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17 fevereiro, 2011

A Fenda

Escrito  por  K z a r 
     A cabeça de Rujanm parecia girar enquanto tentava se levantar. Retirou o elmo, amassado profundamente onde fora atingido por um golpe de bastão. Um simples bastão. Jogou a inútil peça da armadura no chão de pedras.

      Havia se preparado praticamente a vida toda para aquela busca. Desde que ouvira falar da Lenda da Armadura Negra, cada um de seus dias na Ordem Templária de Samiel tinha um único objetivo: vestir a indestrutível indumentária do Cavaleiro D’Ardon.

      A lenda era muito clara. Contava de um Cavaleiro Templário que, lutando e vencendo o dragão negro Tabuloon, conquistou o direito de vestir uma armadura forjada pelo Ferreiro Nai No Kami, o grande Mestre da Forja. Além disso, o Cavaleiro passou a ter o domínio sobre o dragão vencido.

      Grandes foram os feitos de D’Ardon sob o uso da Armadura Negra e, antes de sua morte, a escondeu na floresta ao sopé do Templo do Sol. Segundo a lenda, Tabuloon passou a ser o guardião da armadura. Aquele que o derrotasse em batalha, conquistaria o direito de vestir a indumentária.

      Mas algo estava errado nesta lenda. Em todos os pergaminhos que estudou sobre seu objeto de desejo, não havia qualquer menção à estranha figura à sua frente. Um velho homem de branco impedia a passagem em uma fenda rochosa, onde Rujanm tinha plena certeza de que estava escondida a Armadura Negra.

      Bastava atravessar a Fenda, lutar e vencer Tabuloon. Feito isto, o conjunto de guerra do Cavaleiro D’Ardon seria seu.

      Ofegante, Rujanm levantou os olhos e observou o homem de branco. Uma aura sobrenatural parecia circundá-lo por inteiro, como se tivesse uma estrela d’alva escondida por baixo das longas barbas claras. O cabelo, igualmente longo, caia em uma trança única nas costas do guardião da Fenda.

      Enquanto Rujanm trajava uma armadura Templária completa, incluindo a capa branca com a cruz vermelha de quatro pontas iguais, o velho vestia unicamente uma alva túnica.

      Vá embora – disse o homem de branco. – Não há nada para você além da Fenda.

      Não vim de tão longe para voltar sem luta – respondeu o Templário.

      Se você não percebeu, nós já lutamos – sorriu com sarcasmo. – E você perdeu.

      Era difícil reconhecer a derrota, mas o fato é que, a princípio, Rujanm tentou argumentar com o velho que lhe impedia a passagem. Porém, depois de alguns insultos da insignificante criatura de branco, decidiu dar-lhe o merecido corretivo. Não utilizou arma, pois acreditou que daria cabo do inconveniente com as mãos limpas. Enganou-se. Foi recepcionado por saraivadas de golpes com o bastão que sustentava o velho. Numa agilidade incompatível com sua idade, o homem de branco surrou o Cavaleiro que tentava forçar a passagem.

      O último golpe atingiu a cabeça de Rujanm, jogando-o para fora da estreita Fenda.

      Fui complacente com você, velho – disse puxando a espada. – Não tenho tempo para brincadeiras. Saia do meu caminho ou vou trespassá-lo agora.

      Tenho certeza de que sua língua é mais hábil que sua esgrima – sorriu o velho. – Se você preferir, lutarei sem o bastão e poderei dar umas palmadas nesse seu traseiro de criança insolente.

      O insulto impulsionou Rujanm para dentro da Fenda. Antes que ele desferisse o golpe frontal, recebeu a ponta do bastão no queixo. Sua cabeça inclinou-se para trás e foi golpeada mais duas vezes.

      O Templário tentou contra-atacar, mas a estreita parede rochosa não permitia o giro completo da espada. A lâmina faiscava nas pedras enquanto o guardião da Fenda surrava-lhe novamente.

      Fixando o bastão nas paredes, o homem de branco apoiou-se nele e encheu o peito de Rujanm com um chute que o expulsou novamente da passagem.

      Enquanto ofegava, o Templário tentou retomar  a postura. Cambaleou, mas permaneceu em pé, contemplando o sorridente homem que não havia cedido um único centímetro para dentro do caminho.

      O orgulho do Templário estava mais ferido que sua carne, latejante em dor em várias partes do corpo.

      Eu não quero te machucar de verdade – disse Rujanm. Sua condição não dava qualquer credibilidade às palavras.

      A questão é: você consegue me machucar?

      Um Templário treinado nas Artes de Samiel poderia machucar qualquer criatura viva. Vários ritos de defesa e ataque eram ensinados e Rujanm era um mestre na Arte do Fogo.

       Sim, eu consigo – disse o Cavaleiro enquanto chamas subiam pelo fio de sua espada. – Deixe-me passar, agora – o fogo inflamou até punho e tomou conta do braço que segurava  o ferrão metálico.

      Prepare-se para ser machucado, Cavaleiro Templário. – desafiou o guardião.

      Rujanm cruzou a espada por três vezes no ar e projéteis na forma de lâminas incandescentes foram lançadas contra o oponente.

      O trio de lâminas de fogo explodiu na palma da mão direita do homem de branco. O Cavaleiro Templário o fitou enquanto as alvas madeixas acentavam após o impacto dos projéteis.

      Como que impulsionado por uma forte rajada de vento, o Guardião voou na direção de Rujanm. Raios crepitavam ao redor de seu corpo e faiscavam em toda a extensão do bastão que empunhava fortemente, dando-lhe a aparência de um deus do trovão.

      Em campo aberto, Rujanm conjurou uma barreira vermelha, mas ela foi quebrada com o primeiro golpe do velho. A cada golpe que o atingia, seu corpo sofria espasmos de violenta dor, como se uma onda de choque intenso contraísse seus músculos.

      Finalmente, o Templário se viu deitado com o bastão apoiado no queixo. O homem de branco lhe pisava na altura do peito.

      Vá embora e diga que não encontrou o que procurava. Ou diga que um velho o derrotou. Não conte qualquer detalhe da batalha.

      Rujanm não disse palavra e sentiu o bastão ser enfiado mais forte na garganta. A voz do homem tornou-se ameaçadora:

      Faça um juramento Templário, ou morra agora.

      Com meu sangue – raspou a mão esquerda na lâmina da espada que estava deitada ao seu lado – e pelo sangue de Samiel, eu juro. Farei o que você ordena.

      Selado o juramento pelo rito, Rujanm levantou com dificuldade.

      Quem é você? – perguntou.

      Sou o homem que te venceu em batalha. – Sorriu-lhe o velho.

      Sabendo que não teria melhor resposta que aquela, o Cavaleiro Templário desceu pela floresta e voltou para seu Templo, na distante cidade de Nova Tahyma.

      Depois de contemplar a partida do guerreiro, o homem de branco atravessou a fenda. Uma baforada quente soprou-lhe os cabelos e ele acariciou o focinho de um grande dragão negro.

      Não será hoje, meu amigo Tabuloon, que você encontrará seu novo Mestre. Apenas aquele que derrotar o único que te venceu em batalha conseguirá suportar o que virá depois da Fenda.

      Esta era a estranha maneira de D’Ardon, o Lendário Templário, proteger a vida dos incautos Cavaleiros da Ordem de Samiel que desejavam sua Armadura Negra, a qual jazia mais adiante, descansada num altar de pedra, fitando inconsciente com sua carranca de dragão a alva luz que provinha daquele homem de branco.

