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10 dezembro, 2010

Amazônia internacionalizada: Verdade ou alucinação coletiva?

Afonso Tresdê 

 

No nerdcast 78 eu soltei uma “bomba”. Tenho certeza que deixei muita gente com o cérebro exposto ou, na mesma proporção, me acharam um maluco-doido-insano. Pois é, eu disse que a Amazônia estaria “loteada”, com zonas de acesso restrito e de posse de organização/governos internacionais. Muito bem, aqui estou eu para dissertar um pouco mais sobre este assunto um tanto quanto conspiratório, assim dizendo, e MUITO SÉRIO, e também já estou me preparando pra ser preso em breve.
O assunto surgiu num papo informal com amigos em Petrópolis, cidade serrana do Rio de Janeiro. Estávamos conversando sobre uma imagem veiculada via e-mail na época, que trazia um mapa do Brasil, onde a Amazônia era mostrada como “zona internacional”. A suposta figura teria sido retirada de um livro escolar de uma escola americana, mas logo foi desmascarada, sendo criação de um pesquisador do Centro de Filosofia e Direitos Humanos – IFHC – da Unicamp.
Em meio à discussão, um dos presentes soltou a seguinte pérola: “o mapa pode até ser falso, mas a informação não é de toda errada!” (sic). O caro leitor deve imaginar como o conspirólogo aqui reagiu, poupando a descrição. Após uns murmurinhos, o rapaz continuou, dizendo que era parente de um soldado do exército brasileiro baseado em Petrópolis, mas que teria sido transferido com sua companhia para a Amazônia, mais ao sul do estado do Amazonas, junto com boa parte dos soldados do Quartel. (identidades e parentescos serão preservados para impedir retaliações) …. -. / .. … / .- .-.. .. …- .
Após passar alguns meses no novo quartel no norte do país o soldado “João” volta para Petrópolis, contado para umas poucas pessoas o que havia presenciado. Segundo “João”, em muitas de suas rondas pela ‘rainforest’ se deparou com cercas e guardas em porteiras, em determinados lugares, com acesso restrito, ou “restrict access”, onde na verdade seriam áreas desabitadas e de posse do governo brasileiro ou até reservas indígenas. Era comum ver ingleses, americanos, holandeses, japoneses… perambulando pela mata e dentro desses terrenos.
Alguns de vocês devem estar pensando, assim como a controversa matéria da Veja (considerada por comunicólogos como uma revista algumas vezes tendenciosa), que isto seria uma coisa boa. A matéria inicia-se da seguinte forma:
“Se o interesse e a presença de estrangeiros na Amazônia fossem mesmo o problema que tanta gente gosta de levantar, seria tarde para tomar alguma providência. Mais de 10 000 pessoas de nacionalidade não brasileira já vivem ou freqüentam regularmente a região, compondo uma comunidade com formação intelectual suficiente para governar a área provavelmente com mais bom senso do que fazem muitos dos políticos locais. Nessa turma há jornalistas, executivos, estudantes, militares, ambientalistas e principalmente cientistas pesquisando as características e os benefícios que se podem obter da biodiversidade da floresta. Para desgosto de madeireiros que acabam de lançar uma campanha de outdoors xingando os militantes do Greenpeace de bêbados e de generais que chegam a recusar ajuda internacional para combater incêndios florestais, o fato é que essa gente contribui mais para o desenvolvimento do país e da região do que boa parte dos proprietários de terras e instrutores de manobras lotados na área.” Leia na integra a matéria.
Mas parem para pensar! Invasão de divisas, tráfico (SIM!), roubos de metais e pedras preciosas, pesquisas ilegais e, pasmem, COMÉRCIO ILEGAL DAS TERRAS seriam coisas boas para o nosso país?
Há uma vertente de conspirólogos brasileiros que vai mais além. Alguns afirmam que a Internacionalização da Amazônia tem um papel estratégico na implantação da Nova Ordem Mundial (assunto pra uma outra coluna), e que os Estados Unidos vem se preparando desde 1816 para assumir o controle do território e de suas riquezas naturais. Mas isso não vem ao caso agora.
O site Brasil.iwarp.com, bastante nacionalista, administrado por oficiais da reserva do exército brasileiro, tem vários textos falando sobre este assunto, inclusive um dos textos afirma que tudo começou quando o FMI, na época do governo Collor, “forçou” o governo a demarcar um imenso território de 94 mil quilômetros quadrados como reserva ianomâmi, para que futuramente a Nação Ianomâmi proclamasse independência e pedisse intervenção da ONU. O resto da história vocês podem deduzir. (fonte: Conspirações. ARAN, Edson. Ed. Geração Editorial).
Eu seria ousado em dizer que existe uma MEGA CONSPIRAÇÃO para abafar e/ou apoiar esta empreitada estrangeira, com apoio de veículos de informação e gente infiltrada no governo! O fato é tão sério que uma repórter do JB iniciou uma investigação sobre o caso (leia matéria) mas nunca mais ouviu-se falar dela nem de sua investigação.
O Blog www.oykosmiguel.blogspot.com publicou no último dia 2 de outubro uma matéria animadora no sentido de combatermos essa invasão:
“Audiência Pública em Manaus vai debater venda de terras na Amazônia por ong britânica.
Na quarta-feira, 03 (de outubro), no plenário da Assembléia Legislativa, em Manaus, será realizada uma audiência pública sobre a venda de terras na Amazônia através do site www.coolearth.org, pertencente a uma ong britânica que alega ter comercializado 29.107 acres de áreas florestais, o que equivale a cerca de 110 mil quilômetros quadrados na região.
Esses números representam 65% do total de áreas amazonenses, que hoje estão sendo disponibilizadas por meio do site, sendo que os demais 35% das terras à venda são oriundas de áreas do Equador. No Estado do Amazonas, essas áreas são próximas ao Arco do Desmatamento, que abrange a área sul do Estado, onde o desflorestamento é maior.
Representantes do INCRA, IBAMA, ITEAM, Ministério Público Federal, Polícia Federal, SIPAM e inúmeras instituições governamentais e não-governamentais que atuam na proteção da Amazônia garantem presença num debate que promete desdobramentos em prol da soberania do Brasil.”.
Obs: Se vocês entrarem no site que a matéria se refere, verão que realmente vende-se ‘pedaços’ da Amazônia.
Outro relato assustador extraído de uma matéria do jornal “O Democrata”), conta fatos presenciados por um rapaz que passou em um concurso público federal e foi trabalhar em Roraima. Relato o qual, foi endossado por um professor da Universidade Federal de Manaus, parente de um amigo meu.
Trata-se de um Brasil que a gente não conhece.
As duas semanas em Manaus foram interessantes para conhecer um Brasil um pouco diferente, mas chegando em Boa Vista (RR) não pude resistir a fazer um relato das coisas que tenho visto e escutado por aqui.
Conversei com algumas pessoas nesses três dias , desde engenheiros até pessoas com um mínimo de instrução.
Pra começar o mais difícil de se encontrar por aqui é roraimense. Pra falar a verdade, acho que a proporção de um roraimense para cada 10 pessoas é bem razoável; tem gaúcho, carioca, cearense, amazonense, piauiense, maranhense e por aí vai.
Na única rodovia que existe em direção ao Brasil (liga Boa Vista a Manaus, cerca de 800 Km), existe um trecho de aproximadamente 200Km (reserva indígena de Waimiri Atroari) por onde você só passa entre 6:00 da manhã e 6:00 da tarde. Nas outras 12 horas a rodovia é fechada pelos índios (com autorização da FUNAI e dos americanos), para que os mesmos não sejam incomodados.
DETALHE: Você não passa se for brasileiro. O acesso é livre aos americanos, europeus e japoneses. Dos 70% de território indígena, diria que em 90% dele ninguém entra sem uma grande burocracia e autorização da FUNAI.
E pásmem, americanos entram na hora que quiserem; se você não tem uma autorização da FUNAI, mas tem dos americanos, então você pode entrar.
A maioria dos índios fala a língua nativa além do inglês ou francês, mas quase ninguém fala português. É comum na entrada das reservas encontrarem-se hasteadas bandeiras americanas ou inglesas. É comum se encontrar por aqui americanos tipo nerds caçando borboletas e joaninhas para catalogá-las, mas, se você quiser montar uma empresa para exportar plantas e frutas típicas como cupuaçú, açaí, camu-camu, etc., medicinais ou componentes para fabricação de remédios, pode se preparar para pagar Royalties para empresas japonesas e americanas que já patentearam a maioria dos produtos típicos da amazônia.
Por três vezes repeti a seguinte frase após ouvir tais relatos: É, os americanos irão acabar tomando conta da Amazônia… e em todas elas ouvi a mesma resposta em diferentes palavras. Irei reproduzir a resposta de uma senhora simples que vendia suco e água na rodovia próximo de Mucajaí:
- Irão não, meu filho, tu não sabe mas tudo aqui já é deles. Eles comandam tudo… Você não entra em lugar nenhum porque eles não deixam!!! Quando acabar essa guerra aí eles virão pra cá e vão fazer o que fizeram no Iraque quando determinaram uma faixa para os curdos onde iraquiano não entra. Aqui vai ser a mesma coisa.
A dona é bem informada, não?!
O pior é que segundo a ONU, o conceito de nação é um conceito de soberania e as áreas demarcadas têm nome de nação indígena, o que pode levar os americanos a alegar que estão libertando os povos indígenas.
Fiquei sabendo que os americanos já estão construindo uma grande base militar na Colômbia, bem próximo da fronteira com o Brasil numa parceria com o governo colombiano com o pseudo objetivo de combater o narcotráfico.
Por falar em narcotráfico, aqui é rota de distribuição, pois, essa mãe chamada Brasil mantém suas fronteiras abertas e aqui tem estrada para as Guianas e Venezuela. Nenhuma bagagem de estrangeiro é fiscalizada, principalmente se for americano, europeu ou japonês (isso pode causar um incidente diplomático).
Pergunto inocentemente às pessoas, porque os americanos querem tanto proteger os índios? E a resposta é absolutamente a mesma:
- Porque as terras indígenas, além das riquezas animais e vegetais, da abundância de água, são extremamente ricas em ouro (encontram-se pepitas que chegam a ser pesadas em quilos), diamante, outras pedras preciosas, minério e nas reservas norte Roraima e Amazonas, ricas em PETRÓLEO!
Parece que as pessoas contam essas coisas como num grito de socorro a alguém que é do sul, como se eu pudesse dizer isso ao presidente ou a alguma autoridade do sul que vá fazer alguma coisa.
É pessoal… Podemos ter certeza de que em breve o Brasil irá diminuir de tamanho. Será que podemos fazer alguma coisa?
Texto de: Juliana Moreira
Extraído de “O Democrata” edição de 16 de outubro de 2004.”
E aqui segue o “endosso” do texto acima:
“Loscar, infelizmente… é verdade. Tenho um aluno na faculdade (CIESA) que durante muitos anos trabalhou na EMBRATEL e viajou pelo interior do Amazonas. O mesmo, em conversa comigo, falou que viu alemães com diamantes nas mãos…. Ele, para realizar manutenção na antena que fica na floresta, precisou da presença do Exército (um oficial o acompanhava) e teve de pedir permissão para uma ONG Alemã (que se encontra no território brasileiro) para adentrar a mesma e realizar a manutenção… Os deputados federais sabem disso mas, não sei por que razão não fazem nada… Precisamos descobrir como são esses “acordos entre o Brasil e as ONGS”. Creio que você, estrategicamente bem localizado” pode conseguir algo por aí”.
Infelizmente, como toda teoria conspiratória, não tenho como provar 100% do que digo, afinal não são relatos pessoais, mas sim de terceiros. Porém acho que deixei aqui bastantes indícios de que a conspiração (ou seria fato?) existe e me assusta. Deveria assustar vocês também!
Só pra registro, a área correspondente à Amazônia não tem fotos de alta resolução no Google Maps. Apenas as áreas oficialmente particulares e os grandes centros da região tem fotos detalhadas.
Colaborou: Loscar Affonso
Leia mais:

16 novembro, 2010

O Draconiano – Livro 1

Começo a mostrar para vocês esta obra GRATUITA que esta na net. Do escritor Fernando “Tucano” Russell, O Draconiano é uma obra que inspirou e levou vários nerds para este incrível mundo da literatura.
Durante muito tempo, após as unificações dos reinos dos homens, todo o continente de Enthär passou por um período conturbado, com inúmeras guerras de fronteiras.

Os vários feudos do leste se uniram em estados, com o poder centralizado nas mãos de um nobre mais forte, que se tornava rei. Nessa época, anões e elfos se mantinham afastados e era raro vê-los fora de seus reinos, Driev e Kendal.

Dentre os reinos recém-formados destacou-se Dracon, que adotou uma postura austera e conquistou a amizade dos elfos. Dracon era uma grande ilha no Mar do Leste, rica em minérios e em terras férteis. Isso despertou a cobiça dos reinos vizinhos.

o-draconiano-bnr

Pegando esta área de resenhas e críticas, resolvi fazer uma jaba para quem merece. Vou utilizar esta área e falar de livros de pessoas que estão ai, lutando para crescerem neste mundo selvagem e conturbado, que é o mundo literário.
Muitos escritores ja me enviaram arquivos pdf com suas obras questionando se eu poderia comentar aqui no blog, não havia feito isso antes, pois colocar um livro novo aqui no blog, não teria visibilidade nenhuma. Mas com o número crescente de acessos, acredito que chegou a hora.

Passado em um mundo fantástico medieval, inspirado em aventuras de D&D e no mundo de Senhor dos Anéis, diga-se de passagem trechos da história me fez lembrar o Silmarillion. O Livro 1 tal qual uma aventura de RPG, começa com um encontro de dois personagens, velhos amigos, Ruprest e Patton. Que depois de muita cerveja e hidromel iniciam uma aventura através de terras estranhas, ruínas ditas assombradas e enfrentam inimigos onde quer que eles apareçam.

A história se desenvolve num ritmo amigável. Novos personagens aparecem enquanto o livro vai engrossando e a trama se adensa. Batalhas épicas são travadas e tudo isso em volto de paixões e passagens comicas. O bom humor do Tucano esta em todo este livro, tornando uma leitura bem agradável.

Eu não quero dar spoilers, pois quero que vocês leiam, mas quem gosta de aventuras neste estilo e quem ja jogou rpg alguma vez na vida, vai começar a ler este livro e não vai parar mais. A pena que o livro 1 acaba e você fica na expectativa da continuação… só que o Tucano esta aparentemente sem tempo para continuar. Por isso vamos incomodar ele para que volte a escrever Draconiano.

É isso. Fiquei sabendo pelo Twitter do Tucano, que o site O Draconiano vai sair do ar. La esta disponível o pdf do livro, aproveitem enquanto o site esta la e façam o download. Mas caso o site ja não esteja mais no ar, falem com o Tucano pelo seu Twitter, ou acessem seu blog Câncer de Jack e peçam o livro Draconiano. E não deixem de incomodar ele e pedir para ele continuar a escrever O Draconiano.

E se quiserem ler outras obras deste escritor nerd, fiquem ligados na área de contos do site Jovem Nerd, la esta Sitala, conto pós apocalíptico e em breve um novo conto, 1.000 olhos?!?

O Draconiano é um livro de Fernando Russell, escrito entre os anos de 1998 e 2008 e tem como único objetivo trazer um pouco de lazer para os (assim como eu) afixionados em histórias de fantasia. A arte do livro foi parcialmente produzida por Christiano Flexa e a correção ortográfica foi gentilmente feita por Lúcio Nunes.

15 novembro, 2010

1000 Olhos – Parte 9

1000 Olhos é um conto seriado de Fernando “Tucano” Russell, publicado mensalmente no Jovem Nerd. Perdeu o início? Confira aqui!

INVASOR SORRATEIRO


Depois de sete horas ininterruptas treinando as majestosas aves do rei, Draszen pode finalmente seguir para o palácio para encontrar Izbaza. Para todos os efeitos, ele e a aia da rainha tinham reatado o noivado. No entanto, o relacionamento era apenas um embuste para deixá-lo mais próximo dos colóquios palacianos.

