vez não foi diferente.


O endereço que conseguimos era o de um prédio baixo, próximo ao mercado inglês, do outro lado do Rio Lee. Ao lado da entrada do prédio havia uma barbearia, com a luz de um lampião acesa e um homem de avental branco ouvindo música do século XX.

Eu e Javier entramos na tal barbearia e o cara imediatamente abaixou o som. Ele tinha um largo sorriso e a pele escura. Acho que era indiano, ou paquistanês, mas não vi nenhum vasinho de charas por ali.
- Querem fazer a barba? – perguntou, segurando uma navalha na mão.

Nos entreolhamos e, simultaneamente, respondemos com uma negativa agradecida. Parecia que tínhamos ensaiado, mas foi uma reação natural que qualquer pessoa sensata teria. Não estávamos nem um pouco dispostos a dar nossos pescoços à mão de um estranho com uma navalha.

- A menina russa – disse Javier, encurtando a conversa.

- Ahhh, a garota russa. Vocês são amigos dela? Ou também querem matá-la? Ela é maluca – comentou o barbeiro, em um inglês pior do que o de Javier. Linda, mas maluca!

- Não. Não somos amigos dela. Mas precisamos entrar em contato com ela. São apenas negócios.

Olhei para Javier, imaginando se ele estava dizendo aquilo para disfarçar, ou se era a verdade. O barbeiro percebeu meu olhar e aumentou o som. Era uma música estridente, cuja letra falava do medo de escuro. Até que era uma boa música.

- Eu sou o proprietário do prédio. Ela me pagou adiantado uma semana de aluguel e ficou por três dias. Daí, chegaram aqueles caras barra pesada e teve tiroteio. Ela é uma verdadeira filha da puta dos infernos! Tem uma cara de anjo, mas matou quatro caras com uma Kalashnikov. Foi embora.



Mais uma vez, os olhos de Javier brilharam.

- Os coreanos estavam atrás dela?

- Sim. Os Dragões tentaram matá-la. Mas ela deu um jeito neles e sumiu.

De novo eu fiquei pensando se “coreanos” era apenas mais uma maneira de chamar os orientais, ou se Javier sabia algo mais sobre aqueles malditos.

- Podemos entrar no prédio, senhor? Pediu Javier.

O barbeiro fez que sim com a cabeça e nos indicou o quarto em que a russa tinha ficado.
Subimos uma escada de madeira cheia de degraus soltos e fomos direto para o quarto 1408. O chão ainda estava cheio de sangue e as paredes, cravadas de tiros de armas de diversos calibres.
Javier abriu as gavetas de uma cômoda, tentando achar alguma pista que nos levasse à garota, mas não encontrou nenhum vestígio.

Fui até a janela e olhei para o céu, que já escurecia. Viajei um pouco nos meus pensamentos e voltei com um susto ao ouvir um tiro.
Olhei para trás e vi Javier com sua pistola na mão. E o barbeiro, caído no chão ensangüentado.

- O que houve? 

- O barbeiro ia nos matar, garoto – disse o espanhol, apontando para uma escopeta próxima ao corpo do barbeiro.

- Eu nem ouvi ele chegar – disse assustado.

- É, eu também não. Mas o vi no espelho. Dessa vez demos sorte. 

Toro foi para perto da janela onde eu estava e olhou para o céu.

- Já é tarde.

Pegamos o caminho de volta para o cais de St Patrick, mas ao invés de seguirmos para o Druida Verde, entramos na Mac Courtain. Lá ficava o Gresham Metropole Hotel, que um dia fora 3 estrelas. Era um prédio de arquitetura antiga, já bastante depredado. Muita gente se mudou para hotéis depois da varíola. Na América, eu via gente dando graças aos céus pela pandemia e abandonando seus trailers para morar em hotéis de luxo.

Na Irlanda não foi diferente, mas aquele hotel em especial tinha sido dominado pelos hooligans do Cork City Foottball Club. Era o local de concentração antes dos jogos. Se é que se pode chamar aquilo de concentração.