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Retidado de Contos Fantásticos

10 fevereiro, 2011

"Algozes" - Leandro Reis

 
      
      Quando subo esta colina, onde descansa o túmulo que deveria ser meu, sempre tenho a mente invadida pelas lembranças do passado. 
       Uma época onde Crown orgulhava-se das riquezas e poder que ostentava. Atributos estes, conquistados com muito sacrifício pela minha linhagem. Sempre que visito este jazigo, meus pensamentos agitam-se e não consigo deixar de pensar em como aquele dia sangrento mudou minha vida.
       A manhã de outono em que conheci meu algoz ficaria selada também como o dia em que descobri do que era capaz.
       O vento podava as árvores naquele início de outono, estendendo um belo tapete de folhas marrons sobre a praça central. O olhar das crianças transmitia alegria enquanto corriam em volta do monumento em memória ao fundador destas terras. Nossas belas mulheres ainda sorriam e o povo se animava em vista do crescente comércio com as terras de Oberil.
       Lembro-me de estar apanhando ameixas para as crianças quando a primeira bola de fogo cruzou os céus. Vários olhares pasmos acompanharam aquele sinal de morte, que voou por nossas cabeças até chocar-se contra uma casa, explodindo em chamas para consumir tudo em sua volta.
       Mas foi ao procurar sua origem que meus joelhos tremeram. Ao fitar o céu azul e ver, com olhos de um guerreiro que desconhecia a guerra, mais uma dezena daquelas esferas flamejantes, arautas da destruição.
       Segurei as crianças e as arrastei para casa, deixando-as com seus pais. Desembainhei minha espada por reflexo, deixando-a preparada para o desconhecido. Saí pelas ruas, observando o caos. Os soldados ordenavam que eu procurasse abrigo e eu os ignorava, procurando por um inimigo ou por uma chance de ajudar na defesa da cidade. Eu andava em círculos, assim como nossas defesas, que não entendiam o que acontecia. 
       — Rodall! – veio a voz conhecida ao mesmo tempo em que a mão forte tocou meu ombro. – Me siga.
       Não ousei desobedecer. Jamais o fizera. Não com o Lorde de Guerra Callian, conselheiro de meu pai e meu tutor desde a infância. Seguimos pelas ruas da cidade em chamas, rumo ao castelo. Aquela chuva de fogo espalhara caos e morte, liberando o medo de cada súdito de Crown.
       Então portais abriram-se, círculos vermelhos emitindo luz em direção aos céus. E vieram os inimigos. Alguns de nossos soldados mais ousados atravessavam o círculo, sumindo na luz, para lutar no campo inimigo. Enquanto outros cercavam as passagens mágicas, para confrontar a horda que saía do desconhecido.
       Continuamos nossa corrida até chegar às muralhas do castelo. Os portões de madeira e aço mantinham-se firmes, mesmo sendo forçados por um aríete inimigo. Uma criança chorava ao longe e uma mulher chamava por seu marido. Gritos de desespero fundidos ao som do aço e fogo podiam ser ouvidos. Por todos os lados encontrava-se apenas o caos.
       — Galio! – chamou meu tutor, logo que nos aproximamos da torre leste de vigia.
       O grito chamou a atenção de alguns invasores. Minha espada mantinha-se firme, ainda virgem de qualquer sangue inimigo, mas treinada por anos de dedicação e vontade de proteger meu povo. Mais invasores vieram, alertados pelos primeiros.
       Teriam chego a nós e o combate aconteceria, mas uma voz conhecida entoou palavras antigas, preenchendo o ar com seu poder. O chão então tremeu e as rochas ganharam vida, empilhando e juntando-se até erguer do solo uma forma humanóide de pedra e terra. Gigantesco, o guardião elemental rugiu e socou o chão de modo intimidador, desafiando o inimigo a avançar. E eles aceitaram o desafio, somente para serem esmagados pelos poderosos punhos e pés do guardião.
       Só então Gálio, o mago de guerra, surgiu dos céus, montado em seu corcel das nuvens, um animal encantado capaz de cavalgar os ventos. Em sua mão direita, o cajado de Mali, herança dos arcanos que ocuparam sua posição nas eras passadas.
       — Meu pai, como está? – perguntei, sem pensar em ocultar o medo e a vontade de estar em segurança.
       — O rei está a salvo. – respondeu o arcano. – Eu o transportarei até ele.- Os soldados já estão reagindo, mande-me também, pois iremos juntar o conselho e preparar nossa retaliação. – bravejou o Lorde de Guerra.
       — Não comece o conselho sem mim, eu quero participar. – afirmou o mago, erguendo o cajado, fazendo-o brilhar como o sol.
       Meu corpo tornou-se leve, a visão escureceu e me senti em queda, mas meus pés tocaram o solo novamente, formigando levemente, e minha visão voltou.
       Meu pai abraçou-me antes que pudesse dizer qualquer coisa. Um abraço forte e rápido. Minha mãe veio em seguida, aos prantos, revirando minhas roupas e apalpando minha pele à procura de ferimentos, como se eu ainda fosse uma criança. Meu pai então urrou de dor, repentino e inesperado. Gritos e o som do aço sendo desembainhado invadiram o local sem aviso, desrespeitando as tapeçarias com imagens sagradas da deusa da Justiça, Rauny. Minha mãe soltou-me e, levando as mãos à boca, ajoelhou-se descrente, paralisada em meio ao desespero. Só então vi o que acontecia. O momento derradeiro, cujos detalhes em sons, cores e cheiros, não me abandonam jamais.
       Meu pai, estendido no chão, erguia a mão em sinal de misericórdia. A garganta vertia sangue, enquanto a espada de Callian, meu tutor, desferia mais um golpe sobre o corpo já condenado. Da dezena de soldados que nos protegiam, somente cinco atacaram seu líder, ainda assim, hesitantes. E cada um encontrou sua morte, rápida, em golpes certeiros ou lenta, em membros decepados. O Lorde de Guerra era o ícone para nossos guerreiros e sua traição era a ruína de nosso mundo.
       Lembro-me dos olhos castanhos de meu pai, abertos em expressão inconformada. De sua boca rasgada, que deixara de mover-se tentando nos dizer algo. E lembro-me de minha mãe, tão indefesa quanto um bebê, segurando sua mão contra o peito, na esperança de que o marido amado voltasse à vida. Lá fora, o povo chorava e clamava por misericórdia. Por isso, eu ataquei.
       Minha espada avançou antes de meu pensamento, colidindo-se contra a lâmina de meu tutor. E o aço inimigo reagiu, vindo contra meu peito. Movimentos conhecidos. Defesas esperadas. Éramos irmãos. Mas ele sempre seria melhor. Callian girou a espada tirando minha defesa e atacou visando meu pescoço. Joguei o corpo para trás, mas não o suficiente. O aço acertou próximo à minha orelha, rasgando minha bochecha e arrancando alguns dentes.
       E quando resisti à dor, deixando de chorar, sem importar-me com mais nada, eu soube quem eu era. E revidei, sem opção alguma, eu lutei como nunca.  Sentindo o aço vibrar a cada golpe rechaçado. Engolindo meu próprio sangue, sem tempo para respirar, eu desferi tantos golpes quantos pude. E ele recuou.
       Um passo. Dois. E no terceiro, desequilibrou-se, tropeçando em meu pai e tombando. E eu pulei sobre ele, um animal encurralado e furioso. Não me lembro da sensação de ter atravessado a espada em seu coração. Ou mesmo de ter percebido quando o combate no restante da cidade cessou. Sequer do toque de minha mãe, que disse ter tentado me tirar de cima do traidor. 
       Mas eu ainda vejo seus olhos abertos. Eu ainda sinto seu cheiro e lembro da espada vibrando com sua última batida de coração. Não há como esquecer daquele dia, quando a vítima tornou-se algoz. E o algoz, mesmo vítima, matou o filho inexperiente do rei que residia dentro de mim.
       Nós o enterramos como herói. E seu feito foi condenado ao esquecimento, pois nenhuma invasão nos arruinaria mais que esta amarga verdade. Eu jamais soube porque fomos traídos. Prefiro acreditar na mentira que contamos. Uma história na qual lutamos lado a lado, onde nosso Lorde de Guerra sacrificou-se para proteger a família real. Uma bela história contada pelos bardos, que inspira o povo e me anima a continuar.
       A cada aniversário eu rezo à Rauny pela sua alma. E agradeço, pois ele matou minha inocência e meu medo, criando o rei e herói que o reino precisava para enfrentar a difícil guerra que viria. Meu povo resistiu àquele ataque e aos muitos outros que viriam.
       Hoje, subo aqui pela última vez, meu amigo. Irei guiar nossa gente para as terras de Oberil, fugindo do exército de Rashidi. Não me orgulho disto, mas eles tornaram-se tão numerosos que não podem mais usar portais e agora marcham para terminar o que começaram vinte anos atrás. Eu sou o último dos Naskell e minha linhagem precisa continuar.
       Espero um dia poder vingá-lo, meu tutor, meu irmão, meu algoz.
Leandro Reis, também conhecido como Radrak, possui 29 anos, mora em São José dos Campos, São Paulo. É casado e se diz “nerd de carteirinha”. Fã de RPG, animes, quadrinhos, cinema, Final Fantasy, Dungeons & Dragons e Video-game. O surpreendente é que o gosto pela escrita surgiu em sua vida desprentensiosamente como um "hooby" e, segundo ele, confidenciado em off, só começou a "ler de verdade" aos 23 anos! Leandro é mentor intelectual do mundo fantástico de Grinmelken, universo desenvolvido por ele, com a ajuda de amigos, que foi amadurecendo ao longo de 11 anos e culminou com o lançamento de seu livro "Os filhos de galagah".
Crônicas de Grinmelken  www.grinmelken.com.br
Leandro  Reis