Como de costume, Draszen apareceu na ala dos servos e beijou a testa de Izbaza. De cima da mais alta torre, a Rainha Smiliana observava o casal, satisfeita por ver sua aia predileta novamente junto ao falcoeiro.
Os dois conversaram por algum tempo sobre assuntos fúteis e ao cair da noite, passaram a arquitetar a entrada de Draszen no palácio. Inicialmente, o falcoeiro pensou em se esconder no dormitório de Izbaza, pois se fosse pego, todos pensariam que se tratava de uma invasão puramente lasciva de um noivo apaixonado e cheio de volúpia. Mas o plano foi logo abandonado, quando a jovem contou sobre a crise conjugal do casal real.

- Fazem semanas que a rainha dorme com todas as suas aias em volta da cama. O rei está dormindo em um aposento separado. Minha senhora mal fala com o esposo, desde que ele começou a extrapolar sua paixão por pássaros. 

- Mas ele sempre foi louco pelos falcões. Ele até mudou o emblema do reino - retrucou Draszen.

- Sim, mas agora ele passa os dias e as noites lendo sobre pássaros fantásticos de outros continentes. Diz também que organizará uma expedição para trazer aves de caça orientais. Há dias em que o rei se esquece até de se alimentar. E a rainha, embora estivesse preocupada no início e tentasse ajudá-lo, não suporta mais esse comportamento doentio.

- Agora que você está me contando, me recordo de ter ouvido uma ou duas histórias na taberna. Mas pensei que eram puramente escárnio dos soldados. Não tinha conhecimento desses acontecimentos – disse o falcoeiro baixando os olhos desolado.

- Fique calmo - disse a aia, retomando ao estratagema – descobri uma passagem subterrânea, que não sei para que serve, ou por quem é usada, mas é quase perfeita. Ela vai do bosque até um escritório bem próximo ao templo de Nrude.

- Fiquei observando algum tempo e não vi ninguém se aproximar. Minha única dúvida é se você consegue passar, pois o caminho é estreito e você muito largo.

Draszen deu um largo sorriso imaginando se aquilo era ou não um elogio e respondeu baixinho:
- Vamos ver essa passagem, então.

Os dois se certificaram de que a rainha não os observava mais e que nenhum soldado estivesse atento e seguiram para o bosque do palácio. Apesar da cautela, o bosque era um lugar em que um casal não levantaria suspeitas. Não era raro que soldados levassem aias palacianas para o meio das árvores para saciar seus desejos carnais.

Izbaza tomou a frente para guiar o cúmplice e em meio a arbustos e pedras, desvendou a entrada da passagem subterrânea. Draszen examinou o buraco e reconheceu que a passagem era estreita demais.

- Você já seguiu esse caminho?

- Sim, há duas noites eu me esgueirei por ele para saber exatamente onde ia dar – revelou a jovem.

- E a passagem se estreita ainda mais, ou continua nessa largura?

- Se estende por todo caminho, mas a saída é mais apertada um pouco. O que você acha?

- Talvez, se você conseguir um pouco de azeite de peixe da cozinha, eu passe mais fácil. O buraco é realmente bem estreito.

A jovem fez que sim com a cabeça e correu em direção ao palácio, para buscar o óleo. Draszen se refugiou próximo a um grande salgueiro e esperou o retorno da jovem.

Alguns minutos depois, o guerreiro estava sem camisa com o corpo besuntado com o azeite de peixe. O odor era forte e a sensação estranha, mas o sacrifício, necessário. Com o tórax brilhando à parca luz das estrelas, o falcoeiro se arrastou pela passagem.


Como Izbaza havia detalhado, o pequeno túnel se mantinha com as mesmas dimensões durante todo seu percurso. Como um verme, Draszen se moveu durante muito tempo até chegar a um ponto onde uma portinhola de madeira impedia a passagem.

Por alguns instantes ele se apavorou e duvidou de sua cúmplice. Seria uma armadilha de Izbaza? – pensou. Por que outro motivo ela não diria nada sobre aquele obstáculo? Como poderia voltar daquele ponto?

Um surto claustrofóbico fez seu coração acelerar e sua respiração ficou difícil. Mas, colocando os pensamentos em ordem, Draszen se acalmou e tentou ouvir os possíveis sons por de traz da porta. Nada. O falcoeiro não ouviu nenhuma voz ou ruído e resolveu forçar a passagem.

Mesmo sendo um homem forte, Draszen não teve sucesso empurrando a portinhola e mais uma vez o desespero se aproximou. Com o movimento dos braços limitados pelas paredes da passagem, o guerreiro não podia fazer muita coisa. Decidiu então tatear a portinhola e descobriu uma tranca.

O alívio chegou quando ele puxou a tranca para o lado e a porta se abriu suavemente. Apesar disso, Draszen não conseguiu ver o que estava a sua frente, pois nenhuma vela ou lamparina estava acesa. Menos mal, pois isso também indicava que não havia ninguém por ali.

Com um esforço violento, Draszen conseguiu passar pela passagem que ficava no alto de uma parede. Pensou como fora providencial o azeite de peixe no corpo e de como seria triste seu fim, caso não estivesse tão escorregadio. O falcoeiro agradeceu a Nrude e passou a tatear as paredes para descobrir um caminho para fora do cômodo.

Tropeçou em um baú e derrubou algo que nem imaginava o que fosse. Temeu ser descoberto por causa do barulho que estava fazendo, mas não tinha escolha. Amaldiçoou a situação. Encostou-se em uma parede, recuperando a calma e arrastou as costas até encontrar uma porta. Esperou alguns minutos com o ouvido encostado nela, para saber se tinha alguém do outro lado.

O silêncio era total, mas ainda assim, poderia haver um sentinela no corredor, que nesse caso, não faria barulho.

Mesmo sem ter toda certeza, abriu sorrateiramente a porta.
O guerreiro levou a mão à cintura, procurando encontrar o pomo de sua espada, mas lembrou que não a levara. Olhou pela fresta da porta e viu o corredor iluminado por tochas, mas nenhum guarda ou servo.

Passou tacitamente pela porta e seguiu pelo corredor. A tapeçaria pendurada nas paredes o fez lembrar do lugar. Certamente estivera ali algumas vezes, quando acompanhara a realeza ao templo de Nrude. Resgatou da memória o caminho e com mais alguns passos estava de frente para a porta dupla do templo.

Era uma porta soberana, talhada em carvalho polido e com adornos prateados. Era uma entrada majestosa para o salão de mármore branco onde os nobres devotavam sua fé ao deus Nrude.


Mais uma vez, o guerreiro esperou para ouvir os sons que poderiam vir por de traz da porta. No entanto, aquela era uma porta mais espessa, feita com madeira maciça, o que dificultava sua investigação.

Sem outra alternativa, resolveu abrir a porta com cuidado. Com uma pequena fresta aberta, observou todo o campo de visão que lhe era permitido. Viu as colunas brancas que sustentavam o teto decorado e enxergou os acentos do lado esquerdo junto às estátuas de gesso… Mas ainda não era o bastante.

Abriu mais um pouco a fresta e imediatamente entrou em pânico. Vira Goran próximo ao altar, com sua espada na mão. O mais ligeiro possível, fechou a porta e deu meia volta. Era muito azar, pensou pessimista.
- Onde estou com a cabeça? Questionou em um murmúrio lamentoso.

Correu de volta para o aposento, corroído pela incerteza de ter sido visto pelo chefe da guarda. Os pensamentos estavam embaralhados, mas decidira acreditar que o rival não poderia tê-lo percebido.

- Ele estava de costa, eu acho – disse baixinho. Eu fui bem rápido, ele não me viu – repetiu algumas vezes, tentando se convencer.

Engoliu em seco e em só movimento arrancou uma tocha do corredor, voltando ao recinto de onde havia saído há pouco. Vislumbrou pela primeira vez ao escritório que Izbaza descrevera, horas antes. Empurrou o baú para perto da portinhola de madeira de onde saíra para facilitar sua saída e resolveu voltar ao bosque.

Draszen chegou a subir no baú, mas quando se preparava para se esgueirar pelo buraco, lhe ocorreu que aquele aposento deveria ser importante, ou a passagem não terminaria ali. Decidiu então explorar o recinto.

Usando a tocha, acendeu um castiçal que estava em cima de uma escrivaninha e passou a procurar por alguma pista. Viu inúmeros livros, mas não pôde saber do que tratavam, pois não sabia ler. Encontrou alguns pergaminhos com gravuras que pareciam importantes e imaginou que aquele seria um escritório de um erudito.