Os caras do Catholics tiveram mais sorte com as instalações. Como eles mandavam na parte oeste da cidade, optaram por invadir um hotel bem melhor, o Kingsley Hotel, que ficava às margens do Lee. Mas para os Celtics, o Gresham era muito melhor localizado, pois estava perto das prostitutas da Rua Devonshire.
De fato, as garotas da Devonshire eram um show à parte e a concentração não era bem o que eu esperava. Na verdade, aquilo foi inacreditável. Depois do jantar, os Celtics se reuniram para falar do jogo e escrotizar os adversários. Lógico, regados a cerveja e whisky. Graças ao senhor, porém, o jogo estava marcado para domingo a tarde. Se fosse pela manhã, com certeza seria um W.O. duplo.

Eu e Javier fomos até a Devon, trazer algumas meninas para divertir o pessoal. O espanhol foi muito bem atendido por uma prostituta holandesa que tinha olhos cinzentos e cabelos loiros. Era linda e tinha poucas marcas na pele, mas depois, descobri que, apesar de linda, ela fedia muito. Désiré era o nome dela.
As horas seguintes foram como uma orgia romana. E eu fiz tudo o que não tinha feito durante toda a minha curta existência.

De manhã, minha cabeça parecia que ia explodir e eu não tinha forças sequer para me levantar da cama. Mesmo antes de abrir os olhos, busquei uma garrafa de água no criado mudo. A garrafa foi pouca para saciar minha sede. Resolvi me levantar

O pequeno banheiro fedia à azedo por causa de um vômito que ninguém se incomodou em limpar. Talvez fosse meu, mas sei lá. Lavei meu rosto e bebi água da torneira. Eu estava em frangalhos e não via perspectivas de melhorar. Pedi a Deus que me socorresse, mas fiquei com a consciência pesada e desisti da intervenção divina.

Com os olhos já sem remelas, voltei lentamente para o quarto e vi uma cena bizarra demais para ser verdade. Na minha cama dormia uma garota anã, vestida em couro preto, segurando a ponta do dedo daquele maldito irlandês que me chamava de McColish. Ele, por sua vez estava nu aos pés da cama. Minha cabeça explodia! Que inferno teria acontecido naquele hotel?

Alguns flashes da noite anterior me vieram à mente e aquilo foi vital para decisão que eu tomei. Tive a consciência de que, se ficasse ali com aqueles irlandeses degenerados, minha vida e tudo o que eu acreditava seriam enterrados numa cova rasa.

Decidi que iria deixar a Irlanda e decidi parar de beber também. Eu sempre fui um cara solitário na América e conheci a amizade e o companheirismo na Europa, mas aquilo estava indo longe demais e eu não tinha estômago para agüentar tudo aquilo.

Desci para o saguão do hotel e no caminho fui ficando mais deprimido. Eu via Celtics jogados no chão, vomitados pelos corredores e até um que impedia a porta do elevador de fechar. Muitos ainda nem tinham dormido e continuavam a beber, mas a maioria estava apagada.
Javier estava na frente do hotel resolvendo os detalhes do traslado para o estádio. Quando me viu, levantou as sobrancelhas e sorriu.

- Ezekiel, você está um trapo, mi hermano. Que pasa? Um trem holandês passou por cima de você. Ou será que foi um trenzinho bem pequenino?

Eu também sorri, só que completamente sem vontade. Perguntei se precisava de ajuda. Aquele era um evento que mobilizava quase toda a cidade e que, apesar das regras de proibição de armas, sempre resultava em encrenca. Javier cuidava para que a confusão não fosse além de uma simples pancadaria.

Durante as partidas de futebol, reuniam-se cerca de 7 mil pessoas e, por incrível que parecesse, nunca havia sido registrado nenhum disparado. É lógico que, na ausência de armas de fogo, a criatividade irlandesa se sobressaía. Javier me contou que os maiores perigos eram as fundas improvisadas com camisetas. Falou também que já havia ficado desacordado mais de uma vez por causa de pedras atiradas em sua cabeça. Talvez por isso, não batesse muito bem da cuca.