23 janeiro, 2011

O arco e a pólvora

Escrito por Shaftiel

     Era uma noite boa para sentir a fúria da batalha e ouvir gritos de guerra enquanto o vento fresco era consumido no calor dos corpos em movimento. Pena que o silêncio fosse tudo o que permeasse as árvores frondosas do Sacro-Império Coranuano. Aquela nação guerreira era pura paz dentro de seus próprios domínios, levando as mazelas apenas para os vizinhos que não baixavam a cabeça para suas exigências. Esses poucos que não tremiam ao ouvir que as tropas disciplinadas dos coranuanos estavam  movimentando-se para não serem esmagados e levar o contra-ataque para as bases mais próximas do inimigo.
      Flenniap, elfo guerreiro do império Soluah, tinha pensamentos raivosos naquela noite. Estava furioso por causa da cautela que precisava seguir para tentar se infiltrar nas terras dos malditos humanos. Ele, nascido em família nobre, precisava se esgueirar e temer que fosse ouvido para atravessar a mata e chegar até a pequena vila mais adiante. Sua missão, assassinar o Magistrado coranuano que recentemente se instalara lá. Os elfos não sabiam o motivo daquela figura misteriosa ter chegado ao local, mas tão logo souberam das informações, decidiram que não era de se esperar nada de bom vindo da atitude inusitada.Resultado, enviaram Flenniap e outros quatro elfos para o assassinato.
      O guerreiro escolhera bem a equipe. Havia dois arqueiros, um mago e um rastreador para guiá-los mata adentro. Os olhos adaptados à visão noturna facilitavam a movimentação dos elfos, mas, por duas vezes, eles quase esbarraram em vigias coranuanos que vasculhavam a floresta. O grupo manteve-se nervoso ao ver s armaduras dos guerreiros de elite do império inimigo. Flenniap sentiu-se envergonhado por eles. Um elfos com mais de cem anos de treinamento deveria ser melhor do que qualquer humano. Porém, era uma pena que as guerras provassem o contrário. Os coranuanos nasciam respirando a guerra. Qualquer vila tinha um campo de treinamento e até os camponeses conseguiam levantar uma espada, para o horror dos reinos de Rannian.
      Flenniap avaliou a região mais uma vez. À frente, o rastreador apontava para a melhor trilha. O guerreiro observou as árvores de troncos largos escurecidas na noite. Não havia luar atravessando as folhas. Não havia delicadeza naquelas plantas robustas, crescidas para sobreviver. Tudo era forte e maciço naquele reino. não havia beleza fútil nem na natureza. Sem querer, o elfo pegou-se elogiando os coranuanos. Se seu povo fosse sempre assim, poderiam estar em expansão ao invés de lutando para se defender da ameaça.
      — Falta pouco – disse o rastreador. Ele era uma figura pequena, de cabelos cor de cobre, vindo de uma família pouco conhecida em Soluah. Sua forma física equivalia a sua posição social. Flenniap, como nobre e líder, era o oposto. Tinha ombros largos, quase tão poderoso quanto os de um guerreiro humano. Os cabelos dourados combinavam perfeitamente com os olhos de diamante e ilustravam o rosto esbranquiçado. Poderia ser confundido com os deuses se não estivesse usando uma armadura com tão pouco glamour. Assim como o restante do grupo, tinha apenas uma cota de malha coberta por um tecido acinzentado por baixo das capas élficas.
      Flenniap deu sinal para os dois arqueiros posicionarem-se mais à frente. Os dois se moveram rapidamente, desaparecendo no meio do mato. O rastreador fez sinal para que o guerreiro e o mago seguissem. Assim eles foram. Correram silenciosamente até pararem na borda da mata. Havia pelo menos duzentos metros de clareira separando as árvores das casas. uma única sentinela estava de vigia naquele lado. Todas as outras estavam embrenhadas na floresta, esperando atocaiar os inimigos que tentassem se aproximar da vila. “Idiotas, imaginam que podem pegar invasores elfos”, pensou Flenniap.
      O guerreiro fez sinal para o processo se invasão se acelerar. Cada um sabia o que deveria fazer. O mago, um primo de Flenniap, invocou uma magia de invisibilidade sobre o arqueiro e o rastreador. Agora já tinham um batedor perfeito e um elfo para dar-lhe cobertura. Mesmo protegidos pela magia, rastejaram por metade do caminho, para depois se porem de pé e iniciarem a corrida até a sentinela. O rastreador chegou tão rápido que Flenniap sorriu ao ver a sentinela caindo com o pescoço cortado. Feito o trabalho, o restante do grupo iniciou a corrida. Agora era uma questão de tempo até que dessem por falta daquele soldado.
      As botas dos elfos tocaram as pedras que pavimentavam as ruas pequenas da vila. Ficaram impressionados por achar um aglomerado humano tão pequeno coberto por ruas pavimentadas. Aquele império não era um inimigo normal ou... havia algo a mais naquela vila pacata. Flenniap percebeu a diferença quando dobraram a primeira esquina. Um dos arqueiros estava posicionado atrás para a defesa e o outro correu para a posição avançada ao lado do rastreador. Durante aqueles passos rápidos, o grupo viu a cabeça do colega se abrir pouco acima da orelha pontuda. O crânio aberto liberava uma corrente absurda de sangue enquanto o corpo cambaleava para o chão. O rastreador levantou as duas facas que usava como arma e começou a procurar por cobertura. Gritava desafios para algo que Flenniap ainda não via, quando parou de repente. O corpo tremeu no ar com os ombros indo e vindo à medida que furos enormes iam aparecendo no peito. Cada um deles liberava sangue élfico enquanto o rastreador caía de joelhos para se afogar no líquido vermelho que se misturava ao do colega.
      — Por Helom! – disse o mago ao lado de Flenniap. Ele esperava pelas ordens enquanto o guerreiro concluía que recuar era um convite à humilhação eterna por não cumprir a missão. Olhou de lado e saltou para perto do corpo dos amigos, assumindo cobertura. O arqueiro e o mago fizeram o mesmo e em brvee uma flecha já voava contra o inimigo. Flenniap ergueu os olhospara ver os soldados coranuanos apontando canos para eles. a flecha acabava de derrubar um deles, por sinal um que tentava colocar alguma coisa dentro do cano. As narinas sensíveis do elfo sentiram o cheiro de enxofre no ar.
      — Que magia é essa? – perguntou o mago, surpreso, enquanto procurava componentes para uma magia de ataque e o arqueiro derrubava outro inimigo.
      Flenniap sabia que aquilo não era magia. olhou mais uma vez para ter certeza e notou o Magistrado de braços cruzados. Vestia uma armadura leve e portava dois aqueles canos curtos na cintura. Aquelas eram armadas de fogo, ferramentas covardes e que ofendiam os deuses. Eram parecidas com as que os primos élficos de Emeneluah utilizavam. Mas por que não faziam barulho? Magia de silêncio! Ele via os lábios dos soldados se movendo, mas não saía som algum.  Era hora de seguir enquanto eles recarregavam.
      — Preciso de cobertura para chegar a eles! – exigiu Flenniap, sacando as duas lâminas nobres, presentes do imperador. O arqueiro continuou com as flechadas enquanto o mago levantou-se sorridente.
      — Pode ir primo...
      Flenniap rolou pelos cantos da rua, passando próximo às casas. parou ao lado de uma pequena carroça enquanto contava o tempo e os inimigos. Eram cinco deles, mais três corpos já estendidos no chão. Errado, quatro, pois quatro setas douradas cintilaram pelo ar para explodirem no peito de mais um. O homem caiu com a pele queimada e ferimentos profundos que o matariam nos próximos minutos. O Magistrado pouco fez além de olhar para o soldado caído e os outros inimigos continuaram preparando as armas.
      Os tiros recomeçaram. Flenniap contou sete e iniciou a corrida. Notou com o canto dos olhos que o primo mago tombava enquanto a energia mágica que estava para acumular era dissipada. Os ferimentos mortais impediram a concentração. Faria uma prece por ele depois, mas agora o coração de guerreiro apenas dizia que ele deveria continuar. Os coranuanos haviam perdido seus tiros.
      — Fleneli Helom! – o guerreiro chamou, dando ordem para que o arqueiro atirasse tudo o que pudesse naquele meio tempo.
      Os passos de Flenniap ficaram lentos de repente. Aqueles poucos metros aumentaram muito. E aquilo não era efeito de magia, mas da surpresa quando o guerreiro viu o magistrado levantado uma pistola e mirando. Um segundo soldado ao lado dele tinha um rifle encostado no ombro, também preparado. Não, eles não poderiam ter mais munição. Não havia tempo. Ele contara... um tiro para cada rifle e mais dois para as pistolas do Magistrado. Eles estavam blefando.
      Foi uma pena para os elfos, porque os coranuanos não tinha o hábito de blefar em batalha. Flenniap não precisou se virar para saber que, quando o soldado atirou com o rifle, a cabeça do arqueiro explodiu. A bala passara pelo olho e destruíra globo, nervos e o cérebro, enquanto se alojava próxima ao crânio. O corpo mole que caiu era o mesmo destino de Flenniap.
      — Chama-se pistola de repetição – disse o Magistrado, apertando o gatilho.
      O elfo continuou correndo. Gritava todos os nomes do panteão da raça e avançava. A magia de silêncio dos coranuanos perdera o efeito e o estrondo da pólvora explodindo acordou morados e agrediu os ouvidos do elfo antes que a primeira bala fizesse seu estrago. Era um aviso do que estava por vir.
      O projétil deixou a pistola quente como brasa sem perder o calor enquanto voava. O metal furou o tecido preto como pedra caindo no lado, tilintou por frações de segundos ao vencer a resistência metálica da cota de malha e nem precisou de esforço para romper rapidamente a pele, deixando uma ferida vermelha, redonda e sangrenta ao penetrar no corpo. Raspou de leve em uma costela, aumentando a sensação de ardência enquanto destruía artérias até finalmente experimentar ar de novo, agora o ar quente que enchia os pulmões de Flenniap. O elfo quase não sentiu os tiros seguintes. Contou sete enquanto corria. Um resvalou na cabeça, retirando um pouco o equilíbrio. Outros quatro furaram o peito, o penúltimo acertou o ombro e o último se perdeu na noite.
      A corrida perdeu fôlego tão rapidamente quanto o sangue que se esvaia com facilidade do corpo do elfo. Os coranuanos não se mexeram enquanto viam o inimigo se aproximar. Não dariam um passo mesmo que um elefante estivesse em carga rumo a eles. O Magistrado adiantou-se e esperou pelas espadas do elfo. Elas vieram com movimentos fracos e programados pelo cérebro que se desesperava por oxigênio. O coranuano desviou-se do primeiro e segurou o braço que tentava o segundo golpe. por fim, enfiou uma lâmina na garganta do elfo.
      — Chama-se baioneta – disse, enquanto via o sangue escorrer pela lâmina e descer pelo cano quente da arma. Esperou que as reações do corpo acabassem antes de liberá-lo para a queda dos cadáveres. – Limpem tudo e queimem os corpos. Preparem-se para mais treinamentos amanhã. Vamos investir nessas armas de repetição. Elas serão úteis.
      O teste dera certo. Os arcos élficos podiam ser rápidos, porém não tinham o poder de uma pistola de repetição. Os coranuanos haviam trabalhado anos naquelas armas. Alquimistas e pesquisadores da guerra investiram suas vidas para criar aquilo. Naquela noite, soldados morreram para provar na prática o benefício que as armas poderiam trazer nas situações mais inusitadas de batalha. Agora, com os últimos testes quase no fim, os coranuanos preparavam-se para um golpe final. Era hora de fazer os elfos engolirem seu orgulho.
Antônio Augusto "Shaftiel"
Contos, RPG, cinema e literatura:

Autor dos romances:
Entre Anjos e Demônios,   Assassino de Almas,   Busca por Sangue,  Príncipe da Destruição, A Marcha dos Dez Mil: Sangue e Glória
Autor dos RPGs:Jyhad: Guerra Santa, Abismo, Vikings

18 dezembro, 2010

A Guerra dos Tronos | Resenha

Daniel John Furuno 
 

Tudo é monumental na saga As Crônicas de Gelo e Fogo. Seu primeiro volume, A Guerra dos Tronos, que acaba de ser lançado no Brasil pela LeYa, é uma calhamaço de quase 600 páginas – e olhe que é apenas o primeiro de uma série prevista para sete livros. Estima-se que os quatro já publicados até agora venderam, lá fora, mais de sete milhões de exemplares, sendo que o mais recente, A Feast for Crows, chegou ao topo da lista de best-sellers do jornal The New York Times. A revista Time chamou seu autor, George R. R. Martin, de “o Tolkien americano”. O produtor David Benioff definiu Game of Thrones, a vindoura série da HBO que vai levar a saga para as telinhas, como “Os Sopranos na Terra Média”.


Ironicamente, esse caráter épico da obra, que promete ser fielmente transposto para a televisão, é justamente uma resposta à frustração que fez com que o escritor abandonasse um emprego de dez anos como roteirista de tevê. Depois de iniciar sua carreira com livros bem recebidos entre os fãs do gênero fantasia, George R. R. Martin migrou para Hollywood, onde nos anos 80, esteve à frente de, entre outros, o seriado A Bela e a Fera, estrelado por Linda Hamilton (a Sarah Connor de O Exterminador do Futuro) e Ron Pearlman (já se acostumando com a maquiagem pesada bem antes de Hellboy), e o remake da clássica série sobrenatural Além da Imaginação.

“Meus roteiros eram sempre longos e caros. Eu sempre tinha que enxugá-los. Havia personagens demais, cenários demais. [Os produtores diziam:] ‘Não podemos ter todos esses cenários, não podemos ter essa cena de batalha que você escreveu porque só podemos bancar 12 extras’. Então, acabei voltando para os livros. Eu disse: ‘Não me importo com mais nada daquilo. Vou escrever a maior história que eu puder. Vai ter centenas de personagens, batalhas gigantescas, castelos magníficos e paisagens maravilhosas – todas as coisas que eu não podia ter na televisão’”, disse Martin em uma entrevista para a jornalista Maureen Ryan, do Chicago Tribune.


E Martin, de fato, tem hornado o compromisso, apresentando um enredo complexo desde o primeiro volume. A Guerra dos Tronos é ambientado em Westeros, um reino bem parecido com a Europa medieval – com a diferença de que lá o verão e o inverno duram décadas e, num passado não muito distante, criaturas fantásticas como lobos gigantes e dragões realmente existiram. Ou será que ainda existem?

A trama principal gira em torno de Eddard “Ned” Stark, nobre protetor das terras do norte, que é convocado pelo rei Robert Baratheon a ocupar o cargo de A Mão do Rei – uma espécie de chanceler, que governa em nome do monarca. Amigo pessoal de Robert, Ned relutantemente aceita a incumbência, movido pelo objetivo de proteger seu rei e investigar uma possível conspiração arquitetada pela própria rainha, a ambiciosa Cersei Lannister, e seu irmão gêmeo Jaime.

A Rainha Cersei (acima) e seu irmão Jaime (abaixo)

Aos poucos, no entanto, descobrimos que nem tudo é simples como parece: Robert é, na verdade, um usurpador – anos antes, com a ajuda de Ned, ele havia destronado Aerys II, o chamado “Rei Louco”, representante dos Targaryen, a antiga dinastia que havia unificado os sete reinos que outrora formavam Westeros.

A construção dessa intriga palaciana é claramente influenciada pela Guerra das Rosas – o período da história inglesa, na segunda metade do século XV, que foi marcado pela disputa de poder entre as casas York e Lancaster, e que inspirou algumas das peças mais famosas de William Shakespeare, como Ricardo III. Trazer alguns elementos do romance histórico (gênero explorado por autores contemporâneos como Bernard Cornwell) para a fantasia é, aliás, um dos grandes trunfos da obra de Martin. Além dos jogos políticos na corte, o escritor cria um detalhado universo em que não faltam, por exemplo, o complexo relacionamento entre senhores e vassalos, os torneios de cavaleiros e o subestimado poderio dos povos estrangeiros.