Notou gavetas em uma cômoda e achou mais papeis antigos e um deles lhe chamou a atenção. Era uma gravura colorida de um pássaro exuberante que trazia em cada pena de sua calda e asas um olho vermelho.


Dobrou esse pergaminho e guardou-o dentro das calças. Afobado, o falcoeiro continuou vasculhando as gavetas da cômoda e achou uma chave de ferro. Instintivamente, sentiu que a fechadura daquela chave estava ali e começou a revirar o cômodo de cima a baixo.

Quis abandonar a busca ao ouvir passos do lado de fora, mas o silêncio retornou e ele continuou sua busca até encontrar uma nova portinhola escondida atrás da cômoda.

Olhou a sua volta e viu o estrago que havia perpetrado. Tudo estava fora do lugar e não sabia quanto tempo havia ficado dentro do palácio. Repentinamente, aproximou-se resoluto da portinhola. A chave, recém encontrada, foi colocada na fechadura e girando-a duas vezes, destrancou a pequena passagem.
Draszen entrou pelo acesso e teve a certeza de que aquela era a maior loucura de sua vida.

História: Fernando Russell @cancerjack
Ilustrações: Victor Negreiro @estivador
Revisão: Lucio Nunes @Lucio_N

Fonte: JovemNerd

03 novembro, 2010

Eduardo Spohr: "Os anjos são como super-heróis"

Inspirado na Bíblia e na cultura nerd, 'A batalha do Apocalipse', de Eduardo Spohr, se tornou um hit na internet e ameaça a hegemonia dos vampiros nas livrarias.
 
Por Danilo Venticinque
 
A mais nova revelação do mercado editorial brasileiro veio dos céus - e do Rio de Janeiro. Aos 34 anos, o escritor carioca Eduardo Spohr invadiu com seu romance de estreia um espaço raramente desbravado por autores nacionais: a lista dos livros mais vendidos de ficção. Em A batalha do Apocalipse, o autor narra o confronto entre anjos caídos e exércitos celestes, em uma guerra que pode pôr em risco toda a humanidade. Uma boa parte do sucesso da obra se deve à internet. Antes mesmo de ser publicado por uma grande editora, o livro já havia atingido a invejável marca de 4.500 exemplares impressos de forma independente e vendidos num site dedicado ao público nerd. Editado recentemente pela Verus, um selo pertencente à editora Record, A batalha do Apocalipse já esgotou sua tiragem inicial de 10 mil exemplares e ameaça superar os livros sobre vampiros, habituais campeões de vendas no país.

ÉPOCA - Há quanto tempo você escreve livros?
Eduardo Spohr
- Este é o meu primeiro livro a ser publicado, mas escrevo desde a minha infância. Tenho muitos cadernos com contos e romances que nunca vou mostrar para ninguém. A batalha do Apocalipse é o meu primeiro livro publicável. Sempre dou essa dica para quem me pergunta o que deve fazer para se tornar um escritor: escrevam o máximo que puderem e guardem os primeiros trabalhos, porque eles sempre são horríveis.

ÉPOCA - De onde surgiu a ideia de escrever sobre anjos?
Spohr - Eu sempre viajei muito, porque meu pai é piloto de avião. Pude viajar de graça para vários países quando era mais novo e conheci várias culturas e religiões. O fato de eu não ter religião permitiu que eu tivesse uma visão um pouco mais geral, e eu via que os anjos estavam presentes em muitas delas. Também passei por aquela paranoia da Guerra Fria nos anos 70 e 80, quando se falava muito no apocalipse, que seria causado por um confronto nuclear. Depois, já na década de 90, comecei a jogar RPG com um grupo de amigos e comecei a inventar histórias de apocalipse e anjos. Vários personagens de A batalha do Apocalipse foram criados nessa época. Depois foi só organizar essas histórias e colocar no livro.

ÉPOCA - Você demorou muito para passar a ideias do jogo para o papel?
Spohr - Eu só comecei a escrever o livro em 2003, quando a bolha das empresas de internet explodiu e eu fiquei dois anos desempregado. Eu era jornalista de um portal que faliu, e o mercado estava muito difícil. Foi um período duro, e eu quis voltar o meu ócio para algo criativo. Por volta de 2005 o livro estava pronto.

ÉPOCA - Como o livro se tornou tão popular?
Spohr - O sucesso do livro nasceu na internet se espalhou e depois chegou à mídia "offline". Eu participava como convidado no Nerdcast, uma espécie de programa de rádio na internet para nerds. O site não é meu, mas eu era chamado com frequência e acabei ficando conhecido nesse meio. O pessoal do programa leu o meu livro e sugeriu que eu o vendesse na Nerdstore, uma loja online que vende alguns produtos do site, mas eu tinha muito poucos exemplares. Só comecei a vender em 2007, depois que ganhei um concurso de uma gráfica pequena, que me deu como prêmio uma tiragem de cem exemplares do livro. Eu os coloquei à venda no site e foi um sucesso: os cem foram vendidos em menos de cinco horas! Logo depois fiz uma tiragem de 400, que também se esgotaram rápido. Em 2009 resolvi pôr a mão no bolso e imprimi 4 mil exemplares para vender no mesmo site. A edição se esgotou em menos de 5 meses. Isso chamou a atenção das editoras grandes, e acabei recebendo um convite da Record, que publicou o meu livro com o selo Verus. Logo me disseram que queriam lançar o livro com uma tiragem inicial de 10 mil exemplares. Eu fiquei um pouco assustado. Pensei que seria uma tiragem menor, de uns 3 mil exemplares, porque assim o risco seria menor. Mas o livro foi lançado em junho e em menos de dois meses os 10 mil exemplares já estavam esgotados.

ÉPOCA - Você imaginava que o livro faria tanto sucesso?
Spohr - Foi uma surpresa. Eu não tinha a menor ideia de que seria tão rápido. A editora deu uma boa força na divulgação. O livro tem uma boa exposição nas livrarias, a capa ficou muito bonita e também há propagandas em alguns cinemas.

ÉPOCA - Como foi o processo de pesquisa para escrever o livro?
Spohr - Não foi uma pesquisa gigantesca, porque a pesquisa não pode ser mais importante que os personagens. Mas sempre gostei do tema e sempre estive em contato com ele. Li algumas passagens do Velho Testamento e o Apocalipse da Bíblia. Também li alguns livros apócrifos e de mitologia, mas tudo isso está no livro apenas como uma inspiração. É uma aventura de ficção, acima de tudo.

ÉPOCA - Você também se inspirou na cultura nerd?
Spohr - Foram muitas as referências. Me inspirei um pouco em Matrix, em Highlander... As lutas entre os personagens têm influência de Cavaleiros do Zodíaco - assisti muito a esse desenho na minha infância, tenho alguns bonecos até hoje. Os anjos no meu livro são como super-heróis. E alguns autores influenciaram bastante o meu estilo: O J. R. R. Tolkien, da trilogia Senhor dos Anéis, o Stephen King e o Robert E. Howard, criador do Conan.

ÉPOCA - Algumas cenas importantes do livro se passam no Rio de Janeiro, em cenários como o Cristo Redentor e a ponte Rio-Niterói. Por que você decidiu colocar a cidade em um livro sobre anjos?
Spohr - Quis colocar o Rio de Janeiro no livro para me aproximar de meus leitores. Achei que poderiam estranhar as paisagens cariocas em um livro de literatura fantástica, mas as pessoas gostaram, teve uma boa receptividade. E acabou sendo um diferencial, porque não há outras histórias de fantasia desse tipo que se passam no Brasil. Aliás, em muitas livrarias meu livro acaba sendo colocado nas prateleiras de literatura estrangeira, porque muita gente acha que não existe literatura desse tipo aqui.

ÉPOCA - Os anjos e o apocalipse têm um significado religioso profundo. Você recebeu críticas pela maneira como abordou esses temas em seu livro?
Spohr - Por incrível que pareça, não. Um amigo meu até falou que pessoas mais religiosas poderiam considerar o livro herético, mas todo mundo que leu o livro entendeu que é uma obra de fantasia e não reclamou de nada. Recebi críticas de pessoas que não leram o livro, mas isso não é novidade.