A saída da caravana seria às 15h e alguns ônibus já estavam a postos para levar o pessoal ao estádio. Pouco a pouco foram chegando carros de torcedores que acompanhariam a comitiva. Era um festival de bandeiras e camisetas verde e brancas.

Antes de partirmos, porém, Javier viu uma moto em alta velocidade vindo pela calçada em nossa direção. O espanhol puxou uma pistola da cintura e apontou.

Montada na moto estava uma garota de capacete e uma roupa de couro branca, daquelas que antigamente eram usadas por pilotos de motovelocidade.
Javier fitou-a com os olhos e baixou a arma: era a garota russa.

- Ruslana – murmurou ele, vendo-a retirar o capacete.

- Chegou a hora, Javi. Eu tenho a cura final.

Eu fiquei tão chocado com a beleza daquela mulher, que nem tentei entender sobre o que eles estavam falando. Devia ter prestado mais atenção, mas não consegui.
Embora Javier não tivesse dito nada, estava claro que ele já a conhecia. Isso não o impediu de também ficar petrificado com o encanto da russa.

Por alguns segundos eu não ouvi o que ela dizia. Só via o suave movimento de seus cabelos castanhos caindo à frente dos olhos azuis mais brilhantes que eu já tinha encontrado. Seus lábios carnudos abriam e fechavam delicadamente, me deixando hipnotizado. Para completar, assim como Javier, ela não tinha pústulas.
O espanhol a abraçou e então eu voltei à realidade.

- Essa é Ruslana, Ezekiel. Uma amiga de muito tempo. 

Eu não sabia o que dizer e apenas estiquei a mão, que ela apertou vigorosamente.

Ruslana desceu da moto, tirou a parte de cima do macacão, deixando a mostra uma camiseta do Cork City. Ela conversou com Javier em particular por alguns minutos e quando voltou, ele tinha um expressão de alívio no rosto. Imaginei que ela trazia boas notícias. Talvez uma forma de vencer os orientais, ou algo que deixasse as nossas vidas mais alegres.



- Ezekiel, você ainda quer ir para Londres? Perguntou Javier, se aproximando novamente de mim.

- Como assim? Você vai para lá? 

- Essa noite partiremos. Eu e Ruslana vamos resolver um problema que está pendente há alguns anos. Um plano que não deu certo completamente e que agora pode ser concluído.

- Mas e os seus cães? E os orientais?

- Bem, quanto aos perros, eles ficarão bem com Sean. E, sobre os orientais, por enquanto só posso dizer que esse plano tem tudo a ver com esses malditos. 

- Ok, Javier, eu ia mesmo falar isso para você. Hoje de manhã, quando acordei, percebi que essa vida não é para mim. Eu preciso ir para algum lugar mais calmo. Longe dessa agitação de futebol e cerveja.

- Olha cara, Londres não é exatamente um lugar calmo. Lá também tem futebol e hooligans. A cerveja não é tão boa, mas nunca falta. 

- Na verdade, eu estava pensando em ir para Israel, Javier. Quero conhecer a terra onde Cristo nasceu.

- Você quer uma dica, hermano? Fique longe do deserto. Se você acha que aqui está movimentado, não imagina o que acontece por lá. Vá para a Noruega, as coisas são mais calmas por lá. Chegam a ser monótonas.

- Não, Toro. Eu sinto que meu destino é ir para Jerusalém. Algo dentro de mim diz que lá eu encontrarei a minha paz. 

- Tudo bem, em breve todos os lugares desse planeta vão estar bem mais calmos. Pode confiar em mim.

Ruslana ficou me observando por alguns instantes como se me estudasse, mas preferiu não dizer nenhuma palavra.

Como era previsto, saímos atrasados, mas, ainda assim, a tempo de chegar ao estádio antes das 16h. Fiquei maravilhado com o estádio lotado. Aquilo seria minha despedida da Irlanda.


Texto: Fernando “Tucano” Russell
Ilustrações: Brunner Franklin
Revisão: Lucio NunesFonte: Jovem Nerd