“Romances históricos são maravilhosos de ler, mas o único problema é que eu sei muito de história. Então, eu sempre sei o que vai acontecer. Se você está lendo um romance sobre a Guerra das Rosas, não importa o quanto ele seja bom ou ruim, você sempre sabe quem vai vencer. Com este tipo de coisa [o estilo adotado em As Crônicas de Gelo e Fogo], você pode surpreender as pessoas. É escrito como romance histórico, parece romance histórico, mas você não sabe o que virá a seguir”, disse Martin em entrevista para a jornalista Linda Richards, da January Magazine.

Também contribui para esse cunho surpreendente da trama o fato de que os personagens-chave são ricamente elaborados. Quem está mais próximo de ser alguém totalmente íntegro é Ned, e mesmo ele tem uma mancha em seu passado – um caso extraconjugal que resultou num filho bastardo, chamado Jon Snow. De resto, em ambos os lados, tanto entre os Stark quanto entre os Lannister há personagens dúbios, que não se encaixam na dicotomia mocinhos-bandidos – e o melhor exemplo disso é Tywin, o anão, irmão de Cersei e Jaime Lannister.

Jon Snow, filho bastardo de Stark
É preciso, ainda, destacar a engenhosidade da narrativa. A divisão em capítulos curtos, cada um focado em um personagem, evidencia a influência dos scripts televisivos na escrita de Martin, ao mesmo tempo em que torna a leitura ágil e fluida. E a forma como as subtramas – a marcha (ou melhor, a cavalgada) dos irmãos Viserys e Daenerys Targaryen para reclamar o trono, e a ameaça sobrenatural representada pelos Outros, no norte do reino – são conduzidas, paralelamente à trama principal, permite que elas culminem em um desfecho meticulosamente planejado para deixar o leitor em suspense.


Bom, eu perdi boas horas de sono, sem conseguir largar o tijolo de quase 600 páginas, e não vejo a hora de repetir a dose no próximo volume, A Fúria dos Reis. E também aguardo ansiosamente pela estreia, em 2011, da série da HBO, que terá no elenco, entre outros, Sean Bean (o Boromir de O Senhor dos Anéis) como Ned, e Lena Headey (a rainha Gorgo de 300) como Cersei. Que venha logo o inverno!

 

12 dezembro, 2010

Dossiê Excalibur – Conheça as várias versões da lenda do Rei Arthur


Quem nunca ouviu falar da lenda do Rei Arthur e de sua espada mágica? Qual garoto nunca sonhou em ser um cavaleiro da Távola Redonda, lutar contra dragões e salvar belas donzelas indefesas?

Ao longo dos séculos, as célebres aventuras arturianas emocionaram e inspiraram milhões de pessoas ao redor do mundo. Mas, como um mito inicialmente britânico foi capaz de tocar tanta gente, e por tanto tempo?

As lendas de Excalibur e do Cálice Sagrado não são apenas britânicas, são universais. Elas influenciaram imensamente toda a literatura ocidental e teceram as bases para a formação do caráter do herói como nós o conhecemos hoje.

JORNADA PAGÃ, HERÓI CRISTÃO

Em muitos aspectos, os trovadores medievais resgataram o estilo grego de contar histórias. Reaprenderam a clássica jornada do herói e voltaram a trabalhar com arquétipos – o guerreiro, a donzela, o mago, o pirata... esses modelos são tão antigos quanto Édipo e a Esfinge.

Mas o mundo medieval não abrigava mais uma sociedade pagã. Desta forma, o protagonista precisou ser reinventado. O herói deixou de ser o semideus helênico, inconseqüente e arrogante, para se tornar o guerreiro cristão, honrado e humilde.

Arthur acabou se tornando um desses novos heróis, um homem que, como muitos bretões, teve antepassados pagãos, mas deixou de venerá-los para aceitar os valores da Igreja.

O ARTHUR HISTÓRICO

Hoje, com as recentes descobertas arqueológicas, a idéia de um "Arthur histórico" vem ganhando força. A verdade, porém, é que sabemos quase nada sobre a face "real" do suposto monarca.

O principal fator que dificulta as pesquisas é a época em que Arthur teria vivido. Por volta do ano 500 d.C., a Bretanha e a maior parte da Europa Ocidental estavam mergulhadas no caos. A unidade do Império Romano havia entrado em colapso, e a Igreja ainda não era suficientemente forte para manter uma autoridade total. A maioria das cidades foi abandonada, as pessoas se mudaram para o campo e a muitas evidências e relatos foram perdidos.

Os historiadores acreditam que houve na Bretanha um homem importante chamado Arthur – provavelmente um general ou um rei – pelo simples fato de que, naquela época, muitas crianças foram batizadas com este nome. Vale lembrar que, até hoje, as pessoas têm o costume de dar aos seus filhos nomes de pessoas famosas.

Uma hipótese razoável sobre o Arthur histórico sustenta que ele foi um chefe militar chamado Artorius Riothamus, conhecido também como “O Último Romano”, uma figura que teria conseguido expulsar os invasores saxões (por algum tempo) e unificar os domínios da região.

ARTHUR DOS MITOS

Parece um consenso que quase ninguém (nem mesmo os britânicos) está preocupado se Arthur realmente existiu. O filme "Excalibur", de John Boorman, expressa esse sentimento de forma magnífica ao defender que o Rei e a terra “são um só”. Arthur, sua espada mágica, os cavaleiros, a távola e o Santo Graal existem como ícones imaginários, modelos, e não devem ser entendidos como elementos do mundo real.

Uma prova muito clara disso é que as lendas arturianas se passam em um cenário muito diferente àquele do ano 500. O palco dessas aventuras parece estar mais de acordo com um período posterior – a Baixa Idade Média (algo entre os séculos XI e XIV), época em que a própria lenda começou a ganhar força e popularidade.

O Arthur mítico se encaixa muito melhor em uma Europa fantástica, que só existe mesmo na imaginação das pessoas.

SÓ PARA RELEMBRAR

De acordo com a lenda, Arthur foi uma criança de sangue nobre que não tinha a menor idéia de sua verdadeira identidade. Certa vez, Uther Pendragon, obcecado por possuir a dama Igraine, esposa do Duque Gorlois da Cornualha, pediu ao mago Merlim que fizesse um encantamento que o tornasse igual ao duque.

Desta forma, Uther conseguiu ter sua noite com a moça, mas o feiticeiro exigiu um preço: o fruto de sua luxúria. Quando Arthur nasceu, então, Merlim veio buscá-lo, e o entregou ao cavaleiro Sir Ector para que fosse criado como filho adotivo.

Arthur cresceu como escudeiro de Ector. Aos 15 anos, enfim, ele encontrou a espada Excalibur e conseguiu removê-la da pedra, tornando-se assim rei legítimo.

Mais tarde, o monarca se casaria com Guinevere, seu único e verdadeiro amor, a mulher que iria trai-lo com o seu melhor amigo – Sir Lancelot.

Arthur sofreu, e com isso toda a terra adoeceu junto com ele. Iniciou-se assim a busca pelo Santo Graal, o Cálice Sagrado que traria a vida de volta ao rei e ao seu povo.

METÁFORAS E ALEGORIAS

Perceba que, como todo mito, as lendas arturianas são carregadas de alegorias.

A subtração do bebê Arthur por Merlim é uma metáfora que nos ensina que para tudo há um preço, especialmente quando estamos dispostos a ignorar a todos para alcançar nossos objetivos.

O Arthur escudeiro pensa ser um simples plebeu, mas na verdade possui aquele “algo especial”, que no caso é o sangue real. Como ele, nós somos pessoas comuns, somos seres humanos normais que vivemos constantemente tentando ser especiais. Em nossas histórias, somos sempre os heróis.

Quando sofremos uma grave ferida emocional, parece que não só nós, mas o mundo inteiro desaba, tal qual o reino de Arthur, assolado pela tristeza depois da traição de Guinevere.

Mas a busca ao cálice pelos cavaleiros da Távola Redonda nos mostra que podemos sempre encontrar amigos que nos ajudarão a trilhar a árdua jornada rumo ao Graal, o elixir que nos trará de volta à vida e restabelecerá nossas forças.