ÉPOCA - Já há planos para escrever outro livro sobre o mesmo tema?
Spohr
- Estou escrevendo uma trilogia baseada nesse universo, mas com outros personagens do mundo celestial. Vai ser um desafio, porque eu era muito apegado aos personagens de A batalha do Apocalipse. O anjo renegado Ablon, por exemplo, é o personagem que eu sempre quis ser. Também vamos tentar vender os direitos do livro na Feira de Frankfurt, para que ele seja publicado em outros países. Acho difícil que consigamos algo neste ano, porque está muito em cima da hora, mas seria muito legal.

28 outubro, 2010

Samurai Errante – Emanações


Confira mais do talento de Leandro Caracciolo no blog Nanquim na Unha. VAI!

27 outubro, 2010

SITALA – Parte 8 – FINAL

Sitala é um conto seriado apocalíptico de Fernando “Tucano” Russell, com ilustrações de Brunner Franklin.
Perdeu o início? Confira aqui!


Eu estava exausto. Mais do que o cansaço físico, o estresse daquela situação me deixou a ponto de cair de joelhos e pedir para Deus me levar – mais uma vez. Minhas têmporas estavam latejando e eu quase não conseguia raciocinar.

Já era tarde da noite e o espanhol não chegava. Ruslana estava próxima à janela, vigiando a rua. Eu, do outro lado da torre, brigava com meus olhos para que não se fechassem. Pálpebras pesadas. Maldita areia do João Pestana.

- Americano! Tem um carro se aproximando com os faróis apagados. Deve ser Javier – disse Ruslana, de súbito. 

- Mais fácil que sejam os orientais – retruquei, me aproximando da janela. Saia daí antes que te vejam. 

Cheguei bem perto de Ruslana e vi o movimento na rua. Não era um dos carros dos Dragões, com certeza. Mas poderia ser qualquer um, então, puxei a russa pelo braço e descemos as escadas.

Quando chegamos à nave principal da igreja, fui até o altar e me entrincheirei atrás dele. Estava tudo escuro e a única iluminação era a luz das estrelas atravessando os vitrais coloridos, que retratavam o calvário de Cristo.

A porta da Igreja se abriu lentamente e vi três vultos entrando. Não pude identificá-los, mas percebi que dois estavam mancando.

Quase disparei, porque meu dedo tremia ao encostar no gatilho da Kalashnikov.

- Javier! – disse Ruslana, em novo rompante.

Segurei forte o fuzil e mais uma vez, por pouco meu dedo não puxou o gatilho. Como aquela maluca podia saber que era Javier? E se fossem Dragões, ou Hooligans enlouquecidos?

- Ruslana! – respondeu o espanhol.

Merda. Para variar, ela estava certa. E eu? Droga, eu parecia uma criança ingênua. Todos sabiam mais do que eu, eram mais perspicazes e determinados do que eu. Eu era um coadjuvante quase sem importância.
Aquilo me deprimiu.

Javier e dois Hooligans se aproximaram. Um deles era Will, que me olhou e deu um largo sorriso, levantando uma metralhadora enorme com o braço direito. O outro eu não conhecia, mas tinha uma ferida horrível numa das pernas e o corpo repleto de sangue. Não consegui tirar o olho daquele ferimento e só voltei a mim com a voz do espanhol:

- Isso é o que acontece quando se toma um tiro com balas explosivas, garoto. 

Olhei para Javier e me lembrei de tudo que tinha ouvido da boca de Ruslana.

- Espere Javier – ordenei – Não se aproxime. Você tem muito o que me explicar.

Javier ignorou minhas ordens e continuou vindo em direção do altar.

- Agora não, americano. Os orientais vão chegar aqui em alguns minutos. Me ajude com isso – disse ele, empurrando o altar.

Automaticamente larguei minha arma e o auxiliei. Percebi que sua perna também estava machucada. Não como a do irlandês, mas igualmente coberta de sangue.

Com a ajuda de Ruslana e Will, tombamos o altar que escondia um alçapão de madeira. Na hora, lembro-me de que achei que fosse um depósito, mas não. Aquele alçapão era entrada para uma rede de túneis que atravessava toda Cork.

- Saída para Londres, hermanos – disse o espanhol.

Ruslana deu um sorriso, mas não teve tempo de expressar sua alegria com palavras.

Um tiro no escuro atravessou seu peito, espalhando seu sangue no meu rosto.


- Puta madre!!!! – gritou Javier,abrindo fogo contra o vitral da igreja.

Eu e Will ficamos novamente atrás do altar, mas o hooligan que tinha a perna ferida não teve a agilidade para se juntar a nós. Teve a cabeça arrancada por um tiro certeiro.

Javier saltou para dentro do alçapão e puxou o corpo de Ruslana. Will me mandou entrar no buraco também, mas ao invés de me seguir, fechou o alçapão.

Foi a última vez que o vi.

O que ele fez em seguida, eu apenas imagino. Afinal, ouvi barulho de tiros durante mais de um minuto, tempo suficiente para que conseguíssemos nos afastar.

O espanhol arrastou o cadáver da russa por mais alguns metros e depois parou para se despedir dela. Eu estava assustado, mas tive a decência de me virar de costas para deixá-lo à vontade. Segundos depois, senti a mão do espanhol no meu ombro.

- Vamos embora – disse ele. – A morte de Ruslana não foi em vão, Ezekiel.

Corremos o mais rápido que o túnel – e a perna de Javier – permitiam. Era uma construção rudimentar, como uma mina de carvão iluminada por parcas lâmpadas incandescentes. Claro, eu nunca tinha entrado em uma mina de carvão, mas assisti a alguns filmes em que eles sempre andavam com um canário na gaiola. Senti falta de um canário!

Depois de correr por pelo menos uns trezentos metros, Javier parou,virou-se e abaixou um interruptor. Antes que eu perguntasse o que era aquilo, ele me puxou pelo braço e me disse para correr mais rápido ainda.

A explosão foi brutal. Senti pedras me atingindo nas costas, nas pernas e na cabeça, mas não parei de correr e nem olhei para trás, até ouvir novo comando de Javier.

- Isso vai nos dar tempo, hermano.

Caminhamos por horas em túneis que cada vez ficavam mais estreitos. A luz era escassa, mas o espanhol sabia onde ia. Eu o segui com uma mão em seu ombro e a outra segurando o fuzil.

Apesar do péssimo momento, ele ainda teve ânimo para uma piada, que demorei a entender. Mas, depois, lembrou-me dos filmes antigos que vimos juntos em sua casa, em Youghal:

- Cuidado, daqui a pouco chegaremos ao covil de David Lopan

Paramos para descansar duas vezes antes de chegarmos ao final do túnel. Na parte final do caminho, minha cabeça já raspava no teto e tínhamos que andar encurvados. Javier começou a imitar o Quasimodo.

Bem, talvez você que está lendo esse meu diário não tenha tido o prazer de ler Victor Hugo, mas o desgraçado conseguiu me fazer esquecer a tensão por alguns segundos interpretando o corcunda.

Naquele momento eu tive certeza de que Ruslana estava equivocada. Aquele cara não podia estar tramando o fim do mundo. Não só pela sua personalidade, mas pelas ações e pela sua conduta de vida, que eu admirava todos os dias.

- Espera um poco, um poquito mas, para elevar te mi felicidad - cantarolou ele ao se deparar com o final do túnel. Estávamos diante de uma escada de ferro cravada na parede, que levava à superfície.

Ri da música que ele cantou, mas ele me olhou sério e continuou:

- Espera un poco, un poquito más. Me moriría si te vas – cantou ele com uma lágrima escorrendo em um dos olhos.

Entendi que aquele lamurio piegas o fazia lembrar de Ruslana, não sei bem porque, então me calei e o segui escada acima.

A escada levava a um galpão quase vazio. Quase, porque era enorme e a única coisa que estava guardada naquele lugar era um humvee preto equipado com uma metralhadoras .50 no teto.

- Nossa passagem para Londres – disse o espanhol.

Javier foi até a entrada do galpão e abriu uma fresta de um portão de correr. Botou a cabeça para fora e depois abriu o portão completamente.

Era dia e, graças a Deus, não havia nem sinal dos orientais por ali. O plano de fuga parecia perfeito. E pela primeira vez desde a confusão no estádio, eu tive certeza que conseguiríamos escapar.

- Para o carro. Você é o artilheiro, eu o piloto.

Partimos pela pista de pouso de um pequeno aeroporto. As aeronaves pareciam novas e estavam intocadas, como se alguém cuidasse delas como peças de arte. Eu observava a tudo com a cabeça para fora, pelo teto solar.