ARTHUR NA LITERATURA

Os mitos arturianos começaram a se popularizar já no século XII, mas a referência literária mais antiga e provavelmente a mais segura sobre o tema é o livro "Le Morte d'Arthur", de Sir Thomas Malory, publicado em 1485.

Visto aos olhos de hoje, Le Morte d'Arthur não é uma leitura aprazível. É um livro confuso e antiquado, mas é também um material precioso para estudiosos e curiosos.

Romances continuaram a ser lançados ao longo dos anos, em muitos idiomas diferentes, mas foi no século XX que coisa tomou proporções magnânimas.

Uma das séries mais célebres do nosso tempo é "As Brumas de Avalon", de Marion Zimmer Bradley, que explorou o ponto de vista feminino da saga.

Outra autora, Mary Stewart, contribuiu com uma trilogia dedicada a Merlim (A Caverna de Cristal, As Colinas Ocas, O Último Encantamento).

Mais recentemente, o escritor britânico Bernard Cornwell ficou famoso por recontar a lenda utilizando o prisma histórico e colocando o Rei Arthur no cenário “real” do século V.

ARTHUR NO CINEMA

O cinema também soube explorar a popularidade do tema. O melhor filme já feito sobre o Rei Arthur é sem dúvida "Excalibur" (1981), de John Boorman, uma bela homenagem ao mito.

Uma visão totalmente adversa pode ser conferida no razoável "Rei Arthur" (2004), o longa com Clive Owen e Keira Knightley que retrata Arthur como o guerreiro romano que ele realmente pode ter sido.
 

Outro filme mais voltado para o mito, porém menos fantástico, é "O Primeiro Cavaleiro" (1995), com Sean Connery e Richard Gere, livremente inspirado na obra do poeta francês Chrétien de Troyes (século XII).

Outras produções mais antigas também são digas de nota.

"Knights of the Round Table" (1953), com Robert Taylor e Ava Gardner, é outra visão baseada no livro de Malory.

A 20th Century Fox também lançou uma versão cinematográfica da história em quadrinhos do "Príncipe Valente" em 1954, uma película dirigida por Henry Hathaway.
 
 

 

09 dezembro, 2010

NEGÓCIO DE ELFOS

Escrito por Miguel Carqueija e Gabriel Coelho

       Pois é. Evite ao máximo negociar com elfos, é o que eu sempre digo.
       Para demonstrar que não estou de brincadeiras deixem-me narrar a minha própria experiência pessoal, quando na qualidade de Conselheiro Ducal eu fui enviado, pelo Duque Cornélio Bretão, ao encontro do Rei Elfo Hélios III, o Generoso, para tentar obter certas facilidades territoriais. Eu nutria certa dúvida sobre a eficácia das minhas credenciais já que, mesmo sendo conselheiro do Duque, eu jamais conseguia que ele atendesse aos meus conselhos. O que poderia esperar de um monarca não-humano?
       Assim, num belo dia de verão, com nuvens brancas encasteladas em altas montanhas, eu me dirigi lentamente, montado em meu alazão Resfolegante, através do Passo dos Morcegos, em direção à fronteira do reino dos elfos. Acompanhavam-me três secretários, pois não era adequado que um Alto Negociador se encaminhasse sozinho no cumprimento de uma missão diplomática.
       O vento soprava forte e frio, fazendo com que as folhas esvoaçassem em redemoinhos e fustigando nossos rostos, o meu felizmente protegido por espessa barba negra. Do outro lado do desfiladeiro apareciam as primeiras torres elficas e eu aproveitava o tempo da ornada tentando premeditar o que iria dizer aquele ilustre cavalheiro de orelhas horizontais e pontudas.
       Não posso afirmar que me ajudassem os palpites dos meus acompanhantes.
       O Fénelon, por exemplo, queixava-se o tempo todo da dureza da montaria, do calor, do frio, do vento e dos mosquitos.
       O Garibaldo fazia comentários do tipo: — Chefe, nós vamos enrolar direitinho aqueles orelhudos, não é mesmo?
       — Evite falar essas coisas quando chegarmos mais perto - respondi já meio chateado. - Orelhudos sempre escutam muito bem.
       E finalmente tinha o Galvão, que passou a viagem toda brincando com um bilboquê.
       O que querem? Eu não escolho os meus auxiliares.
       Chegamos pouco antes do crepúsculo no posto aduaneiro, mostramos nossas credenciais a humanos e a elfos e prosseguimos em direção ao castelo Wolf, residência de verão - oportunamente próxima à fronteira - do cabeça coroada que iríamos visitar. Felizmente disporíamos de perto de um dia para nos prepararmos: a audiência estava marcada para as 17 horas do dia seguinte. Pernoitaríamos na ala de hóspedes do palácio real.
       Eu estava disposto a dormir pesadamente, pois sentia-me cansado e geralmente ferro no sono. O que eu não contava é que, no quarto amplo porém único que nos disponibilizaram, os meus três ajudantes (que a rigor não me serviam para nada) dormiram rapidamente e executaram pela noite inteira um verdadeiro concerto de roncos, sendo Fénelon o tenor, Garibaldo o baixo e Galvão o barítono. Podem crer que não foi fácil.
       Na manhã seguinte eu me levantei tresnoitado, tomei banho e me vesti enquanto meus companheiros de missão prosseguiam curtindo o sono, sem nenhum indício de que iriam retornar ao estado de vigília. Enquanto bochechava com o meu enxaguatório bucal, eu tentava inutilmente identificar alguma utilidade para aqueles três dorminhocos. No fim das contas, porém, aquele era o menor dos meus problemas.
       Tendo colocado as minhas insígnias de embaixador ducal (uma cruz de setas sobre uma esfera, a indicar que eu estava credenciado a futricar pelo mundo inteiro), saí para o corredor e indaguei a uma garota elfa que passava (provavelmente uma funcionária) onde poderia tomar o meu desjejum.
       E seus companheiros, Senhor Conselheiro?
       Lembrei-me de que poderia estar incorrendo numa gafe diplomática se fosse comer sozinho, sem o meu séquito, por mais incômodo que este se me afigurasse.
       — Eles estão se aprontando, só me mostre onde é.
       A garota elfa, que se identificou como Ísis (camareira do palácio) caminhou pelos corredores, levando-me até um pequeno refeitório onde havia umas poucas pessoas, quase todas élficas, mas vislumbrei um casal de anões. Eu admirava a elegância e a leveza das mulheres elfas. Se não fossem aqueles orelhões...
       Retornei ao meu dormitório, cheio de fome, mas ainda precisei de quase meia hora para escorraçar os meus queridos (?) companheiros de seus leitos e obter que se vestissem.
       Gostaria tanto que o Duque me facultasse escolher meu próprio séquito!
       No refeitório, servido amavelmente pela camareira (os elfos costumam ser bem mais elegantes que os humanos), pude reparar na refeição dos anões - que por sinal já se encontravam lá há um bocado de tempo - um imenso pernil regado a cerveja espumante. Para nós puseram uma torta de avelãs com refrescos e pão com pasta de soja. Nada de muito especial, mas até que estava gostoso. Pelo canto do olho reparei nos hóspedes elfos, provavelmente funcionários administrativos em missão na cidade, que consumiam refeições frugalíssimas, com verduras que pareciam flores de brócolis, cebolinhas e coisas desse jaez, além de uns chás e umas bolachas.
       O caso dos anões era assustador. Se no desjejum eles consumiam aquilo, o que seria o almoço? Um assado de dragão?
       Uma coisa era certa. A hospitalidade de Hélios III era impecável. Comecei a achar que seria relativamente fácil negociar com um monarca tão generoso (aliás ele se intitulava assim). Os dois anões, que não sabiam conversar em voz baixa, também estavam lá por conta de pretensões territoriais e sua audiência dar-se-ia antes da minha.
       Se eu prestasse atenção, poderia conseguir uma idéia do que me esperava.

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       Pelas dezesseis horas eu me sentei, com um livro, no corredor que levava á Sala das Audiências Reais. Felizmente havia poltronas e, em caso de dúvida, eu podia alegar que estava aguardando a minha hora. Proibi terminantemente aos três estafermos que me acompanhassem na sessão com o rei; definitivamente só iriam me estorvar. Diplomacia é coisa complexa; não é coisa para cabeças ocas.
       Minha expectativa afinal obteve resultados.
       Quando o casal passou por mim percebi que os seus olhos brilhavam de contentamento e ainda por cima esfregavam as mãos de entusiasmo. Isso era um bom sinal, do jeito que os anões costumam ser muquiranas.
       Ainda consegui captar parte da troca de palavras:
       — Esse rei é mesmo um mentecapto...
       — É mesmo, querido. Enrolamos ele direitinho...
       — Nosso rei é que vai adorar...
       E mais não ouvi, mas aquele papo fez subir bastante o meu astral! Se dois anões estúpidos conseguiam engambelar aquele rei elfo, quanto mais um humano sofisticado como eu!
       E com esse estado de espírito dirigi-me para a minha entrevista.

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       Confesso que, apesar de todas as ironias dos anões, a figura de Hélios III me decepcionou! Usava trajes ricos e anacrônicos, sem dúvida; mas a sua pessoa não era tão impressionante quanto eu esperava. Alto, azulado, de idade indefinível, mas com uma expressão por demais aberta, por demais ingênua, como uma criança grande. E mais magro do que eu supunha. Ergueu-se pressuroso de seu trono e cumprimentou-me com amabilidade, segurando as minhas mãos:
       — É um prazer recebe-lo, Senhor Embaixador. É ótimo poder estreitar os laços com os reinos dos humanos, e há muito eu desejava um contato maior com o Ducado...
       — Também estou muito satisfeito por estar aqui, em nome do Duque Cornélio - respondi, desejando no íntimo que tudo acabasse depressa.
       — Mas sente-se, por favor. Quer tomar um refresco? Sirva-se! - e mostrou uma jarra cheia de uma bebida vermelha, sobre uma mesa com rodinhas, além de copos.
       Aceitei aquele refresco de frutas vermelhas e aguardei que o soberano desse prosseguimento ao diálogo, o que não se fez esperar:
       — Espero que tenha feito boa viagem e que tudo aqui lhe saiba bem - observou amavelmente.
       Teci alguns elogios à hospitalidade dos elfos e à boa qualidade dos leitos e da comida. Estava ansioso para entrar no assunto principal.
       — Mas que o traz aqui, Conselheiro Albino? Com certeza, algo importante para os nossos dois estados...
       — É claro que sim, Majestade. Sua Alteza, o Duque Cornélio Bretão, encarregou-me de expor o quanto somos amigos há tantas gerações e como é de grande interesse do Duque estreitar cada vez mais os nossos laços de amizade e nosso intercâmbio turístico, comercial e cultural.
       — E como faríamos isso, Conselheiro? — e o rei sorria com franqueza.
       — Somos separados por uma poderosa barreira rochosa com poucas e estreitas passagens, Majestade. O Duque acredita que nos tornaríamos mais amigos do que nunca se Vós nos cedêsseis uma faixa territorial em seu reino, onde habitaria uma missão humana, e nossas relações futuras tornar-se-iam mais fáceis e proveitosas...
       — Ah, sim, começo a compreender... mas, meu amigo, sabe que o que me pede não é fácil. Abrir mão de um pedaço do próprio território vai contra as nossas veneráveis tradições...
       — Bem sei, ó Rei, mas como Embaixador Plenipotenciário de meu país, estou autorizado a oferecer uma faixa do nosso próprio território, de modo a compensar a diminuição do seu...
       — Humm... a oferta é tentadora, Conselheiro. O senhor trouxe os mapas da região que nos está oferecendo?
       — Ah, claro. Trouxe-os cuidadosamente na minha bagagem. Se me permite, vou puxar aquela mesinha...
       — Claro, claro. Esteja à vontade.
       Como hábil negociador que eu me julgava, espalhei os mapas espertamente adulterados de maneira a não dar a perceber o quanto a região do Calvário era rebarbativa. Os poucos rios não estavam pontilhados, como normalmente se fazia em tais casos para indicar serem cursos intermitentes, que desapareciam durante a estação seca. As informações sobre os ventos - que sopravam quentes e furiosos - não constavam; a inexistência de povoações humanas, afora uns poucos entrepostos, seria justificada pela incompleta colonização daquela área.
       Por outro lado, somente nos interessaria uma faixa de terra contígua a um dos desfiladeiros que conduziam ao reino élfico. As reais intenções do Duque eram para mim obscuras e sinistras; mas eu era apenas o seu preposto e deveria me desempenhar bem da minha missão.
       O rei desenvolvera algumas perguntas razoáveis. Uma ou outra pareceu muito ingênua: que flores cresciam na região, se a água dos rios era límpida...
       Nós estávamos prontos ate a conduzir observadores elfos a um ou outro oásis da região, para contornar qualquer má impressão; mas eu nutria a esperança de que tal não fosse necessário. A boa fé do Helio III parecia excessiva...
       — Talvez possamos ceder a região da Maravilha - disse ele por fim. - É um pouco baixa para o nosso gosto... sabe como é... não gostamos de cultivar hábitos semelhantes aos dos anões, e eles adoram viver nas depressões de terreno, e cavando minas... além disso, o canhão norte desemboca nela uma das suas ramificações, o que facilita o acesso de vocês.
       — Eu poderia ver o mapa da região, Majestade?
       — Mas é claro, meu amigo. Eu tenho um aqui na gaveta...
       Achei estranha aquela história de mapa engavetado, e também me pareceu difícil examinar aquele objeto que era um rolo de papiro. Tentei ler a data de confecção, mas todos os sinais vinham na escrita élfica ancestral, que eu não aprendera.
       Em todo o caso o que eu vi me animou bastante. Afinal, a Passagem Norte era de fácil acesso e, se mais não era freqüentada pelos humanos, devia-se á falta de entrepostos comerciais élficos à saída ou nas proximidades. Eu sabia que elfos não apreciam as terras mais baixas, mesmo sendo férteis e na região indicada estavam assinalados bosques tropicais, conforme o rei me explicou. Eu não vi motivos para desconfiar, pois tinha notícias de exploradores humanos que haviam observado pessoalmente uma profusão vegetal por aquelas bandas. Por outro lado eu sabia que o Duque estava sôfrego para se livrar daquela região ventosa, árida, estéril e insalubre que eu estava negociando. Na minuta do tratado que eu portava constavam os nomes de um grande número de plantas, inclusive frutíferas, que por lá vicejavam. E não era mentira, só que na terra seca tudo esturricava, menos as cactáceas e outros vegetais mais rebarbativos.
       Hélios III seria facilmente fisgado — pensava eu. E por causa de uma idiossincrasia boba (não quererem adquirir hábitos de anões) eles iriam abrir mão de uma zona sabidamente fértil.
       Uma fácil vitória diplomática!

............................................................