- Uma pena que não tenhamos combustível para essas máquinas. A viagem seria muito mais rápida - gritou ele para que eu ouvisse.

- Você sabe pilotar aviões, Javier?

- Ora, e quem não sabe?

Seguimos uma estrada para o norte. Era uma estrada alternativa que nos levaria a Wexford. Dizia Javier que lá encontraríamos uma balsa para atravessar para Gales sem chamar atenção.

- Não se preocupe, hermano. Vamos completar nossa missão – disse ele no banco da frente, exibindo o frasco que Ruslana carregava consigo.

- Javier, precisamos conversar sobre essa missão. Do que se trata? – insisti, me acomodando no banco do carona.

- Vamos livrar o mundo, Ezekiel. Livrá-lo do que há de mais tóxico e letal: o ser humano. O planeta não merece tudo o que fazemos. E se isso não for feito agora, não teremos outra chance. Se falharmos, o planeta vai se tornar o inferno.

- Ruslana já me falou isso, mas eu duvidei que você fosse a favor. Imaginei que você estaria ajudando sem saber o que ela tinha em mente.

- A idéia é minha, Ezekiel. Eu a convenci.

- Mas, e aquela história de morar no campo e ter uma família? Você me disse que se arrumasse uma mulher sem pústulas viveria num lugar afastado. Você poderia ir com Ruslana para uma casa no campo.

- Daí viriam os Dragões e destruiriam minha casa, matariam Ruslana e nossos  filhos e acabariam com a minha vida. E se não fossem os Dragões, seria a torcida adversária, ou um vizinho filho da puta. 

- Eu não acredito! Você teve nas mãos a mulher mais linda que eu já vi na vida e uma chance de recomeçar a vida e não quis nem tentar?

– Garoto, Ruslana está enterrada em escombros debaixo de uma igreja em Cork. Você acha que se não tivéssemos nosso plano, alguma coisa seria diferente? 

Minha voz quase nem saiu, mas eu ainda retruquei:

- Mas, você nem tentou…

Javier estava com a cara fechada. Dava para ver que aquele assunto tinha se esgotado para ele. Mas eu não podia deixar aquele plano insano ser levado à diante. Comecei a me desesperar. Pensei em me jogar do carro em movimento, mas aquilo não ia adiantar nada. Javier estava obstinado a cumprir sua missão.

- Eu não devia ter saído da América - murmurei, baixando a cabeça por entre os joelhos.

- Por que? Acaso achas que na América as coisas são melhores? Você estudou história quando era criança, Ezekiel? Ou só lhe ensinaram religião?

Tentei responder, mas o espanhol estava cada vez mais enfurecido e não parava de falar:

- Os yankes são os Dragões do passado. O que eles fizeram antes da pandemia nem se compara aos grandes destruidores. Bilhões de litros de agentes poluentes jogados na atmosfera por chaminés de industrias que fabricavam armas. Armas com munições revestidas com urânio que fizeram os índices de câncer em crianças aumentar em 400%. Embargos econômicos que fizeram nações perecerem de fome. Intervenções em culturas dos quatro cantos do mundo. Se meu plano existe, é porque eu vi o que seus pais e avós fizeram ao mundo. 

Ele falou durante muito tempo, mas eu já nem ouvia mais. Fui para o banco de trás do veículo. Aquilo tudo era muita coisa para eu digerir. Eu estava zonzo e perturbado com aquela situação, mas ainda pude ver que uma pistola repousava presa ao assoalho do humvee.

Javier continuou a gritar, misturando castelhano com inglês e sabe-se lá qual língua mais. Para mim era tudo um zunido infernal.

Desprendi a pistola e a segurei com minha mão trêmula.

Como tudo na minha vida, até aquele momento, eu só fui perceber o que estava fazendo muito tempo depois.
Posso dizer que puxei o gatilho pensando em fazer aquela loucura parar. Na hora, não passou pela minha cabeça que eu estava selando o destino da humanidade.


Bola de neve.

Os miolos de Javier se espatifaram contra o parabrisas do carro e eu vomitei mais de uma vez. Soltei a pistola e chorei como criança. Eu admirava aquele cara e quase entendia o que ele pretendia, mas meu coração me mandou fazer o que achava certo naquele momento.

O carro saiu da estrada e foi parando aos poucos. Desci do carro, respirei fundo, vomitei de novo e caí de joelhos.

Apesar de tudo, achei que Javier merecia um funeral, então rapidamente comecei a cavar uma cova. Pensei em fazer uma cruz, mas achei que um ateu não ia querer nenhum símbolo religioso em seu túmulo. Então improvisei com a camisa dos Celtics.


Enterrei com ele o frasco de Ruslana. Todo o mal que aquilo causaria, deveria ficar ali, enterrado com seu mentor.  O mundo nunca conheceria o fim da humanidade. Pelo menos, não por causa daquele frasco.
Limpei o vidro do humvee e guiei até Wexford. Lá, encotrei a balsa que me levou ao país de Gales. O condutor da balsa me desejou sorte na minha missão. Ele nem imaginava o que eu havia feito.

Segui até Londres, mas não fiquei por lá. Fui até o continente, conheci a Cidade Luz, troquei de carro umas três ou quatro vezes. Matei várias pessoas que tentaram me roubar ou me matar. Desci para a Itália e passei dois meses em Roma, até decidir que iria para Israel.

Hoje é meu último dia em Jerusalém. Minhas tropas partem nessa madrugada e eu vou tentar desfazer um erro que cometi há quase trinta anos.

Para quem acessar esse diário, que fique claro que meu desejo nunca foi o mal, mas eu não entendi as palavras de Javier. Azrael disse um dia: Prefiro a destruição total e a inexistência do que voltar para o inferno.
E foi justamente no que se transformou o mundo: um inferno. Os Dragões invadiram toda a Europa, parte da América e tornaram a existência uma tortura insuportável para todos sob seu domínio.

Mas nós vamos lutar e, embora meus soldados não saibam das minhas reais intenções, nós vamos livrar o mundo de nossa existência.



FIM


Texto: Fernando “Tucano” Russell
Ilustrações: Brunner Franklin
Revisão: Lucio Nunes
Cores: Rodrigo Valente

Fonte: Jovem Nerd

25 outubro, 2010

1000 Olhos – Parte 8

1000 Olhos é um conto seriado de Fernando “Tucano” Russell, publicado mensalmente no Jovem Nerd. Perdeu o início? Confira aqui!

DE VOLTA À LABUTA


Sentado em uma banqueta de madeira, forrada com couro de boi, Draszen refletia em sua casa. Tinha uma nova missão e, para cumpri-la, era preciso arquitetar um plano meticuloso, que não colocasse tudo a perder.
A contragosto, porém, sua concentração foi subitamente interrompida. O barulho, ainda ao longe, era familiar para seus ouvidos acurados. Cavalos se aproximavam. O falcoeiro, então, inclinou as costas para trás e aproximou-se da janela, com uma das mãos apoiada na parede. Por uma fresta desvendada na cortina, passou a acompanhar o movimento do lado de fora.


Seus olhos azuis se arregalaram quando notou a presença do rei Andras em meio a uma grande comitiva de cavaleiros. Apesar de toda amizade cultivada durante anos, o monarca nunca havia lhe visitado. O que testemunhava era algo, até então, inconcebível.

Levantou-se apressadamente. Puxou a blusa de lã grosseira, tentando ajeitá-la ao corpo. Deixou a espada embainhada em cima da mesa, mas cobriu-a com o manto vermelho dado por Izbaza, antes de sua partida.
Tão logo a trombeta tocou anunciando a presença do soberano, a porta da casa foi aberta por Draszen. O rei estava montado em um corcel branco. Seu semblante era austero. Seus olhos estavam semi cerrados, com o olhar frio como o inverno.

- Draszen, meu bom amigo. Me permita adentrar em seu lar para lhe fazer um pedido desesperado – disse o rei, finalmente demonstrando alguma emoção.

Refeito do susto de ver o monarca, o falcoeiro analisou o cenário e notou a presença de Goran e de mais quinze soldados acompanhando o nobre. Sentiu vontade de se lançar num ataque contra o traidor, mas preferiu a cautela. Já havia se convencido, após muito relutar, que a punição ao chefe da guarda aconteceria no tempo certo.