       Passaram-se algumas semanas.
       Eufórico com a assinatura do tratado, o Duque Cornélio nomeou-me Administrador Interino do novo território, com a missão de dele tomar posse e instalar o nosso primeiro entreposto. Depois eu retornaria às minhas funções habituais; só tinha de me dirigir à terra que os elfos chamavam de Maravilha, mas cujo nome passaria a ser Corneliolandia, acompanhando um grupo de trinta pessoas. Havia topógrafos, botânicos, marceneiros, pedreiros, médicos; o que iríamos precisar.
       Com nossos cavalos e diligências, atravessamos sem grande dificuldade aquela passagem, onde normalmente não seguiam caravanas por ausência de populações locais na região que demandávamos. Íamos aos poucos descendo em altitude, pois, como devem se lembrar, a província de Maravilha situava-se numa depressão geológica.
       Fomos ziguezagueando pela passagem natural e, aos poucos, a temperatura ia caindo e um espesso nevoeiro amortalhou o horizonte visual. Parecia um clima de montanha, embora estivéssemos em baixa altitude; pelo meio da tarde afinal desembocamos na saída do desfiladeiro, onde nos aguardava uma comissão de elfos.
       Era apenas uma formalidade. Com a cópia do tratado, o Ministro das Relações Exteriores dos elfos, o Senhor Spoker, entregou-me solenemente o diploma de posse e desejou-nos boa sorte. Eu apertei a sua mão e, com oculta ironia, também desejei boa sorte aos irmãos elfos na administração do seu novo território.
       Eles montaram nos seus pégasos de asas brancas e se foram, em direção ao sul. E eu, respirando aquele ar puro, fruto da exuberância vegetal que tinha pela frente, e empunhando o mapa enrolado, comandei a entrada na região. A idéia era estabelecer nosso entreposto umas três léguas adentro, para que a posse do território não ficasse ainda na periferia. Aproveitaríamos para explorar o que fosse possível.
       Desta vez eu tinha como meu secretário um velhote chamado Pascácio Atanásio, outra figurinha difícil como eu vim a saber, ranheta e cheio de manias. Eu não tinha meio de dispensá-lo: era tio do duque.
       — Vamos com cuidado, senhor! - buzinava ele a toda hora. - Lembre-se que eu sou um velho!
       Como eu iria esquecer, vendo a cara dele a todo instante? Procurei me concentrar na jornada, enquanto atravessava entre bromeliáceas, cactáceas, grande árvores, até algumas sequóias. Então, a certa altura, me pareceu que as árvores ao redor estavam se tornando cada vez mais altas.
       — O que acha, Conde Pascácio? - indaguei. - As árvores estão ficando mais altas...
       — Eu acho que não, Embaixador. Nós é que estamos ficando mais baixos.
       Por um instante achei que o meu assistente estava bêbado ou delirando; mas logo percebi que ele estava com a razão. Olhei então para baixo: as patas dos nossos cavalos estavam afundando no chão.
       — O que está acontecendo? - Exclamei, à beira do pânico.
       Foi Clavius, o monge que nos acompanhava, quem primeiro atinou com o que ocorria:
       — Não estão vendo? Estamos em meio a areia movediça! Temos que dar o alarme!
       O que nos salvou foi que aquela areia ocorria em meio a árvores com cipós, e alguns de nós tinham cordas com as quais pudemos laçar galhos. Depois de muito esforço pudemos salvar quase tudo — menos é claro as carruagens com praticamente todos os mantimentos.
       Quando pudemos chegar a uma região aberta e de solo rochoso, o inventário das nossas perdas era deprimente. O tio do duque parecia histérico:
       — Seu irresponsável! Como você pôde nos levar a uma situação dessas? Não leu no mapa que por aqui tinha areia movediça?
       — Olhe aqui...
       — Eu vou relatar tudo ao meu sobrinho! Imagine, se poderemos estabelecer legiões guerreiras numa região...
       — Como disse? - eu começava a ficar interessado, mas nesse momento várias mulheres começaram a gritar.
       Eu logo vi o que estava acontecendo. Uma revoada de mosquitos-agulha, transmissores de febre hipertrofiante, estava investindo em cheio contra o nosso grupo, com as suas picadas agoniantes. O monge, que era um sujeito prevenido, tirou de sua mochila algumas raquetes mata-mosquitos, mas não havia para todo mundo.
       Em poucos minutos estavam todos encalombados, inclusive os cavalos. Ainda bem que o nosso cozinheiro teve a boa idéia de acender uma fogueira e fazer fumaça para matar e espantar a nuvem de insetos.
       Por fim logramos êxito, e enquanto Pascácio enxugava o suor da testa com um enorme lenço vermelho, Frei Clavius achegou-se a mim e indagou:
       — Desculpe, senhor, mas eu poderia dar uma olhada no seu mapa?
       Tirei-o da mochila e passei-o para o monge, recomendando que o manuseasse com cuidado.
       — Conselheiro Albino - disse ele, após alguns momentos de detido exame - chegou a ler o texto desse mapa?
       — Como poderia, Frei Clavius? Eu não entendo essa língua antiga dos elfos...
       — Pois então, sou obrigado a alertá-lo de que estamos...
       Não pôde terminar; um tremendo rugido calou a sua voz. Olhamos sobressaltados para a direção de onde viera aquele som: um grande lagarto carnívoro acabara de chegar. Esses bichos costumam ser atraídos por luzes (como da fogueira) e panos vermelhos. Aquele avançou logo em cima do Pascácio.
       O idiota ainda não largara o seu “lençol” vermelho.
       Foi um Deus-nos-acuda. Os membros válidos da expedição, com suas espadas, tiveram de travar um violento combate com a fera. Depois de vários ferimentos, rasgões, braços quebrados etc. nós conseguimos abater o monstro.
       Mal estávamos ainda suspirando de alívio quando escutamos um sinistro bater de asas.
       Olhamos para cima e constatamos, horrorizados, que um bando de pterodáctilos vinha vindo, atraído pelo cheiro de sangue. Seus bicos eram dentados e suas garras afiadas.
       Os minutos que se seguiram foram de pânico e horror. Fugimos espavoridos pela mata, ferindo-nos em espinheiros, sujando-nos em lamaçais, acossados por aqueles ferozes répteis alados. Ainda tivemos de lutar contra cobras, felinos predadores e javalis selvagens e, no final, estávamos reduzidos à quinta parte de nosso número inicial, umas poucas montarias e uma fração de nossos mantimentos e equipamentos.
       Foi quando o monge - um dos sobreviventes - chegou-se a mim, ofegante e com o hábito rasgado, e tentou de novo:
       — Senhor Conselheiro, posso terminar o que estava tentando lhe dizer?
       — Se julga que ainda é importante...
       — Este mapa, senhor. Vejam, está tudo escrito aqui, no idioma arcaico dos elfos, que eles utilizavam há mil anos atrás.
       — O que está escrito? - rosnou Pascácio Atanásio que, infelizmente, era um dos sobreviventes.
       — Vejam aqui - e o monge esticou o mapa e foi indicando os detalhes - esse azul aqui é o Pântano das Epidemias, nas notas de rodapé diz ser uma região pestífera e repleta de todo tipo de inseto venenoso, além de criadouro de serpentes gigantes e monstros diversos. Esses trechos cinzentos são os lençóis de areia movediça. O marrom ao norte é o Deserto da Secura, e esses desenhos representam tempestades de areia de grande intensidade. Já aqui, a poucos quilômetros a leste de onde nos encontramos, consta a existência de uma grande colônia de dragões selvagens cuspidores de fogo, de modo que...
       — Chega, frade! - berrou o velhote. - Já estou satisfeito! Conselheiro, o que é que o senhor tem a declarar?
       — A expedição acabou - respondi no ato. - A colônia fracassou, vamos voltar.
       — O que? É tudo, conselheiro? E a sua responsabilidade? Você nos trouxe a esse atoleiro, a essa armadilha!
       — Mas que culpa eu tenho? Também não sabia que as condições locais eram essas...
       — Você não pode fugir à sua responsabilidade! - esbravejou ele, à beira de um ataque apoplético. - Você não mandou traduzir esse maldito mapa!
       — Meu senhor - atreveu-se a interromper o frade - a não ser alguns monges copistas como eu, quase ninguém mais conhece essa escrita arcaica dos elfos. Até mesmo entre os elfos, poucos atualmente traduziriam...
       A discussão ia prosseguir, quando se ouviu um grande estrondo e a terra começou a tremer.
       — Meu Deus, o que é isso agora?
       — Ah! - suspirou Frei Clavius, desanimado. - Na pressa acabei não passando toda a tradução. Há uma pequena anotação dizendo: “zona sujeita a constantes terremotos”. Acho melhor nós irmos embora, pois esses sismos costumam colocar os dragões em polvorosa...
       E esse foi o fim da nossa colônia.

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       Escrevo estas memórias nas Montanhas Gélidas, no reino élfico, onde moro atualmente. O tio do duque encarregou-se de fazer a minha caveira e, como precisavam de um bode expiatório, eu fui exilado e acabei pedindo refúgio junto aos elfos. Helio III recebeu-me amavelmente, muito feliz por ter se livrado daquele território problemático e ainda estar desfrutando lucros fabulosos com os diamantes e o ouro encontrados na região cedida pelos homens. É claro, espertos como são os elfos já sabiam das potencialidades da área que o Duque desprezou.
       Tenho, como vizinhos, aquele casal de anões. A vida não é má de todo, pois o rei concedeu-me generosas pensões em troca de ficarmos monitorando permanentemente as nevascas e trabalhando nas estatísticas das mesmas. Não seria tão ruim se eu não fosse obrigado a sair sempre super-encapotado e a zelar obsessivamente pelo bom funcionamento da calefação.   
       Mas já começo a achar que foi uma boa coisa afastar-me do serviço ao Duque Cornélio. Comecei a mudar de idéia quando, no meu regresso ao palácio de Hélios III, reencontrei a camareira Ísis e ela se alegrou ao saber que agora eu moraria com os elfos. Desde então, de vez em quando a gente se vê.
       Acho que vou ter que me acostumar com mulheres de orelhas grandes... 


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