Goran tinha um sorriso cínico. Não escondia a satisfação em ver o rival em estado lastimável. Fitou o falcoeiro dos pés à cabeça, seus trajes e sua aparência miserável. Virou-se para seus companheiros e num sinal de reprovação, soprou pelas narinas.


- Por favor, meu senhor. Minha casa é apenas uma extensão de seus domínios – respondeu Draszen, com um largo sorriso, mas que não refletia seus sentimentos.

Andras apeou de sua montaria e caminhou na direção de seu antigo falcoeiro. Draszen esperou por segundos, mas depois se aproximou, curvando-se em respeito à autoridade do nobre.

- Meu senhor – disse ele em voz baixa.

O rei desdenhou daquela reverência formal. Fez Draszen levantar e deu-lhe um abraço, deixando o com a face corada. Apesar de toda sua história no palácio, o falcoeiro não esperava uma demonstração de carinho como aquela.

- Entre por favor, senhor – repetiu Draszen, ainda com a cabeça baixa.

Os dois entraram na casa de madeira e o anfitrião se apressou em servir uma caneca de vinho ao soberano. Ainda que sem muito jeito, Andras se sentou na banqueta de couro de boi.

- Desculpe-me se não tenho um vinho melhor, meu senhor. Este foi uma cortesia de Nastia – justificou-se.

- Não se incomode, meu amigo. Já degustei vinhos que nem mesmo Nastia aceitaria em sua taberna – retrucou o nobre, prontamente.

Draszen sorriu sem jeito e sentou-se em outra banqueta, deixando o jarro de vinho em cima da mesa, junto ao manto vermelho.

Finalmente, o rei seria mais claro sobre suas intenções.

- Meu caro, Draszen. Serei breve e direto em minhas palavras, pois preciso de uma resposta ainda mais imediata. Entendo sua angústia e compartilho a dor por tudo que estás passando. Tanto que aceitei de bom grado suas atitudes intempestivas: o rompimento com a aia da rainha, sua baixa do exército e essa sua repugnante opção por andar por aí como se fosse um mendigo…

Cada palavra proferida pelo rei passou a encher seu coração de ódio. Como poderia aquele homem compreender a perda de um filho? O que ele sabia sobre a dor e a impotência diante daquelas circunstâncias?

Mas Andras continuou.

- Acredite que não viria aqui se não estivesse desesperado, meu amigo. Meus pássaros são como filhos para mim. Você sabe muito bem que, depois de minha amada rainha, eles são as coisas que mais tenho afeto.

Draszen precisou se controlar para não mandar o monarca às favas. Enojado, sua vontade era expulsar o monarca dali. Comparar pássaros a entes queridos? Um absurdo.

- Eles estão morrendo, Draszen. Meus queridos pássaros estão doentes. Ninguém cuida deles como você. Além disso, algum maldito da raça da escuridão roubou meu açor de olhos escarlates. Vim aqui para lhe propor uma oferta: dobro seu soldo e dou-lhe dois dias de folga a cada semana.

O silêncio tomou conta da sala por instantes.

E eis que Draszen, mesmo ainda sem conseguir dar um norte definitivo aos seus pensamentos, vislumbrou ali uma oportunidade para levar a frente seu plano. Pois dentro do castelo novamente e com a ajuda de Izbaza, sua demanda poderia ser completada.

Assim, quando o rei já ameaçava dar sinais de impaciência, o falcoeiro resolveu arriscar:

- Meu senhor, não precisa mais argumentar. Aceito sua oferta com o coração aliviado. Estava cansado de não fazer nada e com saudades dos pássaros. Talvez o trabalho me faça bem. A labuta pode me fazer esquecer o sofrimento. Ou ao menos amenizá-lo.

- Alviceras, meu caro amigo! Mal posso esperar para contar a Smiliana sobre sua decisão. Você não pode imaginar o quanto fez seu rei feliz. E digo mais, meu bom homem: em breve irei lhe revelar um segredo que o deixará esfuziante.

Sorriso desajeitado no rosto, Draszen abaixou a cabeça para o rei, que o abraçou novamente, como um pai que faz as pazes com o filho depois de um longo inverno de intempéries.

- Ah, sim. Só mais uma coisa. Já ia me esquecendo, aliás. A rainha me pediu para convencê-lo também a dar uma nova chance à Izbaza. 

Draszen franziu o cenho, deu um sorriso acanhado, mas respondeu amigavelmente:

- Precisamos de tempo para pensar, mas é uma situação que pode ser revista, meu Rei – disse Draszen, querendo protelar aquele tema.

O rei saiu da casa acompanhado do falcoeiro e, satisfeito, subiu em seu cavalo branco. Agradeceu mais uma vez e ordenou que todos partissem.

Goran, percebendo a mudança de humor de seu senhor, adivinhou o desenrolar daquele colóquio. Já não carregava mais em sua face aquele sorriso desafiador, mas voltou a fitar o falcoeiro de maneira fulminante. E quando os dois olhares se cruzaram novamente, açoitou seu cavalo com raiva.

Pôs-se a cavalgar com seus companheiros, então.

História: Fernando Russell @cancerjack
Ilustrações: Victor Negreiro @estivador
Revisão: Lucio Nunes @Lucio_N

21 outubro, 2010

18 outubro, 2010

SITALA – Parte 7

Sitala é um conto seriado apocalíptico de Fernando “Tucano” Russell, com ilustrações de Brunner Franklin.
Perdeu o início? Confira aqui!

O estádio estava lotado! Parecia o Superbowl: era grandioso, emocionante e me fazia lembrar da minha infância. Tive várias memórias dos momentos felizes que passei com meu pai na América.

As duas torcidas não entravam em confronto antes do jogo terminar. Era tudo muito organizado e as brigas tinham hora e local marcados. Um caos ordenado, eu diria. De um lado uma multidão vestida de verde, gritando o nome de seus heróis e do outro seus oponentes em roupas escarlates, irados e com testosterona jorrando pelos poros.

Ruslana estava ao meu lado e parecia íntima de estádios de futebol. Bebia cerveja, gritava e cuspia como uma verdadeira hooligan. Mesmo vociferando palavrões, ela continuava linda. A arquibancada lotada me fez ficar bem perto dela. Eu pude sentir aquele cheiro maravilhoso que seu corpo exalava, além de encostar-me àquela pele macia e sedosa que deixava qualquer um louco.

- Hoje serão duas vitórias! Vamos atropelá-los no campo e no asfalto – gritou um velho barbudo ao meu lado, fazendo-me voltar ao mundo real.

Eu fiz que sim com a cabeça, mas estava receoso. Eu achava uma idiotice brigar por causa de um jogo de futebol, mas eu estava com eles e iria até o final.

Os dois times entraram em campo debaixo de aplausos, gritos e vaias. Javier foi o mais ovacionado do lado dos Celtics. Também foi o mais xingado do outro lado do estádio. Não era para menos, o espanhol gostava de provocar a torcida dos Catholics antes, durante e depois das partidas.

O jogo começou mal para o nosso time. Os vermelhos marcaram primeiro e eu fui entendendo o porquê de tanta paixão e violência. Eu tinha entrado naquele mundo a pouquíssimo tempo e já estava começando a me contaminar com a doença dos hooligans. Ouvir a torcida adversária gritar gol já foi difícil, mas ouvir os insultos me deixou enfurecido a tal ponto que comecei a ansiar pelo confronto.

– Malditos – pensei alto. Vão ter o que merecem quando o jogo acabar. Ruslana achou graça na minha reação.

A raiva só passou um pouco depois, quando Javier começou a marcar gols. Foram três no primeiro tempo. Cada um deles foi seguido por uma explosão de alegria na torcida e os deboches que faziam despertar a cólera nos Catholics.

O segundo tempo foi difícil. O Cork City entrou achando que o jogo estava liquidado e se descuidou, deixando o adversário empatar. Eles chamavam de salto alto!

O jogo era muito dinâmico e meu coração disparava a cada lance de perigo. Javier estava impaciente com os erros dos companheiros e praguejava a todo momento.

Já estávamos nos preparando para o pior no jogo, mas o que aconteceu ultrapassava toda e qualquer previsão pessimista. Perto do final do jogo, um portão de ferro que dava acesso à rua tombou com um estrondo e um jipe amarelo invadiu o campo, deixando todo estádio atônito.



- Que merda está acontecendo? – Gritou Ruslana.

Eu olhei para o jipe e percebi que era Sean quem o dirigia.

- Cacete! Tem alguma coisa errada!

- Lógico que tem. Tem uma porra de um jipe amarelo em campo – retrucou o velho barbudo.

O jipe parou e alguns jogadores dos dois times partiram para cima do motorista. Javier percebeu que Sean estava transtornado e partiu para defender o amigo.

Ficamos todos olhando aquela cena sem entender nada do que estava acontecendo. Sean saiu do veículo e puxou uma lona que cobria a parte de trás. Eram armas.

A princípio pensei que teríamos uma guerra de torcidas, mas quando vi que tanto os Catholics, quanto os Celtics começaram a pegar as armas juntos, aquilo era ainda mais sério.

- Os Dragões – gritou Ruslana, fazendo com que um tumulto tomasse conta da arquibancada.

Ela estava certa e, em cinco minutos, o estádio foi invadido por caminhões negros e carros blindados. Javier e outros jogadores abriram fogo contra os orientais, mas o poder de fogo era pequeno para rechaçar aquele ataque.

Os irlandeses estavam em número muito maior, mas devido às restrições do uso de armas no estádio, aquilo se tornou um massacre. Foi como caçar ovelhas presas em um cercado. Os Dragões abriram fogo contra a arquibancada, acertando milhares de torcedores impotentes frente ao ataque.

Ruslana me puxou pelo braço e conseguimos sair do estádio. Fomos até o lugar onde ela tinha deixado a moto. Lá ela pegou sua AK-47 e disse para eu atirar em quem estivesse na frente. Não era muito, mas era melhor do que uma funda feita com camiseta.

- Temos que achar Javier. Eles estão atrás dele – ela disse ofegante.

- Como assim?

- Ele não te explicou nada?

- Explicou o que, Ruslana?

- Não dá para contar a história agora. Vamos tentar resgatá-lo.

Subimos na moto e demos a volta no estádio. Encontramos alguns Dragões com suas Akira Bikes guardando a passagem para o estádio. Não adiantaria enfrentá-los, então voltamos para o centro da cidade para tentar nos organizar.



A situação era tensa, mas eu tive dificuldades de me concentrar sentado na garupa de Ruslana. Fiquei olhando para aquele pescoço, onde nasciam uns poucos fios de cabelo loiros e tive vontade de mordê-la com toda a minha força. Ela teve que berrar para eu voltar à realidade e acertar um oriental que estava apontando um rifle para nós.

O sol já estava baixando quando chegamos ao Rio Lee. A cidade estava ainda mais vazia que o de costume e quando atravessamos a ponte próxima à Casa de Ópera de Cork, Ruslana parou a moto, olhou à nossa volta e disse:

- Ezekiel, eu combinei com o espanhol que se não nos encontrássemos depois do jogo, o ponto de referência seria a Igreja Shandon. Se Javier conseguir sair vivo do estádio, e eu acho que ele consegue, vai nos encontrar. Se ele não conseguir, você me ajuda a chegar a Londres.

- Tudo bem, mas eu preciso saber o que está acontecendo.

Seguimos para o ponto de encontro e escondemos a moto dentro da igreja. Subimos a torre dos sinos, onde ela, ofegante, começou a me contar sua história:

- Eu tenho um frasco com um componente muito importante que precisa ser entregue para um grupo de cientistas em Londres o mais rápido possível. A viagem para Londres é muito perigosa e Javier vai me escoltar. Isso se ele sobreviver ao ataque. Esses coreanos que vocês chamam de Dragões estão atrás desse frasco para destruí-lo.

- E essa substância? É alguma vacina? Você disse para Javier que tinha a cura. Eu ouvi você falando isso quando chegou.

- Não Ezekiel, não é uma vacina. É uma bactéria altamente letal.

- Ahhh, e os cientistas precisam dela para desenvolverem uma vacina, certo? Só não entendo porque esses orientais querem impedir.

- Garoto, presta atenção. Nós vamos livrar o mundo do ser humano de uma vez por todas. A bactéria vai ser modificada para sobreviver na água. Nós vamos salvar o mundo. Nós vamos fazer o que a varíola não fez.

Minha cabeça explodiu. Eu ouvia as palavras, mas não queria acreditar que Javier e Ruslana eram os vilões daquela história.

- Espera. Acho que você está nervosa com a situação e pulou alguma parte, Ruslana.

- Droga, Ezekiel, pára e pensa. Você acha que está certo isso? O mundo estava um caos e daí um vírus acaba com noventa por cento da população mundial. Ainda assim a guerra não acabou, a violência continua a mesma, toda a podridão de antes permanece. Nós temos que acabar com isso de uma vez por todas.

- Eu olhei para os olhos de Ruslana e vi que ela estava falando sério. Apontei a AK-47 para ela e mandei ela parar.

- Você é louca? Olha o que você está falando!

Ruslana ficou paralisada. Para ela, tudo aquilo fazia muito sentido. Era evidente que a russa não tinha noção de quão insano era aquele plano.

- Não se mexe, porque eu vou atirar se você tentar alguma coisa. Eu vou esperar Javier e vamos desfazer esse mal entendido. Ele também não deve saber direito o que você pretende.

Ruslana levantou as mãos e pediu calma. Disse que não reagiria e que era uma boa idéia esperarmos pelo espanhol. Fiquei olhando para aquela mulher. Era a coisa mais linda que eu já havia visto e por isso mesmo era tão difícil acreditar na loucura que ela acabara de me contar.

- Americano, posso te perguntar uma coisa?

Eu fiz que sim com a cabeça, mas não soltei a arma ou deixei de apontá-la para ela.

- Você me acha bonita?

- É claro. Você é muito bonita. E igualmente louca. O barbeiro estava certo.

- Tudo bem, eu vi como você me olhava no estádio, como ficava próximo, esbarrando “sem querer” e senti sua respiração próxima à minha nuca, na motocicleta.

Droga! Bochechas rubras de vergonha! Eu fiquei extremamente constrangido com aquelas palavras. Eu me senti um animal sem controle. Um imoral. E o pior de tudo, ela sabia disso.

- Você conseguiu se controlar, mas em seus desejos mais íntimos, você queria rasgar minha roupa e me atacar. Não é isso?

- Não é bem assim…

- É assim, sim. Seja sincero, você me imaginou nua, Ezekiel?

Eu não disse uma palavra, mas meus olhos fugiram dos dela e ela teve a resposta imediatamente.

- Era assim que você me imaginava?

Eu levantei os olhos e vi que ela levantara a blusa do Cork City Football. Fechei os olhos imediatamente, tentei me concentrar, mas não consegui. Reabri os olhos e a admirei.

- Responda-me: era assim, Ezekiel?

Uma gota de suor escorreu em minha têmpora, mas graças a Deus, ela baixou a blusa e eu pude me restabelecer.

- Vê, Ezekiel? Foi difícil, mas você não me atacou. Você está com um rifle na mão e mesmo assim se controlou. Podia ter me agarrado à força, mas não o fez.

- O que você quer de mim?

- Quero que pense em todas as pessoas que você já conheceu. Tente contar quantas pessoas teriam conseguido se controlar. Qual dos seus amigos irlandeses não teria tentado me agarrar na garupa da moto? Quantos tomariam a decisão certa?

Pensei em algumas centenas de pessoas. Lembrei de meu pai, do vizinho que invadiu a minha casa, dos cowboys no navio, dos irlandeses de Youghal, os hooligans do Cork City e até em Javier. Ninguém!

- O mundo está perdido. A varíola varreu quase todos, mas os que sobraram não aproveitaram a chance. Podiam recomeçar de uma maneira diferente, mas preferiram continuar com a podridão.

- E a solução é matar a todos? Por que não deixar nas mão de Deus? Por que não tentar mudar o mundo? Isso é assassinato. Você está propondo um holocausto! Existem mais pessoas como eu. Pessoas que se controlam e respeitam os outros.

- Ezekiel, vamos esperar por Javier. Eu prometo que não vou mais te perturbar e nem tentarei te desarmar. Vamos apenas esperar, o espanhol.


Texto: Fernando “Tucano” Russell
Ilustrações: Brunner Franklin
Revisão: Lucio Nunes 
Fonte: Jovem Nerd